CAPITULO CINCO

Jantamos num silêncio pesado, parecia que a morte desse Tião, quem quer que fosse, abalara profundamente o dono da casa.
Quanto a Gustavo e Miriam, estavam tão calados e sérios quanto pacientes terminais desenganados. Por alguma razão, os dois estavam bastante pálidos, o que não era natural, dado o tempo que passavam ao sol.
Eu percebia agora como os dois estavam enfraquecidos! E só agora eu notava que aquilo fora gradual. Pareciam de fato doentes, e mal tocaram a comida antes de se esgueirar para as suas camas, com murmurados boas-noites. O Sr. V. os imitou em seguida e fiquei sozinho na mesa. Maria estava na casa de Juca e ninguém parecera se importar com a louça. O sono não me visitara ainda, pus-me a lavá-la para passar o tempo.
Assim estava eu, quando, na janela à minha frente, vi passar um vulto de chapéu à luz da lua, e imaginei que fosse Juca. Chamei-o, com a intenção de que fosse dizer à Maria para vir me ajudar a achar o lugar de cada coisa.
O vulto me ignorou, ou fingiu me ignorar. Não sei se movido por curiosidade ou então por ter realmente necessidade de ajuda, saí de casa para procurá-lo.
Encontrei-o nos fundos, de costas para mim, e de frente para aquela água que começava a me causar calafrios. Houve algo que me fez hesitar. Talvez a escuridão, talvez a estranha imobilidade do suposto Juca, ou talvez fosse um eco das histórias de Maria. Chamei-o uma segunda vez e nada.
Meu velho avô dizia para meu pai, como meu pai dizia para mim: não dê a volta sem ver do que se trata.
Caminhei até o vulto e toquei-o no ombro. Suas roupas estavam molhadas e só então percebi que não eram as roupas de Juca.
Aquilo se virou de frente para mim, e eu teria gritado, mas o medo me roubou a voz da garganta.
Existem rostos feios, rostos medonhos, rostos anormais, rostos sobrenaturalmente apavorantes e caras de demônios. Já vira todos eles, ou de carne e osso, ou em meus pesadelos. Mas há uma coisa ainda pior.
Um homem – se é que era um homem – sem rosto algum.
Sob o chapéu havia uma massa sem cabelos nem feições, imitando a forma de uma cabeça humana, a coisa era de uma cor orgânica e um aspecto repugnante, fluido e viscoso. Fui tirado da paralisia quando aquilo ergueu para mim a sua mão gotejante. Então eu corri. Corri como se o diabo estivesse atrás de mim.
E talvez estivesse.
Vi a casa se aproximando e tropecei perto da parede, devo ter deixando uma marca na tinta quando meu rosto chocou-se contra a dureza da construção. Tentei me levantar, o mundo girava. Senti que o jantar estava voltando e, antes que eu vomitasse, suas mãos me seguravam. Se eu pudesse, teria me afastado, mas estava indefeso, despejando uma gosma nojenta no gramado.
Levantei os olhos e vi Helena.
-Corre… tem um… uma…
-Tem o quê? Onde?
Olhei na direção da piscina. Não havia mais nada lá.
-Deve ter pulado na água…
-Quer ir até lá verificar?
Desvencilhei-me de suas mãos, tremendo e disse.
-Não! Não vá lá você também!
-Você devia ter ido embora – respondeu ela, sem se mover – as trevas vão chegar esta noite.
-Como você saiu de casa?
-Eu saio quando eu quero. Vem, eu vou te por na cama.
Tomou-me pela mão e subimos juntos as escadas até o meu aposento. A casa estava em absoluto silêncio, tão pesado que chegava a enervar.
E aquela jovem, bem mais jovem do que eu, que tinha um olhar e uma voz que demonstravam uma sabedoria incalculável, me conduziu até a cama e me fez deitar, tal qual eu fosse uma criança.
A vi sorrir, sentada na beira e, estranhamente em paz, desejei que ela deitasse ao meu lado.
Ao invés disso, ela começou a cantarolar baixinho, e eu fiquei imóvel, sonolento. O último som de que me lembro antes de sucumbir ao sono foi o de correr de água.