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IV – FIM

O despertar foi súbito. Súbito como nenhum despertar poderia ser. Não havia lembrança de sonho, como acontecera para ele, nem mesmo aquele vago torpor que há logo após o sono, mesmo para os que tem mais prontidão ao acordar.

Era como se ela sempre tivesse estado ali, deitada sobre aquele caixão. Como se aquele fosse o primeiro instante de sua vida e antes não houvesse… nada. As lembranças mais recentes ainda existiam, mas pareciam vindas da vida de outra pessoa. As lembranças mais antigas, da primeira parte de sua vida, até o casamento, eram mais nítidas, mas eram como a vida de um herói ou ídolo favorito. Alguém que ela admirava, mas sabia que não poderia ser. E ela sentia nitidamente que não era mais nenhuma das duas.

Levantou-se. Percebeu que mover o próprio corpo não demandava esforço nenhum… não precisava se apoiar sobre uma perna, ou então forçar os músculos. Cada parte dela tinha uma força de movimento própria, se desejasse que seus ombros saíssem dali, pareceria ter sido puxada por uma corda atada neles.

Era leve. Era extremamente leve. E a maioria das sensações eram vagas. Os sentidos de seu corpo estavam ali, mas não lhe causavam a mesma emoção de antes. Era como estar realmente morto, era como ter apenas as informações, os fatos básicos… abaixo de mim está o chão, acima o teto, à minha frente um espelho. Nada de especial ou de realmente significativo nisso. Não sentia calor, nem frio. Não estava claro demais ou escuro demais. Sua visão seria sempre perfeita. Seu senso de orientação, também. Seria possível sentir dor?

Sentia-se tão vazia que se perguntou o que a trouxera de volta… e soube. Queria justamente aquilo… se reciclar… se transformar em outra coisa. Em algo, ainda que horrível, que soubesse amar.

O espelho colocado diante dos pés do caixão – o mesmo caixão de antes, que sempro fora para ela – era um artefato estranho, munido de um relógio de ponteiros acima do vidro, e neste vidro estava escrito com alguma tinta vermelha.

Você tem até o amanhecer para fazer sua primeira vítima,

Se não conseguir, você morrerá, já vi acontecer antes,

Num pequeno acidente que, por pouco, não transformou

Um torturador num de NÓS…

Sempre Seu,

Daniel

Ela riu. Riu alto. Riu estridentemente. Ele era tão bom, tão esperto e tão sensível… um verdadeiro cavalheiro. E sabia que ela poderia ter desistido se soubesse que teria de tomar uma decisão rápida. A antiga Lúcia-esposa teria, é claro. Aquela mulher que havia ali, porém, era feita de material melhor.

E, na imagem que somente ela podia ver, uma aparência melhor, também. Nunca mais haveria equimoses naquele corpo.

O relógio marcava dez e meia da noite.

Meia hora depois, o dr. Antonio Donatto ainda tentava convencer os policiais de que sua mulher, sumida há três dias, havia sido seqüestrada. Eles o olhavam com desconfiança… umas investigações superficiais haviam deixado bem claro o que acontecia naquela casa. Era algo que, às vezes, resultava em morte.

Eles desconfiavam. Ele sabia disso. E sabia que eles tinham razão em desconfiar, embora isto não lhe trouxesse nenhuma angústia em si. Mas ele ficava perturbado com o dano que aquilo poderia causar a sua carreira e… ora, bolas! Ele não matara a mulher! Ela fugira, é claro! Tivera a audácia de fugir! Ele era inocente.

Chegou a meia-noite e ele estava sozinho. Achava que iria passar mais uma noite em claro, tentando imaginar para onde ela fora… com quem ela fugira… que detalhe quanto à segurança das suas coisas ele deixara escapar…

Suas coisas…

Quando foi meia-noite e um no relógio digital da mesinha da sala, a campainha soou. Ele correu pensando que era a polícia de novo, fantasiando que diriam: “Encontramos a vadia esfaqueada e já apodrecendo. Foi feito pelo amante dela. Prendemos a cara. Não se preocupe, doutor Antônio, você é inocente. Não há nada pra se preocupar.”

A porta aberta, porém, revelou que, do outro lado da grade, havia uma bela dama de negro. Ruiva, pálida, esguia e de maliciosos olhos verdes. Com um sorriso irônico de quem está se divertindo muito de uma piada que entendeu sozinha.

-Posso entrar, senhor meu marido?

Só então, piscando e contemplando por mais alguns segundos, ele reconheceu Lúcia. Certo, ela estava diferente, mas nada que ele não pudesse corrigir imediatamente.

-Se pode entrar?! Já pra dentro, sua… sua vagabunda! Vai ter que…

A porta se fechou ruidosamente na sua cara. Ele piscou de surpresa. Ela estava atrás dele, sentada sobre uma poltrona, tamborilando os dedos no braço, olhando-o fixamente com o mesmo sorriso cheio de malícia.

-Sua cadela! Tá querendo brincar? Depois da sova, você vai explicar pra mim, e então pra polícia o que…

Tomou-a pelo braço e puxou-a, pondo-a em pé, preparando a outra mão para a bofetada, mas se conteve. Porque o puxão havia sido violento demais. Tão violento que agora ela estava no teto. Com as palmas e as solas dos pés descalços viradas para trás, isto é… para cima! Onde ela se grudava como uma mulher-aranha calma e infalível. Cujos cabelos cor de fogo se esparramavam sobre os ombros, imunes à lei da gravidade.

Os olhos dele se esbugalharam e o mijo lhe escorreu pela calça enquanto o grito que ele queria desesperadamente dar se evolava da boca na forma de ganidos.

-Perdão, único homem da minha vida, vou explicar sim, meu senhor amado. Mas, como você disse… vai ser depois da sova.

Então ele abriu a boca para gritar… e correu. Correu para seu quarto. Ela correu atrás dele. Rastejando pelo teto. Poderia ter pulado à sua frente assim que quisesse, mas, na verdade, queria saborear o momento.

Ele entrou e trancou a porta. Se agarrou a ela, chorando. Disse numa voz efeminada e submissa.

-Amorzinho… vamos… vamos conversar?

-Bu!

Dessa vez, ele gritou. Ela estava dentro do quarto. Em pé, sobre a cama dele.

Só então, só depois desse primeiro grito, ela o agrediu. Agarrou o seu braço e o torceu, quebrando ossos com um estalo. Ele se ajoelhou, enquanto o grito ia de grave a um agudo covarde.

Você vai ser a minha putinha boazinha! Minha putinha boazinha!

Chamá-lo assim era uma brincadeira mórbida… ele já havia se referido a ela nestes termos e em outros equivalentes.

Deu um soco em seu rosto. Depois outro e outro. Não deu o quarto porque, mesmo sem querer, aumentara a força demais, e não queria matá-lo. Chutou o estômago, e depois os testículos. Ele vomitou sem reagir. Ele não reagia. Estava completamente paralisado. Muito mais que pela superioridade física do outro… por medo. Exatamente como a mulher que ela fora, algum tempo atrás.

Puxou os cabelos dele para trás, deitou-o no chão e montou em suas costas, aproximou a boca do ouvido dele e murmurou.

-O que você é?

-Putinha boazinha… uma putinha boazinha…

-Se gritar como uma menina de novo, eu te perdôo, meu homem.

Ele deu o grito mais desesperado, apavorado, agudo e covarde que havia dentro dele. Mas era apenas isso… covardia. A mesma covardia que tornava possível as surras. Não havia remorso. Não havia culpa. Mesmo assim, ela o perdoou. Ele era um homem fraco e pequeno agora, e não podia mais lhe fazer nenhum mal.

No entanto, não podia correr riscos.

Beijou o seu ouvido e disse, com sinceridade:

-Desculpe se eu me excedi, mas você mereceu… descanse em paz.

Ele quis gritar de novo que não era justo – mas, apesar de sua supervalorizada formação universitária, Antônio tinha a mesma noção de justiça que a maioria das pessoas comuns. Justo é o que me traz beneficios, injusto é o que me prejudica. Visto isso sem nenhum paradoxo.

Porém, reflexões sobre a justiça não importaram tanto naquele momento, porque o que levou as presas de Lúcia à garganta de seu antigo marido não foi desejo de justiça, e nem sequer sede de vingança, que já fora devidamente saciada. Foi a fome. A compreensão do que Daniel dissera quando se referia à palavra necessidade.

Daniel estava ali quando ela terminou sua refeição. Ele se abaixou e esmagou o coração, na cavidade seca do peito do cadáver, com uma única mão.

-Para ter certeza…

Os dois se olharam. Ela estava coberta de sangue do lábio inferior até o colo. Seu vestido estava amarrotado e seus cabelos desgrenhados selvagemente. Seus olhos eram chamas ainda mais brilhantes que os dele. E ela tremia convulsivamente, sacudida por espasmos de um prazer horrendamente belo.

-Você está linda – disse ele languidamente.

Seu sorriso se abriu antes que ela parasse de tremer, e ela derramou lágrimas vermelhas pelas faces estendendo as mãos para ele. Somente depois de oito anos ouvira aquela frase novamente, dita cara a cara.

Não havia mais medo, em nenhum dos dois.

Finalmente, após anos de espera, horror e ansiedade, a libertação viera. Para ambos e com igual doçura. Partiram dali, juntos e livres.

Habitada agora apenas por um cadáver irreconhecível, a casa mais segura da vizinhança, se por arte deles ou do destino não se sabe, incendiou-se na mesma noite. E nada do que havia lá sobreviveu.

Muitos da vizinhança afirmam ter ouvido ou visto, pouco antes do incêndio começar, um casal estranho caminhando pela rua, rindo satisfeitos e brincando, como dois namorados, dir-se-ia dois jovens colegiais, sem nenhum respeito pelo sono alheio e nenhuma vergonha de suas gargalhadas e beijos, mas que ninguém jamais vira antes por ali, naquele bairro tranqüilo, muito menos em alta madrugada. Eram descritos como jovens e trajando preto. Por alguma razão desconhecida, ninguém teve coragem de lhes dirigir a palavra ou de sair a rua. As justificativas variavam, mas o medo que surgira de ambos, apesar de seu temperamento jovial, era invariável e, no fundo, inexplicável. Uma dona de casa, que esperava o marido voltar de uma reunião em sua empresa acordada diante da televisão, disse que ouvira a parte feminina do casal dizer uma frase na rua, a única parte inteligível de seu suposto diálogo que ficou registrada:

-Agora sei que você me ama… porque amar é libertar.

A isto seguiu-se um instante de silêncio solene e um suspiro da parte masculina, segundo alguns de temperamento mais sensível e imaginação mais fértil, um ruflar duplo de asas, desacompanhado de qualquer tipo de voz humana, encerrou por fim a cena que faziam na rua.

Depois disso, veio um silêncio que só foi efetivamente rompido alguns minutos depois pelas sirenes dos carros de bombeiros. Nenhum vestígio restara dos apaixonados e não fossem alguns mais desinibidos comentarem sua presença, ao sol da manhã todos os que os haviam percebido teriam acreditado que havia sido apenas um sonho individual, e com o tempo, seria esquecido.

Embora tenham sobrevivido como lenda e parte incompreensível de um crime insolúvel, ninguém nunca mais os viu pessoalmente.

Ou, se viu, calou-se para sempre.

Texto de: Luiz Hasse
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