BIG MIKE

Big Mike era a atração principal do bar FuckingShit, o segurança de 2 metros de altura e 150 quilos, era um animal. Big Mike era o homem mais feio do mundo, seu rosto parecia ter sido moldado a socos e pedradas, não tinha sobrancelhas, seu nariz era torto e sua boca não tinha formato e nem cor, sua testa era frangida e estendia-se um palmo para frente de seus olhos, que ficavam escondidos atrás daquele monte de osso e pele. Big Mike era careca e sua barriga não cabia direito nenhuma camiseta, ele fedia a vômito, suor e cerveja barata. Big Mike se embebedava e batia em todos que estivessem em seu caminho. Big Mike sabia bater, raramente alguém ficava em pé depois de levar um soco dele, ele não tinha técnica e nem era rápido, mas era preciso, desferia golpes no baço, costelas, queixo, têmpora e no nariz.

Big Mike não tinha medo de ninguém, enfrentava qualquer e batia em todos, nenhum homem vivo ou morto podia com ele, com uma garrafa de uísque na mente ele poderia começar uma guerra, com duas garrafas, talvez ele ganhasse a guerra. Era o campeão mundial do bar FuckingShit, o nosso campeão, seu cinturão era uma garrafa de cerveja com seu nome escrito errado nela, ‘’Big Maike beer’’. Uma vez lhe paguei meia garrafa de uísque barato para ver ele destruindo o bar, foram os 5 dólares mais bem gastos da minha vida medíocre. Big Mike não sentia remorso, batia em homens, mulheres, travestis e provavelmente em crianças também, era um filho da puta desprezível, não sabia o que era respeito e não se importava com isso. Era um ser humano sem um pingo de humanidade. Todos gostavam dele, eu também gostava.

Nas sextas a noite, o bar ficava lotado, prostitutas, bêbados, loucos, adolescentes, assassinos, pedófilos, punheteiros compulsivos, travestis, capitalistas, comunistas, ateus, veados, lésbicas, artistas, lixeiros, gênios e mendigos, todos saiam de suas rotinas monótonas e iam para o bar, beber e reclamar da vida, assim como tinha de ser, no final das contas é só isso que nos resta, não?

Big Mike já estava bêbado, ele bufava e rosnava, olhava para todos nós com raiva, a mais pura e verdadeira, suas mãos tremiam ele rangia os dentes e caminhava pelo bar a procura de um motivo para bater em alguém. O pobre garçom, um rapazinho que deveria pesar 30 quilos, esbarrou em Mike, antes que pudesse falar, Big Mike levantou-o do chão com um soco na barriga que o fez vomitar o almoço, o pobre garoto ficou deitado em cima de seu próprio vômito agonizando de dor. Então, o show começou, 4 amigos que jogavam bilhar, covardes com coragem, lançaram-se contra Big Mike, os tacos de bilhar se quebraram no campeão, que não se abalou, Big Mike começou a lançar seus socos em direção aos 4, o primeiro a ser acertado caiu em um sono profundo, não se machucou muito, teve sorte, o segundo a ser acertado, perdeu no mínimo uns 5 dentes da boca, os outros dois tentaram fugir, mas ambos foram lançados contras as paredes várias vezes, como bolas de bilhar, irônico eu pensei. A noite estava só começando no bar FuckingShit, ao som de blues e jazz e dos macacos(pessoas imbecis) que urravam e gritavam, o nosso campeão desferia seus golpes contra qualquer louco que o afrontasse, e acredite, naquele bar havia muitos homens insanos. Era lindo. Aquela demonstração de selvageria humana era inspiradora.

A bebida rolava, e os homens insanos iam caindo diante do nosso campeão, já não era mais tão bonito de ver, estar ali já estava se tornando algo normal, e isso nunca é bom. Eu estava bêbado o suficiente para fazer qualquer merda, por um momento cheguei a pensar em desafiar Big Mike, mas ele ainda estava muito inteiro e eu, 1,76, 93 quilos, sem nada além de uísque e cerveja no estomago, bêbado demais para esquivar ou boxear, presava pelos meus dentes, na verdade por todo meu rosto, que mesmo sendo horrível, me agradava. A porta se abriu, um homem quase tão alto como Big Mike, com uma barba ruiva de quase um metro entrou e gritou.

— SEU FILHO DA PUTA! EU VOU MATAR VOCÊ!

— PODE VIR BABY! — Gritou Big Mike, trocando soco com 3 homens.

Os 3 homens que trocavam socos com o campeão fugiram, o sujeito de barba ruiva, caminhou em direção ao nosso campeão, que lançou um cruzado que esquerda, o barba ruiva esquivou e acertou um chute em cheio no joelho do nosso campeão. O som do joelho se quebrando ecoou como um solo de guitarra no ambiente que, naquele momento foi tomado pelo silêncio. Big Mike caiu de joelhos gritando de dor, o barba ruiva puxou do bolso de sua jaqueta de couro um canivete de mola, nosso campeão estava acabado, o barba ruiva ergueu o canivete na altura da cabeça, a lamina se mostrou, ele mirou o pescoço e desceu o braço. Antes que a lamina rasgasse a garganta do nosso campeão, como um gato ou qualquer merda, pulei e acertei o topo da cabeça do barba ruiva com uma garrafa de uísque, o barba caiu de cara no chão e ficou lá.

Big Mike, conseguiu levantar com dificuldade, ele me olhou nos olhos, seus lábios tremiam e sua expressão era de dor e tristeza, era apenas um cara que teve uma infância difícil, antes que me dissesse qualquer coisa, acertei-lhe um direto no queixo, que o jogou de costas no chão, ele chorava com as mãos no rosto e dizia ‘’oh deus, porque eu sou assim’’.

Patético.

O silêncio ainda prevalecia no bar, caminhei até uma mesa com 3 caras, peguei a garrafa de uísque que eles estavam bebendo e tomei um longo gole, os 3 me olharam frangindo suas testas, pensaram em fazer algo, mas não fizeram, nem disseram, não eram homens pra isso. Acendi um cigarro, fui até a copa e pus 20 dólares em cima do balcão, o dono do bar olhou nos meus olhos e encolheu-se, diminuindo 10 centímetros de seu tamanho e disse:

— Você não me deve nada garoto.

— Pegue a merda do dinheiro! — eu disse.

Ele pegou e diminui mais 10 centímetros.

— Tudo bem, ei garoto, você já trabalhou como segurança?

— Vá se foder. — respondi, soltando a fumaça do cigarro na cara dele.

Sai porta a fora, caminhei pela escuridão, protegido pela pouca luz dos postes e pela fumaça azulada do cigarro, não havia ninguém na rua, eu me sentia bem, segui meu caminho.

Nunca mais voltei naquele bar.

Big Mike se matou naquela noite, eu imagino.