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CAPITULO TRÊS – FIM

Os dois saíram da casa e Marta explicou a Luciano que iria no médico, mas não demoraria. Entrou em um carro juntamente com Franco e dirigiram-se ao hospital. Franco a conduziu até uma sala diferente daquela do dia anterior. Dessa feita um médico iniciou um exame clinico simples e Franco saiu da sala. Poucos minutos depois a dupla de homens que escoltara Marta no dia anterior adentraram a sala e sem aviso ou hesitação seguraram-na e a colocaram deitada em uma maca que havia ali.

– O que… O que é isso? O que esta acontecendo? Me soltem já! – ela gritava beirando o desespero.

O médico puxou uma seringa similar à utilizada pela enfermeira no dia anterior e aplicou novamente no braço de Marta.

 

***

 

Ao abrir os olhos, Marta via uma luz branca embaçada a sua frente. Estava deitada. Tentava mover-se, mas era inútil, estava atada a uma cama. O cheiro ainda era do hospital. Ao seu redor ouvia diversas vozes, masculinas e femininas.

– … espécime interessante…

– … deveria ter morrido na primeira injeção…

– … excelente objeto de estudo…

Era o pouco que conseguia discernir das conversas.

Reconheceu a imagem de Franco a sua frente, apesar de um tanto nebulosa.

– Marta, gostaria de agradecer imensamente por você ter aceitado participar de nosso projeto. Estou muito feliz de tê-la conosco. Senhores, podem começar.

E foram essas palavras aparentemente inocentes que decretaram o inferno para Marta.

Primeiramente, ela recebeu mais doses de sedativo, depois o tempo perdeu o significado, a medida que os eventos ocorriam sua memória fragmentava-se. Em uma hora estava em uma sala extremamente gelada, quase ao ponto de congelamento. Pouco depois estava em outra em um calor insuportável. Depois recebia injeções diversas. Nas noites tinha febre, calafrios e taquicardia. Faziam-na ingerir pílulas que a faziam vomitar e defecar sangue. Passaram-se, horas, dias, meses? Ela não sabia, tampouco sabia precisar a extensão dos abusos que sofrera.

Acordou em certa ocasião em uma sala fechada e mal iluminada. Estava vestida com uma camisola típica de pacientes de hospital e nada mais. Seu corpo inteiro doía e formigava, tanto que mal conseguia levantar-se. Sentiu um cheiro forte, de carniça. Olhou ao redor e assustou-se ao constatar dois corpos nus jogados ao chão, um deles era um homem e estava parcialmente deformado e o outro, uma mulher, a qual faltava-lhe um braço. Ambos mortos em inicio de estado de decomposição. Olhou para sua mãos, estava extremamente magra, desnutrida talvez. Seu braço doía, e no antebraço, um corte profundo, infeccionado. Olhou ao redor novamente, e ao movimentar a cabeça notou que alguns fios de cabelo caíam. Levou a mão até o couro cabeludo, o que fez cair um grande tufo de cabelo. Em sua barriga havia cicatrizes disformes de cirurgias.

– Me tirem daqui! Por favor! Alguém me ajude! – ela gritava dando socos na porta.

Quando notou ser um esforço inútil deslizou até sentar no chão e chorou por horas.

Sua mente então clareou de fato e ela lembrou-se de seu filho. A quanto tempo ele estava lá fora, desassistido? E se as mesmas pessoas que a tem torturado o tivessem pego? O desespero tornou-se ódio, mas ela estava sozinha, fraca e mutilada, trancada em uma sala supostamente deixada para morrer, a exemplo dos dois pobres diabos mortos no chão. Da ferida do seu braço infeccionado escorreu uma gota de sangue. Lembrou-se então do que lera no livro sem título, no porão de sua casa. Respirou fundo algumas vezes e enfiou o dedo fundo na sua ferida, embebendo o dedo em sangue. Não pôde evitar gemer de dor.

Ela começou a desenhar algo no chão. Fez um circulo com alguns símbolos. Por fim, levou um pouco de sangue à testa e começou a repetir palavras em forma de cânticos. Depois de uma hora desse expediente a sala toda escureceu quase totalmente e uma voz fez-se ouvir de um canto. Era impossível entender o que dizia. Marta procurou a fonte do som e o corpo da mulher que jazia ali morta, moveu-se e olhou para ela. Marta soltou um grito breve de horror.

 

A mulher morta levantou-se com dificuldade estalando as articulações e pingando sangue no chão. Apoiava-se no único braço que restava-lhe. Pôs-se de pé e falou duas ou três palavras em um idioma desconhecido e parou em silencio como se fosse um boneco sem ninguém a puxar-lhe as cordas. Marta hesitou em horror.

– Saudações – disse a mulher depois de um tempo de silencio. – Quem me invoca nessa noite de sangue e lugar de horror?

– Meu… Meu nome é Marta – respondeu tremendo.

– Ó Marta. Marta em desespero chamou um príncipe do inferno. O que tu, Marta, desejas?

– Com… com quem eu falo agora? – respondeu tomando um mínimo de coragem.

– Eu sou o terceiro dos caídos.

– O transmorfo? – Marta perguntou.

– Eu. Agora diga-me Marta, a flagelada. O que desejas de mim? Barganhar?

Marta hesitou e lembrou-se dos eventos recentes, desde a injusta morte de seu marido, meses atrás.

– Paz. Só paz – respondeu cabisbaixa.

A entidade a sua frente gargalhou ruidosamente.

– Então Marta, a pequena, não quer vingança, ou riqueza, tampouco maldição a outrem. Ela quer apenas… Paz?

– Sim, isso mesmo. Para mim e meu filho.

– Dar-te-ei o que desejas, filha. E o que tu propões em troca?

– O que você quiser tirar.

– Minha qualidade favorita de contrato. Esplendido. Se desejas paz, beije-me agora.

Marta então levantou-se e caminhou em direção ao defunto que agora servia de simulacro para a entidade. Abraçou-o e o beijou. Beijaram-se como se fosse um namoro recente, com paixão. Então a sala iluminou-se parcialmente novamente, e o corpo da mulher desabou pesadamente ao chão. Marta deu alguns passos para trás e, num surto, vomitou num canto. Sentou-se esgotada limpando o canto da boca quando ouviu um clique. A porta que antes estava trancada, abriu um fresta.

Ela levantou e saiu por ali, olhando para os lados, desconfiada. Percorreu corredores, e quando passou por uma sala de raios-x, os relógios medidores tiveram seus ponteiros girados até a área vermelha, no extremo oposto à posição original.

Quando chegou ao saguão, um homem a avistou.

– Ei você! Pare aí mesmo! – falou enquanto se dirigia a ela, correndo.

– Não, pelo amor de deus, não faça isso – Marta protestou.

Marta estava debilitada sobremaneira e não conseguiria correr, sendo que o homem alcançou-a facilmente. Agarrou-a pelos braços e a levou. Porém, quando estavam andando pelos corredores ele começou a titubear, diminuiu a marcha e por fim caiu atordoado. Marta estranhou o fato, mas comemorou em silencio, aproveitando a chance para sair pelo saguão do hospital. Como era noite, não havia ninguém na recepção. Quando chegou ao lado de fora, notou quatro guardas deitados, incapacitados. Correu em direção a sua casa, para seu filho.

Chegou lá e a porta estava trancada. Bateu e chamou por Luciano. Demorou, mas ele abriu a porta com cara de sono.

– Meu filhinho! – Marta disse agarrando e abraçando Luciano avidamente.

– Oi mãe! – ele disse feliz. – As tias disseram que você tinha viajado. Mas você esta tão feia, mãe. O que aconteceu com você?

Antes que Marta pudesse responder Luciano vomitou aos seus pés.

– Oh meu querido, você esta mal do estomago?

– Acho que sim – ele disse.

– Vamos pegar nossas coisas, nós vamos embora.

Mal ela acabou de falar, Luciano caiu inconsciente em seus braços.

– Luciano! Luciano! Meu amor, fale comigo – disse exaltada. – Oh deus, o que esta acontecendo?

Ela ergueu o menino no colo e voltou em direção ao hospital o mais rápido que pôde, o que não seria tão rápido, pois somado ao peso de Luciano, ainda estava fraca física e mentalmente. Tanto que não conseguiu chegar, devido ao cansaço parou na metade do caminho sem forças. Gritou por ajuda, mas nenhuma alma viva respondia. Descansou chorando alguns minutos, com seu filho inerte deitado no meio da rua, depois tornou a carregar Luciano em direção ao hospital. Parou novamente por mais duas vezes, mas por fim, chegou ao seu destino.

Ao adentrar no saguão sob as luzes olhou bem para a feição de Luciano, e viu que sua pele estava azulada, seus olhos inteiramente vermelhos, e espumava pela boca. Estava já além de qualquer ajuda, pois não mais respirava.

Marta foi ao desespero apertando o seu filho contra o peito. E ficou ali, sentada no chão com o seu filho que se fora. E não moveu-se mesmo depois que o cadáver do filho esfriou. O beijou e afagou os cabelos por dias seguidos.

A cidade onde a Morada Oasis estava localizada foi evacuada totalmente, pois as autoridades governamentais decretaram estado de emergência, uma vez que segundo as estatísticas esse foi o segundo maior desastre radioativo da história de humanidade. Entre os mortos foram registradas cerca de cinquenta pessoas e o efeitos da radiação perduraram por gerações após o incidente.

Até os dias de hoje conta-se que Marta continua no epicentro da tragédia, carregando seu filho no colo, chorando sua perda no meio da Cidade Fantasma.

Texto de: Adriano Cardoso

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