O cheiro de suor mata as flores
eu sento num banco, branco de merda seca
abro uma cerveja, e tento tirar alguma poesia daquelas,
mil vidas, que tentam enganar a morte, correm, correm
todos os dias, e não comem carboidrato

 

Os cachorros sempre foram puramente
estúpidos
tropeçam no vazio, atrás de esferas de borracha colorida
quatrocentas vezes, por minuto
quanto maior o cachorro, mais desolado
o dono
olhares perdidos, bochechas chupadas, solidão exaurindo
dos ombros entrevados

 

Eu devo estar muito fodido, fazendo caminhadas, visitando parques,
praças, amigos de infância
eu não escrevo, desde a última vez que transei
e já faz algumas semanas

 

Eu mal lembro da foda, mas depois de rir de alguma merda que eu disse, ela soltou essa:

‘’Você tem uma visão muito triste do mundo’’

Eu fiquei olhando pra ela e não respondi… mas reparei que seus lábios tremiam de leve

‘’um cacoete, que se esconde na beleza’’

pensei e escrevi atrás da conta de luz

 

Eu tirei um bloco verde do bolso e soltei a cerveja no chão,
e o universo confirmou a estupides
dos cachorros
um daqueles, que tem os olhos saltando da cara
se atirou na garrafa, que espumou o chão

 

A dona veio correndo, levantou o bicho que lambia a espuma e a terra
tentou emular alguma culpa nos olhos e disse:

‘’Desculpa, a Clarinha é uma peste!’’

‘’Tudo bem…’’

Respondi sorrindo e bebi o que sobrou da cerveja.

 

Ela se virou e seguiu até o seu grupo de amigas (todas tinham um cachorro)
começou a repreender Clarinha com uma voz debiloide,
mas quando chegou perto do grupo,
se abaixou e soltou a cadela

Reparei sua bela bunda…

 

A cadela voltou a correr, minha cerveja acabou

Talvez eu tenha mesmo, uma visão muito triste do mundo – eu pensei.

 

Texto de: Vinícius Prestes Antipoeta )

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