CAPITULO DOIS

Agitei-me na cama sem dormir, mas num estado de torpor semiconsciente carregado de angústia. Finalmente me levantei convencido de que não conseguiria conciliar o sono, mas ao mesmo tempo dizendo a mim mesmo que estava numa casa moderna e confortável, pois a sensação era a de dormir num abrigo precário e mal protegido. Não a sensação física, mas a espiritual, a que decide a qualidade de nosso sono.
Acendi as luzes e olhei para as paredes sólidas, a fim de me certificar de que estavam lá, e caminhei de volta para a cama. Porém, ao me deparar com a janela, fui surpreendido por uma cena curiosa.
A propriedade era quadrangular e, exceto na entrada, rodeada de árvores, dentro e fora do limite da cerca, que tinha uns bons dois quilômetros de diâmetro. A parte habitada era composta da casa, com uma piscina nos fundos, um campo de futebol e a quadra de vôlei ao lado, separados os dois conjuntos por uma trilha calçada de pedras. Além disso, só havia a casinha, mais simples, de Juca, próxima da entrada.
Minha janela dava para os fundos, e a noite estava especialmente luminosa, com uma lua quase cheia e um céu sem nuvens. E o reflexo de sua luz eu via na água sob minha janela. Mas não era tudo o que eu via. Fazendo um quadro bonito, quase literário, havia uma jovem de cabelos longos e vestido esvoaçante na beira da piscina. Não podia distinguir os detalhes de seu rosto, mas sabia que não era Miriam. Pois a filha do sr.V. tinha uma tendência a ser rechonchuda, talvez voluptuosa fosse a palavra correta, pois era de fato muito bonita. Mas a moça sob minha janela, que eu julgara subitamente distraída pelo acender apagar de luz, era de compleição bem mais delgada, e dava-me aquela impressão, que muitas mulheres dão, de ser uma sílfide, graciosa e esquálida.
Ela olhava em minha direção, mas seus pés, que pareciam descalços, estavam voltados para a água, com a cabeça virada para mim, ela fez um gesto que, à minha imaginação, pareceu querer dizer para deixá-la sozinha.
Imediatamente, uma ideia estranha me veio à mente, e digo estranha porque não teria sido natural de minha parte pensar assim:
“Isto não é assunto meu. Vou voltar a dormir.”
A partir daí, a próxima coisa de que me lembro é acordar com uma buzina de sopro sendo tocada em meus ouvidos. Gustavo me dizia em seguida:
-Já passa das dez, malandro! Põe um calção e desce!
Ainda atordoado pelo despertar súbito e cansado como se tivesse feito uma grande distância a pé, me levantei e contemplei a piscina pela janela. Mirian nadava, e vê-la de biquíni me devolveu o ânimo. O Sr. V. estava numa cadeira na beirada e sorria satisfeito. Em minutos, eu me juntaria a eles.

. . .

-É assim que se faz, para evitar o frio.
E, com estas palavras, Gustavo se atirava na água, dando gargalhadas.
-Cuidado, guri! Vai molhar meu jornal!
-Deixa o jornal e entra na piscina, pai – respondia Mirian – desde que ficou pronta você não experimentou.
Foi visível, pelo menos para mim, que o comentário desagradou o homem, embora eu não imaginasse por que. Ele enfiou a cara atrás do jornal e calou-se.
Quanto a mim, caminhei até a borda, olhei para a água, e hesitei.
Havia alguma coisa que me impedia. Fitei a superfície e, por um estranho efeito ótico, me pareceu que a água não era cristalina, mas que refletia meu rosto perfeitamente, como uma superfície espelhada que devolve toda a luz que recebe, sem nada absorver. Misteriosa e insondável. E me pareceu que, ao mesmo tempo em que o que eu via era o meu rosto, não era ele, na verdade, mas sim alguma pessoa brincalhona se fazendo passar por mim, gracejando.
Tal perturbação, no entanto, não durou mais que um breve instante, ao final do qual eu sacudi a cabeça e olhei para o céu azul.
-Acho que também não vou entrar.
-Maricas! – gritou Gustavo, sorrindo.
Sentei-me em outra cadeira e o Sr. V. olhou para mim. Vi um sinal de reconhecimento em seu rosto, como se ele soubesse o que tinha visto e, ao mesmo tempo, me advertisse mudamente para não falar nada. Tentou disfarçar em seguida, voltando ao jornal.
-Bem… – comecei eu, notando o constrangimento do homem e tentando afastar as impressões que, havia pouco, me deixaram perturbado – existe alguma outra moça na propriedade, Sr. V?
Ele pareceu surpreso com a pergunta. Ergueu os olhos novamente e me olhou fundo:
-Por que, Antônio?
-Não é por nada, mas ou eu andei sonhando ou, ontem à noite, eu vi pela janela do meu quarto uma moça, perto da piscina.
O homem empalideceu, e eu esperei que me dissesse que eu vira algum espectro que ele também conhecia, mas limitou-se a dizer algo comum, em desacordo total com a expressão de seu rosto:
-Deve ter sido a filha do caseiro, mas eu não sabia que ela podia sair de casa.
-E por que não poderia?
Ele piscou e fez um som murmurante, como se estivesse falando consigo mesmo, e só agora percebesse minha presença.
-Ela é doente – e apontou um dedo para a cabeça. Tornou a ler, carrancudo, e não tive coragem de lhe perguntar mais naquele momento.
Fiquei a olhar a piscina, e imaginei se a “doença” da moça teria relação com aquele lugar. Mas qual relação? E por que uma jovem mentalmente perturbada vagava durante a noite, se não podia sair de casa? Teria fugido? Nada naquela quietude indicava isso.