I

Por uns primeiros e felizes anos, Glória havia sido uma garota comum, de vida simples e pobre, porém feliz, até o dia em que forças militares muito maiores que as de seu insignificante povoado avançaram sobre todos por ali. Muitos dos soldados, talvez a maioria, sequer era humana. Eram aberrações, distorções profanas das crias naturais do mundo ou então emanações obscenas do mal e do podre, evocadas de abismos horrendos mais velhos que o mundo, que só surgem quando um deus profere um blasfêmia e só vêm ao mundo quando aqueles que tem o perigoso conhecimento e poder para tanto os evocam.

A única sobrevivente que conhecia do povado, Glória havia mudado. Submetida tormentos horrendos e provações físicas e espirituais inumanas, seu ser deixara de ser humano. Após libertar-se de seus captores, Glória deixara para sempre de ser uma mulher.

O prazer e a maior parte das dores do corpo e do espírito haviam deixado de existir nela, bem como o amor e a compaixão, ela se tornou livre das amarras do tempo, da morte e da fome. E buscou por anos e anos o responsável por aquela desgraça.

Um mago. Um dos grandes magos de outrora. Um homem poderoso e cruel chamado Arius. Um dos poucos que teria poder, ousadia e conhecimento para evocar tal horda de horrores e varrer o mundo com ela.

Mesmo com o conhecimento de uma mulher comum, Glória percebeu que sua transformação só poderia ser resultado de uma experiência mal planejada e mal executada de um mago para o qual ela havia sido mais uma cobaia. Mas a experiência dera certo e, agora, sem o conhecimento dele, ela buscaria sua vingança.

Livre dos limites de um corpo humano, mais rápida e forte, e menos sensível, ela estudou com grandes mestres de armas e a todos superou, como todos os bons aprendizes devem fazer. Alguns mestres menos sábios tentaram puni-la por isso, e não viveram para repetir este erro imoral e profunda descortesia com outro discípulo.

Homens brutos das florestas, que raramente haviam visto uma mulher tão bela, ainda que tão fria, ensinaram-na a caçar e se esconder, e os segredos das trilhas selvagens. Ela deitou-se com eles em retribuição quase com indiferença. Tudo o que aquela pele e carne poderiam sentir tanto de bom quanto de ruim fora roubado dela para sempre.

Outros sábios, pela oportunidade de conversar com ela apenas, lhe ensinaram a ler e a se portar como uma pessoa de estirpe mais nobre. O que restava de sua humildade foi finalmente arrancado.

Então ela partiu, seguindo os rastros do seu algoz. Vivera até então unicamente para a vingança, não havia outro objetivo que fosse digno de uma criatura como ela.

E agora a vingança estava feita.

E, como todo o resto em sua nova vida, fora executada sem nenhum prazer ou alegria especial. E isso a decepcionara.

Arius era um velho caquético, fazendo espetáculos ilusionistas numa taverna quando ela o encontrou. Uma sombra da Grande Sombra que fora ao passado e, ao invés de ser arrogante ou tentar se defender, apenas choramingara e implorara pela vida, falando sobre um objetivo maior e a importância de continuar seu trabalho.

Pouco entendendo, ela o matou. E sentiu-se pior depois.

Porque agora, não havia mais nada que desse uma razão à sua vida, se é que de vida tal condição merece o nome. E vagou a esmo movida apenas pelo esdrúxulo impulso que leva corpos sem vida a continuarem a se mover apenas porque nada os detém… e talvez, é justo dizer, também movida pelo desejo de que houvesse mais algum motivo para existir, e isso já seria alguma coisa.

Uma noite, busca após busca, ela chegou aos limites do mundo, que diziam ser cercado por uma névoa profunda e cinzenta, completamente impenetrável. E tal névoa tinha um nome e uma razão.

As Brumas do Esquecimento.

-Glória… – disse a voz.

Aquela que fora uma mulher sobressaltou-se. Mesmo ela não estava preparada para, no meio de um deserto tão árido e tão gelado que  sequer cactus e répteis abrigava, num dia de inverno monstruosamente frio, em pouca coisa diferente da noite que o precedia, quando ela ali chegara, ouvir uma voz humana chamá-la docemente além das paredes da neblina, onde tudo era desconhecido.

-Medo, Glória? Que bom! É delicioso sentir algo supreendente de novo, não é?

Glória temeu reconhecer a voz, e sacou sua espada sem pensar. E, como que para responder às suas mais terríveis esperanças, surgiu diante dela um homem. Agora não o velho que matara na taverna, mas o Arius altivo e imponente que destroçara sua vida, em meio à névoa, quase na borda, de sorriso complacente e modos calmos, que tanto a horrorizara. Teria aquele homem hediondo voltado a vida?

Não. Antes de sucumbir ao pânico total, ela percebeu que ele não tinha mais substância. A névoa o atravessava, deixando a ambos da mesma textura, e seus pés desapareciam em nada antes mesmo de existirem, mostrando que não era mais um homem. E ele mesmo disse:

-Nada tema, minha criança, sou apenas uma sombra ainda menor do que quando me mataste na taverna. Se era possível cair ainda mais, está feito, e é obra sua.

-Não ouse me chamar de criança, velho monstro! – disse ela, quase rosnando.

-Raiva. Muito bom. Você está melhorando, está começando a sentir… não foi para isto que veio até aqui? Sentir algo?

-Não brinque comigo. Você não sabe de nada!

-Pelo contrário. Agora é o mistério do vazio que compreendo melhor. E quem compreende o maior dos mistérios, compreende todos os outros. Morto, a magia morre comigo, e esquecidos todos nós seremos, no devido tempo. Mesmo este pálido fantasma que eu sou agora provavelmente esquecerá quem foi e será mais uma sombra entre tantas no mundo… talvez renasça abençoadamente ignorante. Talvez encontre, por fim, o nada como recompensa, ou talvez vague eternamente numa abençoada ignorância.

Ele esperou. Ela hesitou e abaixou a arma.

-O que você quer, Arius?

-Nada. Foi você e sua presença inquieta que me perturbaram. Você veio livremente, parta livremente, se assim quiser. Estou além do alcance de sua espada e punido com mais rigor que você pode conceber. Sua punição, porém, será maior.

-Está me ameaçando?

-Não tenho poder nenhum para fazê-lo. Ela virá como simples conseqüência de seu ato. Você matou o próprio mundo. E viverá sozinha, além dele, eternamente.

Ela parou e contemplou a névoa. Não havia pensado que o que quer que acontecesse com ela seria pior do que o que já acontecera. Mas a dor a fazia se sentir viva… ou quase. E agora, sequer isso ela tinha.

-O que tem do outro lado?

-Nada. O mundo acaba.

-Você já viu?

-Como poderia uma simples sombra ir além do fim do mundo?

-Então não sabe. Dê passagem, velho.

Sem nenhum medo agora, ela encaminhou-se para a névoa. Arius dissolveu-se diante dela, como se nunca tivesse existido, e ela não mais tornou a vê-lo. Mas uma coisa a inquietou. Ele sorria com triunfo quando se desfez.

Na névoa, ela era cega. Uma coisa estranha, uma boa lembrança antiga, já que seus novos velhos olhos varavam as trevas como se fosse dia – exceto pelo céu, eternamente escuro. No entanto, não ver para onde se ia era bom.

Com o tempo, enquanto vagava, ela perdeu a noção do que, exatamente, procurava ali. Tudo era tão igual, naquele mar plácido de cinza interminável.

Interminável.

“Mas é claro! Procuro o fim do mundo…”

E eis que, neste momento de lucidez, surgiu diante dela, silencioso e majestoso, um grande colosso de pedra, uma estátua arruinada e gasta pelo tempo, ao redor de uma cidade vazia e arrasada por algum tipo de  guerra ou catástrofe que parecia ter ocorrido a uma eternidade, mas cujas ruínas prosseguiam. Além do ciclópico ser, mais nada. Nem gente, nem planta, nem fera.

“Quem és?” – perguntou Glória, aparentemente sem ver contradição em dirigir palavras a uma estátua.

“Sou um Velho Deus, que agora mataste também. E minha morte é minha vida, porque sou um Deus de Enigmas. E o vazio é o maior de todos os enigmas.”

“Arius disse que compreendera o vazio…”

“Quem foi Arius, para saber de algo? Arius nunca foi. Mataste o mundo, nada foi nunca mais será…”

“Você fala como se… como se eu fosse uma deusa. Você é o deus, reconstrua-o!”

“Os Deuses pertencem ao mundo, minha menina, e não o contrário. E o mundo, aos seres, e você, que é ser e não ser, o matou.”

“Não posso não ser…”

E percebeu, com uma surpresa que em seguida foi ignorada, que não tinha mais corpo.

O Deus dos Enigmas prosseguiu:

“Sim, e é este o seu destino, seu castigo e sua missão. Parta daqui, e construa um novo mundo, à sua imagem e semelhança. Porque você destruiu, mas sobreviveu, é seu destino recomeçar sozinha. Todos nós já fomos ou iremos. Você prosseguirá.”

“E depois?”

Nenhuma resposta. Nem quando ela repetiu. Nem quando ela gritou.

Era apenas uma velha estátua de pedra, e o seu grito fez com que mais pedras rolassem dela e ela se parecesse ainda menos com um deus e mais com um monte de rochas. Só então ela viu como era louco querer falar com pedras.

E prosseguiu pela névoa, até ouvir alguém chamá-la pelo nome, e se aproximou de um ponto onde algo colorido chamava sua atenção. E este algo era…

Texto de: Luiz Hasse

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