CAPITULO DEZ

Lá fora, a coisa se ergueu mais uma vez.
Rastejou para fora de sua cripta aquática e entrou pela porta dos fundos, confiante. Já não nos temia mais. Veio até nós.
Nós a vimos chegar na penumbra da cozinha, onde ambos estávamos, e havia duas portas ali, uma em direção à frente da casa, a outra comunicava-se com a sala. Eu, junto ao fogão, agachado, e, sobre o fogão, a vela que fora transferida da sala repousava. E Morgana estava de frente, e a viu primeiro. Eu me lembro de ler em seu rosto que a coisa estava encurtando cada vez mais o espaço. Talvez desconfiasse de algo, mas nos subestimava, de qualquer maneira. Creio que achava que sua aprendiz iria tentar controlá-la, ou algo assim.
A coisa passou por mim. Morgana aguardava, como um cordeiro de sacrifício, imóvel e com as mãos às costas. Quando o monstro estava perto o suficiente, ela exibiu as mãos. Segurava um pequeno galão de querosene. A despensa do Sr. V. era muito bem provida. De um golpe, encharcou a coisa, e, imediatamente, eu me levantei e apanhei a vela. Arremessei contra o inimigo.
Dor estava além do seu alcance, mas o fogo podia feri-lo, se um golpe de espingarda podia. Morgana, durante a breve distração que eu criei, correu e ele se voltou para mim. Eu tinha mais um trunfo. Um pequeno pacote de pólvora, cuidadosamente raspada dos cartuchos restantes da espingarda, que haviam estado em uma gaveta.
Tomei distância, pois a coisa era lenta, e arremessei.
A explosão estilhaçou as janelas e me deu tempo de sair através da porta pela qual o monstro entrara. Passei a chave em seguida. Pela outra porta, fugira Morgana, agora também trancada. Eu esperava que a coisa não atravessasse as basculantes de aço da cozinha, por tempo suficiente para que o fogo purificador trabalhasse.
Encontramo-nos na beira da piscina, no pátio externo. Eu tinha agora um cabo de vassoura nas mãos, e ela, uma perna de mesa.
A casa já se incendiava, e nós a vigiávamos, em meio à confusão de labaredas e fumaça.
Foi então que ele veio. Agora, parecia apenas um esqueleto defeituoso, uma pilha de ossos carbonizados, sem cabeça e sem um braço, cambaleando. Surgiu derrubando a porta dos fundos. Aparentemente, a sua força nada tinha a ver com a fragilidade de seu corpo. Tentou chegar até a água com seu passo lento, mas conseguimos derrubá-la com algumas pauladas, e, por sorte, seu único braço não conseguiu nos atingir. Quando a pilha de ossos caiu, continuamos batendo até que só restassem fragmentos. E esses viraram pó. Bateu um vento e o pó se desfez em nada.
Gargalhei alto, vitorioso, e sentei-me no chão. Vencêramos. Ri, até perder as forças, do absurdo de tudo aquilo. Todos mortos, e eu rindo. Ri pela última vez em minha vida.