CAPITULO TRÊS

A casa não tinha telefone, e nem televisão, pois o Sr. V., em sua ânsia por sossego, se isolara em grau quase absoluto. A despensa poderia muito bem ser chamada de estoque, e representaria uma boa vantagem durante uma guerra. Os dias transcorriam, entre jogos de carta e tabuleiro, conversas banais e banhos na piscina, dos quais eu não tomava parte. Dizia que estava resfriado, e talvez acreditasse nisso, mas a verdade é que eu não gostara nem um pouco daquele lugar, mesmo sem saber por quê. Talvez fosse somente pela associação que eu fazia com a aparição da dama misteriosa, que desde então eu não vira mais, e nem fora mencionada na minha presença.
Foi na manhã do terceiro dia, junto com o menino que trazia os jornais da semana, especialmente encomendados, que a notícia veio.
O Juca falou com o Sr. V. com uma expressão abatida, e era óbvio que chorara, e eu estava presente, lendo, ignorado, na ampla sala de jantar. Gustavo e Mirian estavam nadando, e o dono da casa tomava seu café atrasado, pois levantara tarde naquela manhã, o que não era habitual, e parecia um tanto cansado. Foi quando o Juca entrou na sala, chapéu na mão e um misto de humildade e melancolia no olhar.
-Patrão, eu queria saber se a Maria pode dar uma olhada na Helena, lá em casa. Eu tenho que ir ao povoado.
Maria era o nome da empregada, e agora eu sabia que a dama noturna se chamava Helena. Fingi continuar enfurnado no meu livro e apurei os ouvidos.
-Acho que ela pode, Juca, mas por que você precisa ir de repente?
-É o Tião, patrão. Ele passou dessa pra melhor.
Houve uma pausa, na qual o silêncio ficou quase tangível. Continuei “lendo”, até que a voz do Sr. V. soou novamente:
-E como foi isso?
Não parecia surpreso.
-Um acidente bobo, que ele podia ter evitado. Tava trabalhando com as telhas da casa, escorregou e caiu.
-Quebrou o pescoço?
-Não, mas a gadanha que ele usava tava jogada no chão, com a lâmina virada pra cima. E o Tião sempre foi tão cuidadoso com as ferramentas que parece até castigo, patrã…
-Tudo bem! Tudo bem! Pode ir, eu peço pra Maria olhar a menina daqui há pouco.
-Eu preferia, se o senhor perdoa o abuso, que ela ficasse lá, cuidando da Helena. A pobre não tá bem hoje. Tá vendo coisa.
Novamente o silêncio.
-Pode ir, pega o carro, eu vou mandar a Maria para lá.
Um instante depois eu estava sozinho. Escapuli da cozinha e fui encontrar Gustavo, que estava atirado numa cadeira, com um ar cansado.
-Quando é que você vai deixar de ser bobo e cair na água?
-Quando eu melhorar do resfriado, vou dar cem voltas na piscina, mas agora eu queria saber uma coisa.
-Fala.
Parecia cansado demais, reticente até nas palavras. Atrás dele, a irmã boiava sobre uma daquelas poltronas plásticas flutuantes e parecia adormecida.
-Você sabe essa tal de Helena, filha do caseiro?
Neste exato instante, a poltrona de Mirian virou e ela deslizou como uma pedra para a água. Teria sido um incidente sem importância, se em seguida eu não visse sangue na água.
-Mirian, cê tá bem?! – gritei.
Nenhuma resposta, Gustavo ria baixinho, com os olhos voltados para o céu, inconsciente do que ocorria. Eu via o sangue se espalhando e corri para a borda, gritei o nome dela três vezes e ela continuou submersa, os cabelos e as pontas dos dedos logo abaixo da superfície tingida de vermelho.
Meti as mãos dentro da água – e foi preciso coragem para tanto – agarrei um dos pulsos dele e, para minha surpresa, sua mão agarrou-se a minha. Ela não estava inconsciente. Comecei a puxar, mas era como se alguma coisa puxasse ela de volta, não dava resultado e, no entanto, ela não largava a minha mão, parecia inclusive fazer força para sair. Gustavo parecia um idiota, entorpecido olhando uma nuvem distante.
-Gustavo! Que merda! Ajuda aqui! Tua irmã tá se afogando!
Ele piscou algumas vezes, como quem desperta subitamente de um sono muito profundo, e recuperou a energia que lhe era característica. Saltou para o meu lado.
-Que droga, Toni! Puxa com força!
Agarrou o outro pulso e começou a me ajudar. E digo que foi com esforço e rostos vermelhos que tiramos Mirian da água. Seu peso parecia ter duplicado e sua densidade ficado como a do chumbo. Mas esta impressão desapareceu quando finalmente ela emergiu, tossindo e respirando novamente, e com sangue a lhe escorrer de um ferimento na testa.
-Mana, tá me ouvindo?
-Tô – disse ela com uma voz pastosa – tô um pouco tonta…
Tentou ficar em pé, e tropeçou, quase caindo novamente na água, mas nós a amparamos. Conduzimo-la para dentro da casa e Gustavo colocou um curativo no seu corte. Apesar de meio grogue, ela parecia bem de resto, e ficou um longo tempo recostada numa poltrona, olhando para o teto e com o irmão ao lado. Quando recuperou a calma, Gustavo falou:
-Você ia me perguntar uma coisa, Toni.
-Era sobre a filha do caseiro. O que ela tem?
-Helena? Já ouviu falar dela? Bom, ela não é exatamente filha dele…
-Como assim?
-Ela tinha uns dez ou doze anos, ninguém sabe ao certo, quando foi encontrada por aqui. Não falava, tinha medo de todo mundo e estava vestindo farrapos. O Juca ficou com pena dela e acolheu a menina. Não se encontrou nenhum parente vivo e ela não falou nem pra dizer o próprio nome. Parecia uma pessoa desconhecida do mundo, e tudo foi pesquisado, diz o meu pai. Aí então, depois da confusão e da papelada e da amolação com juízes e advogados, o Juca acabou batizando a moça e ganhou a guarda dela.
-E isso foi quando?
-Um pouco antes de começarem as obras aqui, e um pouco depois do meu pai comprar o terreno. Falando nisso, você viu ele?
Só então achei estranho que, com toda aquela algazarra, o Sr. V. ainda não tivesse dado as caras. Disse que iria procurá-lo e que ele cuidasse da irmã.
Varri a casa toda e nada. Saí para o exterior e continuei andando até a casa de Juca.
Foi com surpresa que a encontrei silenciosa, e de portas abertas. Entrei no humilde aposento e não vi sinal de ninguém por ali. Além de uma cozinha e dois quartos abertos e vazios, só o que existia era um banheiro minúsculo. E, ao meu redor, aquele silêncio ruidoso.
Comecei a sentir medo, mesmo sem saber por que, e me preparava par deixar o lugar quando a vi.
Parada no umbral da porta da frente, usando um vestido simples e recatado, provavelmente do guarda-roupa de uma vovó já falecida, do tempo em que esta era jovem. Tinha cabelos longos que se poderia dizer nunca terem sido cortados, pés nus sobre o chão, ainda que delicados, e um rosto de uma beleza fascinante, quase espectral, que parecia não estar completamente neste mundo.
Parei e admirei, fascinado. Era uma figura de sonho e encanto.
Ela falou pela primeira vez, com uma voz perfeitamente lúcida, além de musical, ainda que as suas palavras fossem insólitas:
-Deixe esta casa.
-Por… quê? – foi tudo o que meu coração acelerado me permitiu articular.
-Porque logo as trevas vão cobrir este lugar, e coisas ruins vão acontecer, e a fúria daquele que dorme sob a terra não é dirigida a você, mas não o poupará se você ficar em seu caminho.
Eu estava estupefato.
-Helena… esse é o seu nome, não é?
-É assim que me chamam aqui.
-Por favor, entre. Eu não quero lhe fazer mal, mas lá fora é perigoso…
Caminhei em sua direção e lhe toquei o braço, ela estremeceu, como se há muito não sentisse o calor do toque de outra pessoa. Então fechou os olhos e disse:
-Você é bom. Não merece o que vai acontecer aqui.
Tomou minha mão entre as suas. Eu estava mudo.
-Aí está você! – disse uma voz do lado de fora, carregada de alívio.
Eram o Sr. V. e Maria, ela largou-me e voltou seus olhos para eles, assumindo uma expressão completamente diferente. Como se, de um momento para o outro, tivesse ficado em transe.
-Vem comigo, menina… – disse Maria, gentil, conduzindo-a para o quarto – …vamos descansar…aqui…entre e fique calma…
Um instante depois, Maria chaveava a porta de seu quarto e me privava da visão de minha musa.
-Obrigado por segurar a menina, rapaz – disse o meu anfitrião – de vez em quando ela escapa, e foge para o mato. Estávamos procurando por ela até agora.
-E ela… sempre fala daquele jeito?
O Sr. V. me olhou como se eu tivesse dito que as pedras eram macias e comestíveis.
-Ela falou com você? Essa menina nunca disse uma palavra, nos seis anos que está aqui.
O olhar de Maria me assaltou, e me pareceu que a empregada estivesse com medo e me censurando. Seguindo uma intuição que acabou por se mostrar certeira, mais tarde, eu disse:
-Não, não falou. Mas é que ela se expressa com olhares tão vivos que é quase como se falasse.
-Mas às vezes ela também aponta para o ar e grita, e às vezes está na floresta, nua, dançando e rindo. E apronta das suas quando chega perto da casa. Uma vez, quando ainda estávamos construindo, ela desenhou em quase todas as paredes com um pedaço de cal, e os desenhos eram… nem é bom falar! Pra mim, o lugar dela era numa instituição. Seria melhor pra ela e pra nós.
E se retirou. Eu e Maria saímos logo atrás.
-Me encontra as seis na cozinha… – murmurou a velha, baixinho, e se afastou em seguida.