Em uma cidade, que não muito tempo depois seria chamada de Cidade Fantasma, numa sala cuja localização era considerada conhecimento proibido, um homem e uma mulher estavam sentados frente a frente, separados por uma mesa. Ela era uma mulher atraente, mas parecia cansada, não tanto fisicamente, mas animicamente. A sala era iluminada apenas por uma lâmpada situada por sobre ambos.

O homem retirou uma carteira de cigarros do paletó, retirou um, bateu duas vezes na mesa e o acendeu à boca. Expirou a fumaça lentamente.

– Bem senhora Marta, imagino que você tenha ideia do tamanho dos problemas em que você se encontra nesse momento. Você esta sozinha, sem emprego e com um filho pequeno para criar.

– Isso porque meu marido foi assassinado, condenado injustamente pelo governo – ela disse fuzilando o homem com os olhos.

– Seu marido era um traidor…

– Um jornalista honesto e competente. Bom pai! – ela interrompeu.

– Não de acordo com a Nova Constituição, senhora. O Estado agora enxerga os cidadãos com outros olhos. Muito mais vigilantes e cuidadosos do que antes. O seu marido estava lidando com coisas que não lhe diziam respeito.

– Mas diz respeito à sociedade. Aqueles homens e mulheres desaparecidos tinham família…

– Senhora, não estamos aqui para falar sobre os motivos que levaram a condenação do seu marido – falou, dessa vez ele interrompendo-a. – Estamos aqui para decidir o seu futuro.

– Do meu futuro pode deixar que eu mesma cuidarei.

– Como? Sem qualificação, sem renda. Acredito que as economias que seu marido lhe deixou não vão durar muito tempo. E sei que você não vai deixar seu filho passar qualquer tipo de necessidade, e cabe lembrar que prostituição é contra lei.

– Como você se atreve a pensar…

– O que eu penso é irrelevante, Marta. Por favor, considere essa opção – falou puxando um panfleto de dentro do paletó e arrastando-o na mesa até chegar às mãos de Marta.

– O que é isso? – disse ela desconfiada com uma sobrancelha erguida.

– Uma nova vida, uma nova opção. Digamos que certos departamentos do governo são mais sensíveis a perdas de entes queridos do que outros. A mão que agride pode ser também a mão que socorre, compreende?

No folheto dizia que o governo estava oferecendo uma segunda chance a pessoas em momentos de grande necessidade, que havia um grande terreno não muito longe dali onde pessoas congregavam-se para se ajudar. Em troca o governo pedia apenas que participassem de “programas alternativos para o progresso da ciência”. Havia escolas, supermercados e até mesmo um hospital no local. “Morada Oasis” era o nome do local, um condomínio  que ficava na zona rural da Cidade Fantasma.

– Pense no futuro do seu filho – ele disse ao levantar. – Procure-nos caso você decida pelo melhor.

O homem saiu da sala e deixou Marta contemplando o panfleto. Ao sair do prédio, foi até a parada de ônibus mais próxima e tomou o ônibus que tinha como destino o bairro onde morava.

Ao chegar em frente ao prédio humilde onde morava, abriu a grossa porta de madeira, subiu os cinco lances de escada por corredores mal iluminados e mofados.

Abriu a porta do seu apartamento e viu seu filho sentado no carpete quicando uma bola de plástico e assistindo a desenhos animados na pequena televisão da sala.

– Oi mãe! – ele disse com um sorriso, levantando-se e correndo em direção a Marta. – Eu fiquei muito sozinho aqui, achei que você não voltaria mais.

– Eu lhe disse que eu não demoraria, Luciano. E você já tem sete anos, já pode ficar sozinho, não é?

– Sim, mamãe, posso sim – falou ao dar um abraço na mãe.

– E você vai cantar hoje a noite? – ele perguntou.

– Não, Luciano, meu querido. A mamãe não canta mais, não faz mais shows, todas as canções se acabaram – ela disse olhando para o panfleto.

 

***

 

Depois de uma semana Marta e Luciano estavam na fila do ônibus que levaria para a Morada Oasis. Em mãos tinham os poucos pertences que puderam carregar, enquanto que móveis e utensílios seguiriam de caminhão para lá. Subiram no ônibus e encontraram duas poltronas, uma ao lado da outra e acomodaram-se ali.

– Como falamos antes, filho. Estou fazendo isso para o seu bem, ta? – Marta disse.

– Sim, mamãe. Eu estou feliz por estarmos juntos – ele respondeu com um sorriso.

A viagem foi curta e confortável, e o pessoal dentro do ônibus era amistoso, pareciam ansiosos em iniciar uma nova vida, para deixar para trás os problemas que cada um tinha.

Ao chegarem, Marta estranhou que ao redor do terreno havia algumas camadas de cerca de arame farpado e alguns guardas a mais do que ela esperava para um condomínio residencial civil, mas não se incomodou em questionar sobre.

Dentro do condomínio, o ônibus ia parando em vários prédios, deixando as pessoas conforme o motorista gritava os nomes de cada um, baseado em uma lista que tinha em mãos.

Na vez de Marta, ela e Luciano deixaram o ônibus e uma mulher de jaleco branco os recebeu na calçada.

– Olá… Deixe-me ver aqui. – falou olhando uma folha numa prancheta. – Marta. Marta e Luciano, certo?

– Nós mesmos – Marta respondeu sorrindo.

– É um prazer tê-los conosco na Morada Oasis! Sejam bem vindos – disse estendendo a mão e cumprimentando Marta. – Vocês ficarão aqui a partir de agora.

Estavam na frente de uma casa antiga, com um gramado bem cuidado na frente e uma cerca pintada de branco.

– Estranho. Achei que esse condomínio tivesse sido recém construído – disse Marta.

– E foi. Essa casa é uma das raras exceções, ela estava aqui desde a compra do terreno – respondeu a mulher.

Ela conduziu mãe e filho para dentro da moradia e mostrou as primeiras dependências da casa.

– Hoje a noite, nosso anfitrião o senhor Franco virá lhe dar as boas vindas e lhe instruir de como as coisas funcionam por aqui. Passar bem – ela disse ao sair da casa.

Enquanto a mulher ia embora o caminhão com a mudança de Marta encostava ali na frente, e dois homens começaram a descarregar móveis e eletrodomésticos.

– Mãe, posso jogar bola aqui no jardim? – Luciano perguntou.

– Claro querido, divirta-se bastante.

A mudança foi breve e em poucas horas tanto os homens da mudança quanto Marta organizaram as coisas dentro da nova casa, que era deveras simples, mas devia ser uma biblioteca antiga pela quantidade de livros que havia no porão.

Uma vez com a casa em ordem, Marta e Luciano foram procurar um supermercado para comprar os primeiros suprimentos. Havia um pequeno mercado no final da rua. Ao voltarem, viram um senhor alto, com um terno cinza, de cabelo grisalho à sua porta tocando a campainha. Quando estava por desistir, Marta aproximou-se com o pacote de supermercado e Luciano a tiracolo.

– Boa noite, pois não. Posso ajudar? – Marta perguntou.

– Ora claro que sim. Você deve ser a Marta, não é? –  o homem perguntou.

– Sim eu mesma.

– Eu sou Franco. Podemos conversar?

– Ora certamente. Vamos entrar, por favor.

Ela abriu a porta, foi até a cozinha, largou as compras, enquanto que Luciano e o próprio Franco a seguiram. O menino pegou uma lanterna e foi brincar no lado de fora, iluminando a grama e a rua.

– Sente-se sr. Franco – Marta disse.

– Obrigado, Marta. Me diga, fizeram boa viagem?

– Oh sim, foi tranquila. Bem tranquila.

– Muito bom. Escute Marta, eu sou o patrocinador da Morada Oasis e queremos que os moradores daqui se sintam o mais a vontade possível. Eu e o atual governo estamos alinhados e comprometidos a oferecer essa segunda chance a pessoas que viram as esperanças esvaírem pelo ralo.

– Entendo, senhor. Mas pra mim ainda não esta claro como iremos pagar ou retribuir por tudo isso.

– Você irá participar de um projeto que visa avanços científicos para nosso país.

– Em que área?

– Cosméticos, basicamente.

– Cosméticos?

– Isso mesmo. Você será nossa cobaia para testarmos esses produtos – ele respondeu rindo.

– Perfeito então – Marta riu de volta.

– Bem Marta, não quero mais tomar seu tempo, espero que você goste daqui tanto quanto gostamos de tê-la por perto. Se precisar de algo, deixe-me saber. Eu moro a três casas do supermercado. Boa noite.

Franco levantou-se, cumprimentou Marta e deixou a casa. Ao passar pelo jardim afagou a cabeça de Luciano que retribuiu com um aceno de adeus.

Mais tarde naquela mesma noite, após o jantar Marta desceu ao porão para olhar que tipo de livros haveriam ali. Havia de tudo um pouco. Literalmente de tudo. Escolheu dois livros infantis e subiu de volta. Pôs Luciano na cama e os leu para ele, até ele adormecer dormindo o sono dos justos.

Depois disso, ela voltou ao porão e leu alguns livros, principalmente um que não tinha título algum na capa, que prendeu a sua atenção.

 

Dois dias depois um carro parou de manhã em frente à casa de Marta e dois homens fortes de branco saltaram. Tocaram a campainha. Marta atendeu a porta.

– Senhora Marta? – um deles perguntou.

– Sim, sou eu.

– Poderia nos acompanhar? Chegou a sua vez de colaborar.

– Oh sim claro.

Ela voltou para dentro e arrumou-se. Na saída deu um beijo na testa de Luciano.

– Mamãe já volta, meu amor.

– Ta, mãe.

Ela acompanhou os dois homens. Eles sentaram a frente do carro e ela, no banco de trás. Rodaram cinco minutos até chegarem a um hospital. Todos desembarcaram do carro e entraram no local. Pararam brevemente na recepção para fornecer alguns dados, depois foram a um consultório médico, onde havia instrumentos de enfermagem e uma maca.

– Espere aqui, dona Marta – um deles disse deixando-a sozinha na sala.

Sem demora uma enfermeira entrou na sala e, amistosamente cumprimentou Marta.

– Poderia deitar-se aqui, por favor? – a enfermeira disse apontando para a maca.

Marta obedeceu enquanto que a enfermeira pegou uma seringa e encheu com um líquido amarelado.

– Esse é um remédio para verificarmos se você tem alergia aos produtos que aplicaremos em você em seguida, ta bom?

Marta assentiu com a cabeça. A enfermeira aplicou a injeção e Marta perdeu os sentidos.

Ao abrir os olhos estava tonta, incapaz de pensar com clareza. Já era noite e estava de volta ao jardim de seu nova casa, escoltada pelos mesmos dois homens que a levaram na ida. Eles entraram na casa com a chave que ela possuía e a colocaram na cama. Luciano acompanhou a toda a cena e, quando os homens foram embora foi até a mãe.

– Você esta bem, mamãe? – perguntou abraçando-a. – Eu fiquei sozinho o dia inteiro, uma tia vinha de vez em quando ver se estava tudo bem comigo.

No entanto Marta não articulara nenhuma palavra, apenas balbuciava e babava intermitentemente. Luciano a abraçou novamente e deitou ao seu lado, até que ele adormeceu.

Mas Marta não conseguiu dormir. Sentia suas pernas e braços incharem e desincharem, e sentia coceira por todo o corpo. Durante a madrugada levantou para vomitar no banheiro.

No outro dia pela manhã estava melhor, sem tontura ou náusea, mas cansada pela falta de sono. Luciano a ajudou a realizar as tarefas da manhã.

– E quanto eu vou ir para a escola mãe? – ele perguntou enquanto ajudava no café da manhã.

– Logo, filho. Ainda estamos em período de férias.

Nisso uma batida na porta fez-se ouvir. Marta levantou-se da mesa do café da manhã e atendeu. Era Franco.

– Bom dia Marta, posso entrar?

– Oh claro, senhor Franco.

– Poderíamos falar a sós um momento?

– Sim sem duvida. Luciano, pode ir brincar la fora, meu amor?

O menino obedeceu. Pegou sua bola de plástico em um canto e saiu porta afora.

– Sua noite não foi agradável, foi Marta?

– Não senhor, passei mal, com náuseas e vômitos a noite inteira.

– Sim, pelo que me informaram no hospital, seu corpo não reagiu bem ontem às provas de produtos.

– Eu… Eu não lembro do que houve ontem.

– Basicamente você ficou desacordada o dia inteiro, mas não se preocupe, mandei uma enfermeira vir checar seu filho durante o dia.  Ele almoçou e jantou adequadamente.

– Sim, ele me disse.

– Sendo assim, Marta, por favor, me acompanhe ao hospital novamente para que realizemos alguns exames para determinarmos o que esta havendo de fato, sim?

– Claro, deixe-me pegar meu casaco.

Os dois saíram da casa e Marta explicou a Luciano que iria no médico, mas não demoraria. Entrou em um carro juntamente com Franco e dirigiram-se ao hospital. Franco a conduziu até uma sala diferente daquela do dia anterior. Dessa feita um médico iniciou um exame clinico simples e Franco saiu da sala. Poucos minutos depois a dupla de homens que escoltara Marta no dia anterior adentraram a sala e sem aviso ou hesitação seguraram-na e a colocaram deitada em uma maca que havia ali.

– O que… O que é isso? O que esta acontecendo? Me soltem já! – ela gritava beirando o desespero.

O médico puxou uma seringa similar à utilizada pela enfermeira no dia anterior e aplicou novamente no braço de Marta.

 

***

 

Ao abrir os olhos, Marta via uma luz branca embaçada a sua frente. Estava deitada. Tentava mover-se, mas era inútil, estava atada a uma cama. O cheiro ainda era do hospital. Ao seu redor ouvia diversas vozes, masculinas e femininas.

– … espécime interessante…

– … deveria ter morrido na primeira injeção…

– … excelente objeto de estudo…

Era o pouco que conseguia discernir das conversas.

Reconheceu a imagem de Franco a sua frente, apesar de um tanto nebulosa.

– Marta, gostaria de agradecer imensamente por você ter aceitado participar de nosso projeto. Estou muito feliz de tê-la conosco. Senhores, podem começar.

E foram essas palavras aparentemente inocentes que decretaram o inferno para Marta.

Primeiramente, ela recebeu mais doses de sedativo, depois o tempo perdeu o significado, a medida que os eventos ocorriam sua memória fragmentava-se. Em uma hora estava em uma sala extremamente gelada, quase ao ponto de congelamento. Pouco depois estava em outra em um calor insuportável. Depois recebia injeções diversas. Nas noites tinha febre, calafrios e taquicardia. Faziam-na ingerir pílulas que a faziam vomitar e defecar sangue. Passaram-se, horas, dias, meses? Ela não sabia, tampouco sabia precisar a extensão dos abusos que sofrera.

Acordou em certa ocasião em uma sala fechada e mal iluminada. Estava vestida com uma camisola típica de pacientes de hospital e nada mais. Seu corpo inteiro doía e formigava, tanto que mal conseguia levantar-se. Sentiu um cheiro forte, de carniça. Olhou ao redor e assustou-se ao constatar dois corpos nus jogados ao chão, um deles era um homem e estava parcialmente deformado e o outro, uma mulher, a qual faltava-lhe um braço. Ambos mortos em inicio de estado de decomposição. Olhou para sua mãos, estava extremamente magra, desnutrida talvez. Seu braço doía, e no antebraço, um corte profundo, infeccionado. Olhou ao redor novamente, e ao movimentar a cabeça notou que alguns fios de cabelo caíam. Levou a mão até o couro cabeludo, o que fez cair um grande tufo de cabelo. Em sua barriga havia cicatrizes disformes de cirurgias.

– Me tirem daqui! Por favor! Alguém me ajude! – ela gritava dando socos na porta.

Quando notou ser um esforço inútil deslizou até sentar no chão e chorou por horas.

Sua mente então clareou de fato e ela lembrou-se de seu filho. A quanto tempo ele estava lá fora, desassistido? E se as mesmas pessoas que a tem torturado o tivessem pego? O desespero tornou-se ódio, mas ela estava sozinha, fraca e mutilada, trancada em uma sala supostamente deixada para morrer, a exemplo dos dois pobres diabos mortos no chão. Da ferida do seu braço infeccionado escorreu uma gota de sangue. Lembrou-se então do que lera no livro sem título, no porão de sua casa. Respirou fundo algumas vezes e enfiou o dedo fundo na sua ferida, embebendo o dedo em sangue. Não pôde evitar gemer de dor.

Ela começou a desenhar algo no chão. Fez um circulo com alguns símbolos. Por fim, levou um pouco de sangue à testa e começou a repetir palavras em forma de cânticos. Depois de uma hora desse expediente a sala toda escureceu quase totalmente e uma voz fez-se ouvir de um canto. Era impossível entender o que dizia. Marta procurou a fonte do som e o corpo da mulher que jazia ali morta, moveu-se e olhou para ela. Marta soltou um grito breve de horror. A mulher morta levantou-se com dificuldade estalando as articulações e pingando sangue no chão. Apoiava-se no único braço que restava-lhe. Pôs-se de pé e falou duas ou três palavras em um idioma desconhecido e parou em silencio como se fosse um boneco sem ninguém a puxar-lhe as cordas. Marta hesitou em horror.

– Saudações – disse a mulher depois de um tempo de silencio. – Quem me invoca nessa noite de sangue e lugar de horror?

– Meu… Meu nome é Marta – respondeu tremendo.

– Ó Marta. Marta em desespero chamou um príncipe do inferno. O que tu, Marta, desejas?

– Com… com quem eu falo agora? – respondeu tomando um mínimo de coragem.

– Eu sou o terceiro dos caídos.

– O transmorfo? – Marta perguntou.

– Eu. Agora diga-me Marta, a flagelada. O que desejas de mim? Barganhar?

Marta hesitou e lembrou-se dos eventos recentes, desde a injusta morte de seu marido, meses atrás.

– Paz. Só paz – respondeu cabisbaixa.

A entidade a sua frente gargalhou ruidosamente.

– Então Marta, a pequena, não quer vingança, ou riqueza, tampouco maldição a outrem. Ela quer apenas… Paz?

– Sim, isso mesmo. Para mim e meu filho.

– Dar-te-ei o que desejas, filha. E o que tu propões em troca?

– O que você quiser tirar.

– Minha qualidade favorita de contrato. Esplendido. Se desejas paz, beije-me agora.

Marta então levantou-se e caminhou em direção ao defunto que agora servia de simulacro para a entidade. Abraçou-o e o beijou. Beijaram-se como se fosse um namoro recente, com paixão. Então a sala iluminou-se parcialmente novamente, e o corpo da mulher desabou pesadamente ao chão. Marta deu alguns passos para trás e, num surto, vomitou num canto. Sentou-se esgotada limpando o canto da boca quando ouviu um clique. A porta que antes estava trancada, abriu um fresta.

Ela levantou e saiu por ali, olhando para os lados, desconfiada. Percorreu corredores, e quando passou por uma sala de raios-x, os relógios medidores tiveram seus ponteiros girados até a área vermelha, no extremo oposto à posição original.

Quando chegou ao saguão, um homem a avistou.

– Ei você! Pare aí mesmo! – falou enquanto se dirigia a ela, correndo.

– Não, pelo amor de deus, não faça isso – Marta protestou.

Marta estava debilitada sobremaneira e não conseguiria correr, sendo que o homem alcançou-a facilmente. Agarrou-a pelos braços e a levou. Porém, quando estavam andando pelos corredores ele começou a titubear, diminuiu a marcha e por fim caiu atordoado. Marta estranhou o fato, mas comemorou em silencio, aproveitando a chance para sair pelo saguão do hospital. Como era noite, não havia ninguém na recepção. Quando chegou ao lado de fora, notou quatro guardas deitados, incapacitados. Correu em direção a sua casa, para seu filho.

Chegou lá e a porta estava trancada. Bateu e chamou por Luciano. Demorou, mas ele abriu a porta com cara de sono.

– Meu filhinho! – Marta disse agarrando e abraçando Luciano avidamente.

– Oi mãe! – ele disse feliz. – As tias disseram que você tinha viajado. Mas você esta tão feia, mãe. O que aconteceu com você?

Antes que Marta pudesse responder Luciano vomitou aos seus pés.

– Oh meu querido, você esta mal do estomago?

– Acho que sim – ele disse.

– Vamos pegar nossas coisas, nós vamos embora.

Mal ela acabou de falar, Luciano caiu inconsciente em seus braços.

– Luciano! Luciano! Meu amor, fale comigo – disse exaltada. – Oh deus, o que esta acontecendo?

Ela ergueu o menino no colo e voltou em direção ao hospital o mais rápido que pôde, o que não seria tão rápido, pois somado ao peso de Luciano, ainda estava fraca física e mentalmente. Tanto que não conseguiu chegar, devido ao cansaço parou na metade do caminho sem forças. Gritou por ajuda, mas nenhuma alma viva respondia. Descansou chorando alguns minutos, com seu filho inerte deitado no meio da rua, depois tornou a carregar Luciano em direção ao hospital. Parou novamente por mais duas vezes, mas por fim, chegou ao seu destino.

Ao adentrar no saguão sob as luzes olhou bem para a feição de Luciano, e viu que sua pele estava azulada, seus olhos inteiramente vermelhos, e espumava pela boca. Estava já além de qualquer ajuda, pois não mais respirava.

Marta foi ao desespero apertando o seu filho contra o peito. E ficou ali, sentada no chão com o seu filho que se fora. E não moveu-se mesmo depois que o cadáver do filho esfriou. O beijou e afagou os cabelos por dias seguidos.

A cidade onde a Morada Oasis estava localizada foi evacuada totalmente, pois as autoridades governamentais decretaram estado de emergência, uma vez que segundo as estatísticas esse foi o segundo maior desastre radioativo da história de humanidade. Entre os mortos foram registradas cerca de cinquenta pessoas e o efeitos da radiação perduraram por gerações após o incidente.

Até os dias de hoje conta-se que Marta continua no epicentro da tragédia, carregando seu filho no colo, chorando sua perda no meio da Cidade Fantasma.

Texto de: Adriano Cardoso

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