CAPITULO UM

Em uma cidade, que não muito tempo depois seria chamada de Cidade Fantasma, numa sala cuja localização era considerada conhecimento proibido, um homem e uma mulher estavam sentados frente a frente, separados por uma mesa. Ela era uma mulher atraente, mas parecia cansada, não tanto fisicamente, mas animicamente. A sala era iluminada apenas por uma lâmpada situada por sobre ambos.

O homem retirou uma carteira de cigarros do paletó, retirou um, bateu duas vezes na mesa e o acendeu à boca. Expirou a fumaça lentamente.

– Bem senhora Marta, imagino que você tenha ideia do tamanho dos problemas em que você se encontra nesse momento. Você esta sozinha, sem emprego e com um filho pequeno para criar.

– Isso porque meu marido foi assassinado, condenado injustamente pelo governo – ela disse fuzilando o homem com os olhos.

– Seu marido era um traidor…

– Um jornalista honesto e competente. Bom pai! – ela interrompeu.

– Não de acordo com a Nova Constituição, senhora. O Estado agora enxerga os cidadãos com outros olhos. Muito mais vigilantes e cuidadosos do que antes. O seu marido estava lidando com coisas que não lhe diziam respeito.

– Mas diz respeito à sociedade. Aqueles homens e mulheres desaparecidos tinham família…

– Senhora, não estamos aqui para falar sobre os motivos que levaram a condenação do seu marido – falou, dessa vez ele interrompendo-a. – Estamos aqui para decidir o seu futuro.

– Do meu futuro pode deixar que eu mesma cuidarei.

– Como? Sem qualificação, sem renda. Acredito que as economias que seu marido lhe deixou não vão durar muito tempo. E sei que você não vai deixar seu filho passar qualquer tipo de necessidade, e cabe lembrar que prostituição é contra lei.

– Como você se atreve a pensar…

– O que eu penso é irrelevante, Marta. Por favor, considere essa opção – falou puxando um panfleto de dentro do paletó e arrastando-o na mesa até chegar às mãos de Marta.

– O que é isso? – disse ela desconfiada com uma sobrancelha erguida.

– Uma nova vida, uma nova opção. Digamos que certos departamentos do governo são mais sensíveis a perdas de entes queridos do que outros. A mão que agride pode ser também a mão que socorre, compreende?

No folheto dizia que o governo estava oferecendo uma segunda chance a pessoas em momentos de grande necessidade, que havia um grande terreno não muito longe dali onde pessoas congregavam-se para se ajudar. Em troca o governo pedia apenas que participassem de “programas alternativos para o progresso da ciência”. Havia escolas, supermercados e até mesmo um hospital no local. “Morada Oasis” era o nome do local, um condomínio  que ficava na zona rural da Cidade Fantasma.

– Pense no futuro do seu filho – ele disse ao levantar. – Procure-nos caso você decida pelo melhor.

O homem saiu da sala e deixou Marta contemplando o panfleto. Ao sair do prédio, foi até a parada de ônibus mais próxima e tomou o ônibus que tinha como destino o bairro onde morava.

Ao chegar em frente ao prédio humilde onde morava, abriu a grossa porta de madeira, subiu os cinco lances de escada por corredores mal iluminados e mofados.

Abriu a porta do seu apartamento e viu seu filho sentado no carpete quicando uma bola de plástico e assistindo a desenhos animados na pequena televisão da sala.

– Oi mãe! – ele disse com um sorriso, levantando-se e correndo em direção a Marta. – Eu fiquei muito sozinho aqui, achei que você não voltaria mais.

– Eu lhe disse que eu não demoraria, Luciano. E você já tem sete anos, já pode ficar sozinho, não é?

– Sim, mamãe, posso sim – falou ao dar um abraço na mãe.

– E você vai cantar hoje a noite? – ele perguntou.

– Não, Luciano, meu querido. A mamãe não canta mais, não faz mais shows, todas as canções se acabaram – ela disse olhando para o panfleto.

 

***

 

Depois de uma semana Marta e Luciano estavam na fila do ônibus que levaria para a Morada Oasis. Em mãos tinham os poucos pertences que puderam carregar, enquanto que móveis e utensílios seguiriam de caminhão para lá. Subiram no ônibus e encontraram duas poltronas, uma ao lado da outra e acomodaram-se ali.

– Como falamos antes, filho. Estou fazendo isso para o seu bem, ta? – Marta disse.

– Sim, mamãe. Eu estou feliz por estarmos juntos – ele respondeu com um sorriso.

A viagem foi curta e confortável, e o pessoal dentro do ônibus era amistoso, pareciam ansiosos em iniciar uma nova vida, para deixar para trás os problemas que cada um tinha.

Ao chegarem, Marta estranhou que ao redor do terreno havia algumas camadas de cerca de arame farpado e alguns guardas a mais do que ela esperava para um condomínio residencial civil, mas não se incomodou em questionar sobre.

Dentro do condomínio, o ônibus ia parando em vários prédios, deixando as pessoas conforme o motorista gritava os nomes de cada um, baseado em uma lista que tinha em mãos.

Na vez de Marta, ela e Luciano deixaram o ônibus e uma mulher de jaleco branco os recebeu na calçada.

– Olá… Deixe-me ver aqui. – falou olhando uma folha numa prancheta. – Marta. Marta e Luciano, certo?

– Nós mesmos – Marta respondeu sorrindo.

– É um prazer tê-los conosco na Morada Oasis! Sejam bem vindos – disse estendendo a mão e cumprimentando Marta. – Vocês ficarão aqui a partir de agora.

Estavam na frente de uma casa antiga, com um gramado bem cuidado na frente e uma cerca pintada de branco.

– Estranho. Achei que esse condomínio tivesse sido recém construído – disse Marta.

– E foi. Essa casa é uma das raras exceções, ela estava aqui desde a compra do terreno – respondeu a mulher.

Ela conduziu mãe e filho para dentro da moradia e mostrou as primeiras dependências da casa.

– Hoje a noite, nosso anfitrião o senhor Franco virá lhe dar as boas vindas e lhe instruir de como as coisas funcionam por aqui. Passar bem – ela disse ao sair da casa.

Enquanto a mulher ia embora o caminhão com a mudança de Marta encostava ali na frente, e dois homens começaram a descarregar móveis e eletrodomésticos.

– Mãe, posso jogar bola aqui no jardim? – Luciano perguntou.

– Claro querido, divirta-se bastante.

Texto de: Adriano Cardoso

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