Em algum bar

Mais uma dose de uísque…

tudo tem gosto de cigarro

menos o cigarro

Mais uma dose de uísque…

a depressão toca

no blues

E

no piano depois das duas da manhã

por algum bêbado insano

que caiu de cabeça

e quando se levantou, sabia tocar piano, violino

e punheta com as duas mãos

Mais uma dose de uísque…

o garçom me olha com desprezo

um rosto velho e enrugado,

inchado, horrível

a cada dose que  serve

bebe duas de costa para nós

Mais uma dose de uísque…

a prostituta é discreta

a mais discreta que já vi

de todos os bares que já fui

roupas pretas, salto normal,

pernas a vista, mas não explicitas

nada obsceno, uma boa mulher

Mais uma dose de uísque…

a depressão é difícil de ser explicada

uma tristeza fugaz, me parte ao meio

me tortura, me atormenta, me faz tremer

por inteiro

Mais uma dose de uísque…

me conformo com tudo

entendo a humanidade, entendo a fome na Africa

e o os assassinatos, as guerras e os filósofos,

entendo o porquê deles deixarem

o vento frio entrar e nos congelar

Mais uma dose se uísque…

Nem boas mulheres, nem boas camas e lençóis limpos,

nada disso, não essa noite, talvez, não nessa vida,

pelo menos pra mim e para os que ainda bebem comigo

Mais uma dose de uísque…

já não sinto vontade de ficar, já sinto frio demais

o uísque não aquece, apenas queima minha garganta,

estomago, esôfago, fígado, alma, já não sei mais

sinto a vida se desfazendo aos meus olhos

sinto que as coisas não vão mudar,

sinto que esse bar morreu pra mim, hoje

Mais uma dose de uísque…

A última, antes de sair

caminho no meio da rua,

acendo um cigarro que não tem gosto de cigarro

trago a fumaça

tem gosto de framboesa

e suicídio

eu devo estar ficando louco

ou devo estar muito bêbado

ou os dois.

Continuo caminhando…