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II

Docinho. E Lindinha. E Florzinha.

Glória acordou ante os berros da mãe e viu o pôster no teto do seu quarto. Ali estavam as heroínas. Puxa! Como a menina desejava ser como elas! Forte, poderosa e independente.

Ao mexer-se na cama para levantar, sentiu a dor da surra do dia anterior e chorou de vergonha pela sua fraqueza. Mais uma vez o padrasto a espancara, alegando que ela era má e ingrata, quando ele a chamara a sós no quarto e ela se recusara a ir, alegando uma desculpa qualquer. Acusando a menina de cabeça suja, que não respeita o pai que tem e que vê maldade em tudo, quando tudo o que ele, homem religioso e de bem, que fizera a caridadade de acolher ela e sua mãe de uma vida de pecado, queria apenas conversar.

Então ela a espancara usando as mãos. Era ainda pior do que com a cinta. Porque, com as mãos, ele a tocava e ofegava, e ela podia, se quisesse, ver o volume em sua calça quando fazia aquilo.

Então Glorinha – como a mãe a chamava – olhou para o canto do quarto e viu a coisa que estava lá desde a noite anterior. E então compreendeu. E toda a dor passou.

Na pequena cozinha de classe média baixa, a mãe gritou pela décima vez e só então percebeu a menina parada na porta, serena e com um sorriso leve e escarnecedor.

-Filha!

Depois parou. Estranhou aquela palavra. Glorinha não era mais uma menina, era uma mulher feita quase, dezesseis anos, e boa de corpo e de rosto, apesar de suas roupas simples e pouca educação. Ser pobre não era ser desonesta, dizia a mãe, e nem feia.

Mas sentiu uma ponta de inveja. Já fazia muito tempo que ela era mais bonita que a mãe, mesmo quando ela…

(tentava avisá-la de coisas que ela sabia, e ela, por uma mistura de inveja, medo e estupidez, fingia que não ouvia e deixava a filha continuar sofrendo, pois não tinham escolha, era melhor assim, a mãe pecara, a filha pecaria, ambas seriam punidas, o destino da mulher é servir, amém, amém, amém…)

…inventava histórias absurdas, tentava fugir de casa e tinha que ser repreendida, ainda era mais bonita e parecia melhor da cabeça do que a mãe, na idade dela.

Glorinha começou a trabalhar sem dizer um bom-dia, lavando a louça do café da manhã sem nem tocar em sua parte. Talvez estivesse cansada e chateada, e por isso não queria comer, já que na noite anterior…

(ela havia sido espancada como uma cachorra, porque merecia, porque se recusara a servir o padrasto, e o destino da mulher é servir, amém, amém, amém, e ela o provocara, com aquela corpo de mulher, e merecia o castigo, como a mãe dela, como a mãe dela que agora era feia e agora ela é que era a culpada, a carregadora do fardo de Eva e merecia as cintadas que não provocara, mas ela devia agradecer porque ele usara as mãos e…)

…ela havia brigado com o pai adotivo dela e ele tinha se exaltado um pouco. Mas ela tinha que aprender o seu lugar na casa. Ele era um homem bom e não deveria ser difamado por ela.

-Filha, eu vou trabalhar…

-Eu sei.

-Tu tem que nos esperar com o almoço pronto, viu?

-Eu sei.

-E nada de demora quando o teu pai for te levar pro colégio.

-Aurélio não é meu pai. Meu pai morreu.

-Não diga besteiras! Bata na boca e peça perdão!

-Perdão.

-Tô indo, Deus te abençoe.

-Eu sei… eu sei…

“Mas não o seu deus, mamãe.”

Texto de: Luiz Hasse

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