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V

Carlos estava indo para casa, quando o guarda o deteve. A prisioneira escapara. Ele simplesmente não sabia dizer como. Ela estava numa sala com uma única porta e ele próprio diante da porta.

-Acho que alguém me acertou porque, no meio do caminho eu… me perdi… eu fiquei como se estivesse dormindo e… bom, quando vi, a cadeira dela estava vazia.

Houve no mesmo instante uma rápida busca e troca de informações. A menos que a delegacia inteira tivesse combinado a mesma mentira, ninguém vira ninguém entrar e nem sair. E nem ouviram o guarda ser atacado. Ele próprio acabou confessando que, mesmo com a sensação de ter perdido a consciência, pois não se lembrava direito do que ocorrera, ele havia notado o sumiço da garota na mesma posição em que estava antes… de pé, diante da cadeira vazia que ela ocupara. Houve quem entrou em pânico e começou a chorar. O guarda foi preso no mesmo instante e se rumou para a casa do único homem que deixara o serviço até então.

Chaves já tomara banho e pusera o pijama. Ouviu batidas desesperadas na porta. Correu até ela e apanhou seu revólver no caminho – um velho hábito – perguntou, numa voz serena:

-Quem é?

O silêncio atrás foi tão absoluto que ele chegou a a imaginar que as batidas nunca haviam existido. Aliás, a certeza de que o corredor era vazio era tanta e tão medonha, e a sensação de ter estado sonhando era tão concreta que ele, mesmo sabendo da imprudência, manteve a corrente na porta e girou a chave na fechadura, entreabrindo-a. Pois o olho mágico de lente era inútil com a luz do corredor apagada.

Um braço magro e pálido se infiltrou pela brecha mais rapidamente do que ele imaginava e agarrou, mesmo às cegas, seu pulso do revólver, torcendo sua mão. Outros braços e um pé calçando tênis junto ao chão se interpuseram na abertura, impedindo que ele fizesse porta voltar ao umbral. A tentativa de gritar por socorro foi frustrada por uma mão na garganta e por outra que se enfiou entre seus lábios. Ele tentou mordê-la, ouviu ossos estalando, mas apenas o odor de podridão e o sabor de carne estragada inundaram suas narinas e língua. Nenhum sangue.

A porta foi forçada e se abriu, e eles caíram sobre ele. Os mesmos dez da escadaria.

Só que agora, como realmente eram.

Podres, pele branca como o gelo, azulada ou roxa. Os sinais de antigos ferimentos e o cheiro, aquele cheiro de churrasco velho, de comida enlatada estragada. Os olhos vazios despejando gosmas repugnantes e as marcas e aberturas sobre a casca deixando ver órgãos podres e exalando um cheiro que lembrava dor… muito mais do que lembrara morte, o fedor interno deles era de dor.

Uma coisa, porém, chamaria a atenção de quem pudesse meditar com frieza. Não havia vermes, apesar do odor de carniça. Parecia que, por anos e anos, nem eles ousaram se alimentar daquelas coisas.

Deitado no chão, com a garganta apertada e os braços e pernas imobilizados, ele assistiu à garota loira se aproximar, com um rosto sorridente, com metade dos dentes quebrados e um olho desaparecido por baixo de uma equimose fabulosa. Seu corpo tinha marcas em pontos sensíveis, que a as roupas por cima escondiam em sua maioria… mas a quantidade de sangue que ainda escorria ao longo da parte interna de suas pernas bonitas empapava a calça e deixava dois rastros irmãos no caminho de seus pés.

Ela não disse nada. Apenas se abaixou sobre o homem, que teve a boca tapada e a garganta libertada. Abriu sua camisa botão por botão. Montou sobre sua cintura e, quando ele parou de tentar gritar, lhe foi tirada a mão da boca e permitido falar, que era só o que ele poderia fazer.

-O que vocês querem? Santo Deus, o que vocês querem?!?!

Alguém que ele não podia ver, mas cuja voz ele conhecia, falou do corredor.

-O que alguém que nunca mais vai viver quer quando abandona o túmulo?

-Vingança… – respondeu a loirinha.

A boca de Chaves foi tapada. E toda a luta pela libertação foi inútil. Com suas unhas e os dentes que restavam, a menina cavou através de seu peito até achar o coração, arrancado com o homem ainda vivo, para ser devorado enquanto ele morria.

De joelhos, enquanto terminava sua refeição, a loirinha se aproximou daquela que a libertara, e esta afagava sua cabeça, e dizia aos outros:

-Espalhem-se e acordem seus irmãos. Nosso tempo chegou. O tempo para acabar com todos os tempos.

A loira lambeu os dedos e disse:

-Sim, mãe.

Beijou-a nos lábios. As duas tinham a mesma idade, embora fossem diferentes. Todos se espalharam, menos ela. Ela permaneceu, recolhendo o sangue do homem com um vaso de flores de plástico, pintou nas paredes.

EU SOU A MÃE DOS MORTOS

MEU REINO CHEGOU

PARA PÔR FIM A TODOS OS REINOS

E A TODOS OS TEMPOS

DE TODOS OS VIVOS

PARA SEMPRE E PARA NUNCA

O FIM

Ainda riscava as últimas palavras quando os primeiros disparos soaram. Seu corpo caiu ao lado do policial, crivado de balas.

O delegado Carlos e os outros entraram cautelosamente no apartamento. A cena era horrenda o suficiente para que mesmo gente calejada como eles se sentisse desconfortável. Além do fato de que o colega recém-morto era querido por muitos dos que estavam ali.

Enquanto a cena era examinada e o jovem delegado se sentava na beira do sofá, atordoado, um novo disparo soou, e todos se voltaram, sobressaltados, para um dos guardas mais jovens e menos experientes, que ofegava, obviamente em pânico, com o cano fumegante de seu revólver virado para a cabeça do cadáver da menina.

-Ela morreu sorrindo… tava rindo da nossa cara…

-Guri, larga essa arma…. tu não tá legal!

-Ela tava rindo da nossa cara!! Como é que ela fez tudo isso sozinha?!?!

-Tá na cara que teve ajuda… mas não importa agora. Larga essa arma senão eu vou ter quem…

-E quem é que vai nos ajudar agora? – respondeu o jovem com um ar misterioso, enquanto apontava para a própria cabeça.

Alguns mais corajosos e benevolentes tentaram detê-lo. Por incrível que pudesse parecer, ele disparou duas vezes… contra a própria cabeça.

Horas depois, finda a confusão toda, todos se dirigiram para suas casas.

Ainda de madrugada, todos já dormiam, mas não era um sono tranquilo. Em cada um deles havia um pesadelo diferente, mas em todos os pesadelos havia a menina estranha que chegara na delegacia na metade da tarde. E em todos eles ela dizia ou escrevia com sangue na parede a simples mensagem.

-Começou… o fim.

No mesmo instante, o corpo do jovem policial que se suicidara estava para ser aberto pelo legista, que, ao erguer o bisturi, detinha-se com um grito mudo na garganta.

Aqueles olhos, naquela expressão de medo e horror congelada pela morte, haviam acabado de piscar. E ele repetia, sem mover os lábios, com uma voz que era a sua e de uma menina, e também de muitos outros, que há muito aguardavam:

-Começou… o fim.

Texto de: Luiz Hasse

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