Uma semana, totalmente sóbrio
limpo,
‘’reabilitado’’
infeliz como o cão que,
arrasta o cu na grama,

Sofro com lapsos de memórias que,
Espancam a minha consciência
Como nos Goodfellas, chute na cara,
Até virar carne moída

O telefone não para de tocar,
Rita e Carlos querem saber como eu estou,
Eu os digo que vou bem, e que parei de beber
Mas eles não acreditam,
então eu deixo tocar,

Procuro algum resquício de álcool nos armários vazios
Mas não encontro nada, Rita jogou tudo fora
O gato muito magro, sentado na borda da janela
Estático, pintado na névoa que engole a cidade,
me encara com uma seriedade tenebrosa
eu coloco ração no pote
ele ignora,
eu também

O interfone toca:

‘’Eu preciso que você chame a policia, tem alguém ARMADO me seguindo!’’

Essas crianças de hoje em dia,
eu penso,
antes de ouvir,
15 tiros…

Na rua do lado, morreu um homem desconhecido
Eu deveria, sentir alguma coisa?
É só mais um dia
E faz frio
E eu li no jornal que amanhã, chove
e mesmo com esse tempo de merda
as pessoas saem de casa
e tomam tiros
e pior, se prestam a atirar
e eu não tenho certeza, mas alguém deve ter dito que,
não há tempo ruim para morrer

O telefone toca, e eu atendo:

– Cara, como você tá?
– Deprimido.
– É foda, mas tudo vai ficar bem.
– Eu espero.
– Eu e Rita estamos aqui, pra qualquer coisa.
– Mataram um cara, na rua do lado, 15 tiros.
– Meu deus!
– É…
– Podemos passar ai te ver?
– Se trouxerem umas cervejas, sim…
– Você sabe que não pode beber…
– Vocês dois deveriam parar de me ligar.
– Só queremos o seu bem.

Desligo o telefone…

Soco a parede, sinto que posso ter quebrado um dedo,
enquanto a dor pulsa,
dou risada da minha demência
chacoalho a mão, os dedos,
consigo mexer todos eles

Desço as escadas, abro a porta e caminho para o carro,
As sirenes tomam a rua, um policial pergunta:

– Você viu alguma coisa?
– Não.

Ele me olha dos pés a cabeça e diz:

– Tudo bem então.
– Sabe onde eu acho um bar aberto? – eu pergunto…
– Não. – ele responde, e da às costas sem ao menos, pensar.

Ligo o carro, arranco, dirijo entre a névoa
Não enxergo nada, paro duas quadras a frente, desligo
sigo a pé
sinto o vento congelar minhas orelhas,
esfolar meu pescoço, queimar meu nariz
enfio as mãos no bolso, enfio o pescoço no peito,
acelero os passos

A igreja está vazia, fechada e vazia…
As quatro da manhã,
era de se esperar

Quando eu tinha uns 14 anos, costumava fazer isso,
Só que tudo parecia ser,
muito mais,
emocionante

Chuto o cadeado, três vezes,
continuo chutando, até a porta abrir…

Fico com duas das 3 garrafas de vinho do padre
Faço o sinal da cruz, peço perdão, me despeço de Jesus

E sigo de volta…

vai
ficar
tudo
bem
eu
acho

Texto de: Vinícius Prestes Antipoeta )

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