– Eu me senti como Jesse Owens naquele país!
– Foi a macumba brasileira que fez nosso atleta ser derrotado!

O que poderiam ser dois disparates arrogantes e sem sentido na verdade revelam uma trama muito mais sinistra, com desdobramentos ocultos e uma parte da História que a maioria das pessoas não conhece.
Parte da verdade foi revelada, da melhor forma cifrada de todas – ou seja, contar os fatos literalmente, e dizer que é tudo invenção – por um cineasta ítalo-americano, num filme de muito sucesso, elogiado pelo ritmo e pelas atuações, mas criticado pela pobreza de sua historicidade.
O fato é que a Operação Kino existiu. O mais bem sucedido de todos os planos para eliminar Hitler da terra, pondo fim ao reinado de terror do mais sanguinário ditador do século XX. Ele de fato foi morto num pequeno cinema da França ocupada, dias e dias antes do Dia D.
Só que as coisas não eram tão simples.
Na verdade, nunca houve um Hitler. Muito se comenta sobre os sósias, e quem morreu naquela noite foi apenas mais um. Porque só havia sósias. O homem nunca existiu. As lendas bizarras sobre sua vida e a raridade de seu sobrenome são indicativos disto. “Hitler” era um personagem criado por uma mistura de magia negra e ciência proibida, através da geração de clones descartáveis com memórias implantadas que acreditavam em seu próprio passado e destino glorioso. Após a morte deste fantoche, os membros da Irmandade Thule e da Sociedade Vrill, os verdadeiros dirigentes secretos da alta cúpula nazista, apenas geraram novos clones para todo o mundo que morrera no incêndio e prosseguiram com o show. O Homem Das Luvas Verdes, segundo sussurram os que sabem da história, recebeu a notícia do incêndio do cinema com um bocejo e voltou para o laboratório assobiando. Há quem diga que ele ainda produz estes construtos, apenas com aparência e nomes diferentes, todos com a mesma pretensão ilusória de grandeza e discurso intolerante disfarçado de progresso e vitória. Teoria reforçada pelo que vemos nos noticiários e propagandas, sobretudo os políticos.
Entre os membros da Operação Kino havia um certo coronel nazista poliglota, um agente duplo, portanto, que colaborou com os aliados e foi levado como prisioneiro para a Inglaterra. Enquanto era mantido cativo, Churchill e os demais que dirigiam o espetáculo daquele lado do Canal da Mancha receberam a notícia de que Hitler estava vivo e bem e concluíram que a operação tinha sido um fracasso. Num cover-up do que tinha acontecido, incineraram toda a documentação do caso, despacharam os agentes aliados sobreviventes para outros pontos do mundo e executaram o prisioneiro discretamente.
Mas a saga do coronel não termina por aí. Pelos seus feitos monstruosos e coração sem amor, dos quais se orgulhava com o enorme ego que tinha em vida, ele caiu em uma das regiões mais baixas e escuras do mundo espiritual de nossa orbe. E, em seu inferno pessoal, vivenciou tudo aquilo que infligira a outros. Era um fugitivo escondendo-se em porões e esgotos, até que finalmente era capturado e enviado a um campo de concentração, onde a rotina de trabalhos forçados, humilhações, torturas e experimentos médicos desumanos o reduziam a um farrapo, indo finalmente para a câmara de gás e, depois, para os fornos de cremação. Quando finalmente as chamas consumiam o corpo, ele acordava novamente no porão da casa de um fazendeiro da França ocupada, escondendo-se de homens parecidos com os que ele fora em vida, com uma memória vaga do próprio passado. E tudo recomeçava. Porque é isto que o inferno é: repetição.
Numa destas jornadas, porém, o inesperado aconteceu, e o coronel conseguiu escapar, driblando um dos guardas do campo. E foi encontrado por um espírito superior que vagava por ali e deu a ele chance de sair do sofrimento e se regenerar:
– Você terá que servir a um povo que, em vida, teria considerado primitivo e inferior e, assim, expiar as maldades que fez.
Nos terreiros, centros espíritas e igrejas onde se manifesta, o coronel, para quem tem olhos para ver, aparece como um homem de sobretudo preto, estilo militar, e quepe, com uma marca de ferro em brasa na testa que ele alega ter feito para remover outra mais antiga. Ele é reconhecido pelo seu sorriso irônico e olhar sinistro. E pela sombra da maldade que ainda paira sobre ele. Sua habilidade com idiomas já o fez ser tomado pelo próprio Satanás, de quem se diz que sabe todas as línguas existentes.
Uma das missões que recebeu, de um dos feiticeiros que o evocou, seria essa:
– Há um atleta estrangeiro em nossa nação que precisa aprender uma lição de humildade. Providencie isto e garanta a vitória de nosso homem.
Invisível ao lado do atleta francês no momento do salto com vara, o espírito, antes de dar-lhe um puxão no pé, não resistiu a uma piada de seus tempos de algoz encarnado, pois é fato que é uma alma ainda muito ruim e sabe-se lá se um dia será melhor do que isso. E murmurou, no instante do salto mal sucedido:
– Bupsti!
E o francês, com aquela pequena parcela de mediunidade que todos temos e que aflora em momentos de grande estresse emocional, foi capaz de escutá-lo, por trás das vaias, urros e comemorações da torcida mais indisciplinada que já enfrentara.
Acredite se quiser.

FIM

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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