Meia Noite

É quase meia noite. Falta uns vinte minutos talvez. Tempo suficiente, para me levantar e passar um café antes de sair. Não há muita coisa que me faça sentir orgulho de mim mesmo. Mas gosto muito de passar um café. Algumas coisas gostamos mais de seu cheiro, do que seu próprio sabor. E o café é uma delas. Tomei meia xícara , apanhei meu casaco e sai rapidamente descendo as escadas do meu pequeno flat. A rua quase toda escura, poucas lâmpadas ainda funcionam no meu quarteirão. Senti um ar gélido tomando meu corpo, de certa forma gosto disso. Me sinto muito mais confortável a noite. Gosto dessa atmosfera densa, a noite você se sente mais vulnerável, porém mais atento, com medo, e o medo pode se tornar algo interessante, assim como o amor, o medo pode desencadear as mais diversas reações e os mais diversos sentimentos. Poucas pessoas circulam à noite, me sinto mais à vontade em andar naquela quase escuridão. O frio que corre sobre minha espinha, faz-me sentir mais vivo do que nunca.

Meu objetivo é chegar na rua cinco, no final dela. É a primeira oportunidade de emprego que tenho depois de chegar na chamada cidade grande. Preciso muito de emprego. Tenho pouco dinheiro e preciso sobreviver. Ás vezes imagino como teria sido mais fácil se permanecesse na minha pequena cidade, morando com minha mãe e trabalhando na oficina de meu avô. Mas como todo jovem de 18 anos, meus sonhos falaram mais alto. Resolvi vir para cidade grande, ganhei uma bolsa na faculdade de psicologia, eu gosto de morar sozinho e ter que me virar. Não há ninguém para arrumar meu quarto e fazer minha comida. E muito menos alguém para me dar dinheiro, quando já tivesse gastado todo o meu salário. Terei que aprender a conviver com isso, deverão ser os anos mais difíceis de minha vida.

Eu vou encontrar um colega de faculdade no final da rua cinco. O nome dele é Joe, um sujeito de estatura baixa e com alto nível de gordura corporal, sua pele é extremamente branca e seus cabelos são vermelhos, as sardas tomam a maior parte de seu rosto naturalmente inchado. Ele está no segundo semestre da faculdade. Todo mundo acha ele estranho e obviamente, foi o primeiro amigo que fiz na faculdade, pessoas estranhas combinam muito comigo. Joe havia arrumado essa vaga de emprego, depois de ter comentado à ele que estou completamente enforcado financeiramente. Não sei o que exatamente se trata o emprego, desde que não precise matar alguém, já está ótimo. Ainda não chegarei a esse ponto, não na primeira noite, pensei comigo mesmo, contendo os risos em minha face. Quase chegando ao local onde havia combinado com Joe, já consigo o ver, ele está escorado em um poste, um dos poucos que ainda acendiam. A luz ilumina aquela cara redonda, com bochechas vermelhas, ele está imóvel e respirando pesado, da para o ouvi-lo antes de o ver. É, realmente Joe é estranho.

— E ai Joe! — disse para ele o estendendo a mão. — Tudo bem?

— Tudo ótimo Marvin, já estava a algum tempo te esperando, achei que não viria mais, vamos entrar já estamos atrasados. — disse Joe, apertando e sacudindo a minha mão.

— Ok, vamos lá! — disse para Joe, sorrindo sem mostrar os dentes.

A rua cinco não tem saída, entramos em um beco e ao final dele uma pequena porta de ferro, em um corredor escuro e pouca iluminação. O medo é maior nessa situação. Pensei, será que Joe não é um psicopata que quer me matar e cortar meus pedaços para espalhar por todo o campus da faculdade? Afinal ele é uma figura muito estranha, e o conheço a pouco tempo. Mas de repente, um outro pensamento tomava a minha mente. Joe é um cara pequeno e gordo, muito vulnerável a qualquer um que quisesse o agredir, e gordo não faz mal a ninguém. Mais uma vez contive os risos que tomavam minha face. Eu seguia alguns passos atrás de Joe, revezava mentalmente entre delírios e epifanias. O que há no final do corredor, uma porta? Será que Joe é um psicopata cruel e gordo, que finge ser vulnerável para não despertar medo em suas vitimas? Mais uma vez, contive os risos em meu rosto. Já passou da meia noite, isso vai ser interessante.