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CAPITULO DOIS

A mudança foi breve e em poucas horas tanto os homens da mudança quanto Marta organizaram as coisas dentro da nova casa, que era deveras simples, mas devia ser uma biblioteca antiga pela quantidade de livros que havia no porão.

Uma vez com a casa em ordem, Marta e Luciano foram procurar um supermercado para comprar os primeiros suprimentos. Havia um pequeno mercado no final da rua. Ao voltarem, viram um senhor alto, com um terno cinza, de cabelo grisalho à sua porta tocando a campainha. Quando estava por desistir, Marta aproximou-se com o pacote de supermercado e Luciano a tiracolo.

– Boa noite, pois não. Posso ajudar? – Marta perguntou.

– Ora claro que sim. Você deve ser a Marta, não é? –  o homem perguntou.

– Sim eu mesma.

– Eu sou Franco. Podemos conversar?

– Ora certamente. Vamos entrar, por favor.

Ela abriu a porta, foi até a cozinha, largou as compras, enquanto que Luciano e o próprio Franco a seguiram. O menino pegou uma lanterna e foi brincar no lado de fora, iluminando a grama e a rua.

– Sente-se sr. Franco – Marta disse.

– Obrigado, Marta. Me diga, fizeram boa viagem?

– Oh sim, foi tranquila. Bem tranquila.

– Muito bom. Escute Marta, eu sou o patrocinador da Morada Oasis e queremos que os moradores daqui se sintam o mais a vontade possível. Eu e o atual governo estamos alinhados e comprometidos a oferecer essa segunda chance a pessoas que viram as esperanças esvaírem pelo ralo.

– Entendo, senhor. Mas pra mim ainda não esta claro como iremos pagar ou retribuir por tudo isso.

– Você irá participar de um projeto que visa avanços científicos para nosso país.

– Em que área?

– Cosméticos, basicamente.

– Cosméticos?

– Isso mesmo. Você será nossa cobaia para testarmos esses produtos – ele respondeu rindo.

– Perfeito então – Marta riu de volta.

– Bem Marta, não quero mais tomar seu tempo, espero que você goste daqui tanto quanto gostamos de tê-la por perto. Se precisar de algo, deixe-me saber. Eu moro a três casas do supermercado. Boa noite.

Franco levantou-se, cumprimentou Marta e deixou a casa. Ao passar pelo jardim afagou a cabeça de Luciano que retribuiu com um aceno de adeus.

Mais tarde naquela mesma noite, após o jantar Marta desceu ao porão para olhar que tipo de livros haveriam ali. Havia de tudo um pouco. Literalmente de tudo. Escolheu dois livros infantis e subiu de volta. Pôs Luciano na cama e os leu para ele, até ele adormecer dormindo o sono dos justos.

Depois disso, ela voltou ao porão e leu alguns livros, principalmente um que não tinha título algum na capa, que prendeu a sua atenção.

 

Dois dias depois um carro parou de manhã em frente à casa de Marta e dois homens fortes de branco saltaram. Tocaram a campainha. Marta atendeu a porta.

– Senhora Marta? – um deles perguntou.

– Sim, sou eu.

– Poderia nos acompanhar? Chegou a sua vez de colaborar.

– Oh sim claro.

Ela voltou para dentro e arrumou-se. Na saída deu um beijo na testa de Luciano.

– Mamãe já volta, meu amor.

– Ta, mãe.

Ela acompanhou os dois homens. Eles sentaram a frente do carro e ela, no banco de trás. Rodaram cinco minutos até chegarem a um hospital. Todos desembarcaram do carro e entraram no local. Pararam brevemente na recepção para fornecer alguns dados, depois foram a um consultório médico, onde havia instrumentos de enfermagem e uma maca.

– Espere aqui, dona Marta – um deles disse deixando-a sozinha na sala.

Sem demora uma enfermeira entrou na sala e, amistosamente cumprimentou Marta.

– Poderia deitar-se aqui, por favor? – a enfermeira disse apontando para a maca.

Marta obedeceu enquanto que a enfermeira pegou uma seringa e encheu com um líquido amarelado.

– Esse é um remédio para verificarmos se você tem alergia aos produtos que aplicaremos em você em seguida, ta bom?

Marta assentiu com a cabeça. A enfermeira aplicou a injeção e Marta perdeu os sentidos.

Ao abrir os olhos estava tonta, incapaz de pensar com clareza. Já era noite e estava de volta ao jardim de seu nova casa, escoltada pelos mesmos dois homens que a levaram na ida. Eles entraram na casa com a chave que ela possuía e a colocaram na cama. Luciano acompanhou a toda a cena e, quando os homens foram embora foi até a mãe.

– Você esta bem, mamãe? – perguntou abraçando-a. – Eu fiquei sozinho o dia inteiro, uma tia vinha de vez em quando ver se estava tudo bem comigo.

No entanto Marta não articulara nenhuma palavra, apenas balbuciava e babava intermitentemente. Luciano a abraçou novamente e deitou ao seu lado, até que ele adormeceu.

Mas Marta não conseguiu dormir. Sentia suas pernas e braços incharem e desincharem, e sentia coceira por todo o corpo. Durante a madrugada levantou para vomitar no banheiro.

No outro dia pela manhã estava melhor, sem tontura ou náusea, mas cansada pela falta de sono. Luciano a ajudou a realizar as tarefas da manhã.

– E quanto eu vou ir para a escola mãe? – ele perguntou enquanto ajudava no café da manhã.

– Logo, filho. Ainda estamos em período de férias.

Nisso uma batida na porta fez-se ouvir. Marta levantou-se da mesa do café da manhã e atendeu. Era Franco.

– Bom dia Marta, posso entrar?

– Oh claro, senhor Franco.

– Poderíamos falar a sós um momento?

– Sim sem duvida. Luciano, pode ir brincar la fora, meu amor?

O menino obedeceu. Pegou sua bola de plástico em um canto e saiu porta afora.

– Sua noite não foi agradável, foi Marta?

– Não senhor, passei mal, com náuseas e vômitos a noite inteira.

– Sim, pelo que me informaram no hospital, seu corpo não reagiu bem ontem às provas de produtos.

– Eu… Eu não lembro do que houve ontem.

– Basicamente você ficou desacordada o dia inteiro, mas não se preocupe, mandei uma enfermeira vir checar seu filho durante o dia.  Ele almoçou e jantou adequadamente.

– Sim, ele me disse.

– Sendo assim, Marta, por favor, me acompanhe ao hospital novamente para que realizemos alguns exames para determinarmos o que esta havendo de fato, sim?

– Claro, deixe-me pegar meu casaco.

 

Texto de: Adriano Cardoso

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