As letras das músicas e as vozes e a cerveja e todo o
resto

Como surge um poema? Como surge o amor?
E os mendigos bêbados na noite?
A tremedeira a tosse o frio e a sensação de que:
se eu não tomar mais um trago,
não vou conseguir deixar de dormir por dias,
morrendo na escuridão de um quarto abafado,
que levanta nuvens de poeira a qualquer mísero toque do vento
que escapa por debaixo da porta,
junto de uma luz que queima meus sonhos ao tocar meus olhos

Eu poderia falar sobre os campos e sobre as flores e talvez sobre
as pernas e a cor das calcinhas nos varais e os cabelos soltos
e os pássaros que voam e voam e cagam e morrem nos fios dos postes
Porra, eu poderia falar sobre tudo, tudo mesmo, mas no momento eu só quero
mais uma cerveja e uma tempestade que dure

É triste não ter nada pra fazer na maior parte do tempo
Mas ainda sim, é melhor do que trabalhar ou erguer pesos
ou tirar fotos e sorrir apenas, por educação

As letras das músicas e as vozes a cerveja e todo o
resto

Eu enxergo mais do que deveria das pernas de uma garota que senta no fundo do bar irlandês
Um cara do meu lado com olhos bêbados e uma barba cheia de fios brancos que, acusam anos de uísque, aponta para a garota… e esboçando um sorriso tolo, ele diz:

– Nada como um bom naco de coxa à mais, não é parceiro?
– Certo… – eu respondo secando minha cerveja.

Bom, acho que beber num bar e pensar, é ”fazer” alguma coisa
mas não é o suficiente, nunca é…
Eu levanto, e vou até a garota… Primeiro ela olha, depois desvia o olhar…

Eu sento e faço sinal,
pedindo duas cervejas

”Finalmente, sinto que estou fazendo alguma coisa”
”Ã? – ela responde meu pensamento alto.
”Esquece”

Ela ri… Não parece ser só por educação… Não é o suficiente, mas é um começo…

Poema de: Vinícius Prestes
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