ÚLTIMO CAPITULO

Minha próxima lembrança é o hospital, e um policial me interrogando enquanto eu curava queimaduras e cicatrizava ossos trincados. Eu devia, seguramente, estar grogue devido aos anestésicos, pois contei a ele o que você acabou de ler aqui.
E repeti a história no tribunal, quando fui acusado de homicídio.
Passei os últimos dez anos num manicômio criminal. Não sei o que é feito hoje de Morgana. Nunca mais a vi desde que matamos a coisa com fogo e madeira.
Quando finalmente fui considerado apto a viver novamente em sociedade, meu irmão mais novo assinou um termo de responsabilidade por mim e fui viver em sua casa, num quarto pequeno, próprio para um inválido.
Raramente saio daqui e, quando o faço, fico perturbado. Não estou adaptado ao mundo lá fora. Dez anos podem não parecer tanto tempo assim, mas você, provavelmente, não passou os últimos dez anos trancado com gente tentando convencê-lo de que é doente, para que possa curá-lo. E o mundo muda rápido.
Menos no que devia.
Lendo um jornal recentemente, vi o anúncio de uma bela casa no campo para vender, havia até mesmo uma foto. Era outra casa, construída recentemente.
Mas a piscina era a mesma.
Então me lembro de Gustavo e Miriam, ficando pálidos e cansados, de tanto brincar na água, e mesmo assim, viciados naquela bacia azul. E lembro de Morgana, que eu queria que estivesse aqui comigo, apesar de tudo, e que os médicos dizem nunca ter existido, que dizia que o velho se alimentava lá embaixo.
Então eu penso em famílias grandes e ricas, com filhos alegres e cheios de vida, chamando outras crianças, primos e amigos, para se divertirem durante um fim de semana na casa no campo. Penso nos pais felizes, porque os pirralhos irrequietos estão finalmente cansados e querendo ir para a cama cedo, pela primeira vez na vida, após uma tarde de brincadeiras.
Penso em seguida em ossos debaixo da terra chacoalhando-se de felicidade e na água ficando opaca, e aquela criatura viscosa e verde musgo se arrastando para fora da água, enquanto todos dormem, coberta de limo e maldade. Todos dormem enquanto ela se esgueira para dentro. Talvez sobre o adolescente revoltado, depois do banho de sangue, para servir de culpado fácil de se odiar, que assassinou a família inteira durante o sono. Ia ser matéria de revista.
Afinal, para o “velho teimoso”, todos nós não éramos invasores?
Eu penso em tudo isso, e penso em o quanto tempo ele demoraria para me achar.
Não consigo dormir e rezo, pelo meu bem e pelo de muita gente, rezo para que o monstro desta história seja eu, afinal de contas. Um louco desvairado que mata uma família e seus criados e põe a culpa em uma bruxa e seu avô morto-vivo. Porque, se for assim, se eu realmente tiver imaginado tudo, um delírio para acobertar um ato horrendo, motivado por alguma razão obscura, eu sou inofensivo agora. Trancado durante a noite, medicado e vigiado durante o dia. Enfraquecido por dez anos de tormento.
E mesmo que não fosse assim, se eu for o monstro, eu sou só um homem, e um homem é fácil de destruir.
Mas… e se eu não for?