CAPITULO QUATRO

Miriam, neste meio tempo, adormecera. Felizmente, o ferimento era superficial, e o pai a despertou e o examinou. Ela se queixava de cansaço, e estava um pouco pálida, mas, no mais, estava bem.
-Também não é de se admirar! – esbravejou o velho – Vocês dois têm comido pouco, e passam o dia na água. Porque não vão fazer outra coisa?
-Não dá pra formar um time de vôlei com tão pouca gente, pai.
-Que bom! Pois eu disse que queria sossego, e aquela sua turma, Miriam, era o exato oposto disso.
Pensei que Miriam iria dizer alguma coisa, mas ela só suspirou e fechou os olhos, desdenhosa. Gustavo estava ao lado, afundado em uma outra poltrona, e parecia exausto.
O Sr. V. resmungou e saiu. Eu contemplei os dois, e eles não pareciam nem um pouco dispostos a conversar.
Saí dali para a o pátio dos fundos, e olhei para a piscina. Agora não era mais ilusão, a água realmente turvara nos últimos dias, o que era natural, já que não fora trocada.
Era de um modelo simples, daquelas de fibra de vidro, azuladas. Não tinha sequer escoamento. A água precisava ser trocada com o auxílio de uma bomba externa, e isto dificultava a limpeza.
Por que raios o Sr. V. escolhera aquilo, se poderia facilmente mandar construir um modelo de azulejos, com um encanamento completo? Até mesmo o filtro daquela piscina era externo e precisava ser carregado. À exceção de umas válvulas para enchê-la, não passava de uma enorme bacia enfiada no chão.
Olhei para a água e não gostei do jeito que minha sombra se projetava ali.
Afastei-me, sentindo uma espécie de alívio.

. . .

O dia passou lento e monótono. Os dois irmãos pouco fizeram além de dormitar na sala. Eu li por algum tempo e, depois, fiquei do lado de fora, contemplando a casa onde Helena era prisioneira.
Sim, eu estava me apaixonando.

. . .

Pontualmente às seis horas, deslizei para a cozinha, passando pelo Sr. V., que estava entretido limpando uma velha espingarda de caça, que eu já vira em suas mãos outras vezes, em seu apartamento na cidade. Ergueu os olhos brevemente para mim. Parecia aflito.
Encontrei Maria de frente para uma pequena imagem de Nossa Senhora, as mãos unidas, os olhos fechados e a boca murmurando orações. Esperei ela terminar.
Ficamos nos olhando por bastante tempo, quando finalmente ela disse baixinho, após me chamar pra perto dela:
-Ela já falou comigo também. O que foi que ela te disse?
-Não entendi muito bem. Parece que disse pra eu ir embora, como se tivesse algum tipo de ameaça por aqui…
-Eu não duvido… esse lugar é ruim…
-Ruim como?
-Maldito.
Fiquei olhando para ela, intrigado, até que voltou a falar.
-O velho que morava aqui antes tinha parte com o coisa-ruim. Nunca saía daqui, e dizem que tinha ouro enterrado, do tempo da escravidão. Tem gente que eu conheço que diz que via ele conversando com o tinhoso numa clareira que tem no meio daqueles matos… – benzeu-se – eu nunca vou pra lá, nem por todo o ouro do mundo! Foi um alívio quando ele sumiu.
-Quê? Sumiu?
-É. Um dia, há uns seis anos atrás, encontraram a tapera dele vazia, parece que sumiu no ar, sem levar nada. Pra mim, tinha chegado o dia em que o diabo veio buscar o que era dele por direito. E, de vez em quando, se escuta coisas por aqui. Assombração.
-E por que a senhora está me contando isso?
-Porque… porque, se a Helena te disse pra ir embora, você devia ir, e logo. Ela fala pouco, mas nunca erra.
-Como assim?
-Não comenta com ninguém, mas eu era a única desta casa com quem ela tinha falado, antes de você. Guarda segredo, porque o Juca e o patrão pensam que ela é muda até hoje, seis anos depois. E, quando ela falou comigo, ela disse que eu devia ir até a estrada antes do fim da tarde. Eu não sei bem porque eu fiz isso… mas eu fui… e encontrei, no lugar onde ela tinha me falado, o meu único filho, que é toda a minha família desde que meu marido morreu, já faz mais de vinte anos.
Ela prosseguiu, como se falasse mais para si mesma.
-Ele tava andando a cavalo, e caiu quando o bicho se assustou e fugiu de alguma coisa na curva que ele só ouviu, mas não viu o que era. Tinha quebrado a perna, e podia ter ficado ali por muito tempo, porque a estrada que vem pra cá é muito pouco usada. Ele vinha me trazer dois patos, porque sabe que eu gosto muito. Consegui amparar ele até aqui e o patrão mandou o Juca levar ele de carro até o hospital.
-Quando foi que isso aconteceu?
-Faz uns dois meses. Logo quando o patrão veio pra cá. Você sabe como a Helena veio parar aqui?
-Ouvi alguma coisa.
-O Juca foi o primeiro a ocupar o lugar, na casinha dele, logo depois que o Sr. V. comprou o terreno. E, antes de chegarem os homens pra derrubar a tapera do velho e começar a construir, ele achou ela no mato, meio perdida. Foi o que ele contou, pelo menos.
-E ninguém nunca tinha visto ela antes?
-Eu acho que não… acho que ela não é daqui, senão não tinha entrado no meio daquele mato, onde o capeta aparece… ou quem sabe…
-Que sabe o quê?
-Quem sabe foi o próprio que ensinou ela a ver as coisas… Ah! Bate na boca e pede perdão, Maria! A menina é tão boazinha! Salvou a vida do teu filho, velha ingrata…
E começou a me ignorar, tratando do jantar que em breve seria servido.
Lá fora, as sombras iam ficando mais compridas e eu encontrei o Sr. V. olhando para a estrada, com a espingarda na mão.
-Que diabo! Por que o Juca está demorando tanto?