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III

A casa do fim da rua Elmo não era apenas a última casa – era a o fim da rua.

A rua era longa, mas terminava num beco sem saída. Este lugar era o começo da propriedade abandonada e deserta que havia ali desde que ela era menina. A casa mal-assombrada da vizinhança, conforme o imaginário infanto-juvenil. Sabia que todos diziam lendas absurdíssimas sobre seus antigos moradores, na maioria das vezes bem incoerentes entre si, no entanto…

Não vinha ali fazia anos, mesmo percebendo, enquanto se aproximava, o quanto aquela casa estava perto da dela. E notou, estranhamente, que apesar de escura e com uma atmosfera de abandono, a casa fora reformada e estava muito bem conservada agora.

Todas as vidraças eram novas, bem como as venezianas fechadas atrás delas. A pintura fora refeita com uma cor qualquer sem brilho, quase indefinível no escuro, e a grade sobre o muro trocada e reforçada. Estava bastante diferente de quando ela brincava ali com outras crianças… e mesmo assim, bastante igual. Continuava escura, sem nenhuma luz acesa, e a alameda e o jardim da frente continuavam um matagal. Como uma selva da qual emergia a casa de dois andares e uma pequena estrutura em forma de torre no centro do telhado como se fosse um gigante de pedra espreitando uma presa.

E a presa era ela.

Pelo menos assim lhe passou pela cabeça, por um instante, antes que avistasse a silhueta do rapaz que lhe abordara na outra noite, sob a sombra de uma árvore do pátio interno, segurando o portão aberto e sorrindo para ela.

E, com aquele sorriso, todo o seu medo se derreteu. E imediatamente ela sentiu e soube, desta vez com certeza, o quanto se sentira atraída por ele. Num nível profundo e tocante. Teve a súbita intuição de que ele tinha a mesma idade que ela tinha quando se casara. Porque não havia alguém assim? Gentil. Simpático. Humilde, mas sem ser fraco. Alguém que a teria feito feliz e que teria crescido junto com ela. E não um homem autoritário, mais velho, que a havia feito regredir a um estado de infantilidade doentia.

Ora, Lúcia, disse-lhe uma voz suavemente firme, como a de um bom professor, em sua mente, havia muitos desses à sua volta. Mas você os desprezava. Era incapaz de vê-los. Na sua ânsia de ser mais, quis um homem que pensava que era mais que os outros. Um erro comum, se me permite dizer.

Seria a voz da sua consciência? Se era, sua consciência deveria ter uma voz bastante masculina.

Sem pensar mais nada, atraída por aquele sorriso hipnótico, se aproximou da entrada, então, subitamente parou. O jovem estava numa imobilidade gélida. Por um instante, pensou que se iludira com uma estranha estátua de jardim.

-Não precisa ter medo. Não lhe farei nenhum mal. Se quiser entrar, é só cruzar o portão – disse a figura, movendo os lábios muito pouco.

Aquilo convenceu-a a abandonar seus delírios.

E então atravessou a linha que a separava de sua antiga vida.

A antiga Lúcia acabara de morrer, embora ainda não soubesse disso. A nova estava entrando em incubação dentro dela, formada por outra Lúcia ainda mais antiga e por algo novo, que aquele jovem trouxera.

Ele caminhou ao lado dela. Estava vestido como se fosse para uma festa. O terno prosseguia negro, mas a camisa por baixo agora era vermelha e sem gravata. O cabelo não mudara. Profuso, negro e quase flutuante, tão finos que eram os fios.

Não disseram uma palavra, mas ela lhe deu a mão.

E compreendeu que nada mais precisava temer. O que quer que fosse que ele lhe trouxera, ele também a ajudaria a cuidar.

As portas da entrada se abriram e, no imenso salão onde no passado se realizavam festas e talvez até mesmo bailes mais discretos e particulares, estava armado um funeral. Um funeral em casa. As flores estavam dispostas por todas as paredes e algumas delas espalhadas pelo chão. E ela percebeu que não eram flores de enterro comuns – eram sua flores preferidas do tempo de menina. No centro da sala estava disposto o caixão, fechado. Toda a iluminação daquele lugar provinha de candelabros espalhados sobre pedestais de mármore, formando um desenho geométrico ordenado.

Não havia mais ninguém além deles dois.

-Não imaginava que ele tivesse morrido há tão pouco tempo.

-Ele costumava dizer que morreu no dia em que você se casou. Porque não dá uma olhada nele? Ele gostaria de receber de suas mãos uma flor.

E o jovem, delicadamente, colocou um copo-de-leite na mão dela. Ela olhou para ele e viu que ele tinha os olhos vermelhos, prestes a chorar. Sem pensar no que fazia, abraçou-o. Tentou lhe beijar a testa, mas o menino disse.

-Não. Não ainda. Vá até o caixão.

E desvencilhando-se suavemente de seus braços, entrou por uma outra porta, na parede em frente, saindo daquela sala.

Lúcia chorava ela própria, por um homem que sequer conhecia. O quanto ele a teria amado? Mudo. Torturado. Fazendo o que quer que fosse e levando uma vida de celibatário, enriquecendo sem alegria, atormentado por saudades dela.

Uma parte sua lhe gritava Não existem tais pessoas! Não existem pessoas tão abnegadas fora de um romance exagerado e fora de moda! Este homem deve ter tido seus casos! Deve ter sido feliz! Qualquer rico que mande na própria vida é feliz e…

E agora estava morto, e lhe legara tudo o que construíra. Tentara, mas as lágrimas sobrenaturalmente sinceras eram impossíveis de se deter.

Diante da tampa do esquife, ela ergueu a mão esquerda suavemente, para abri-lo e depositar a flor, com um beijo, na mão de seu admirador secreto.

E tudo virou horror.

O rosto que havia ali, a princípio era nebuloso, e parecia que estava imerso em névoa, como se houvesse no caixão uma máquina de gelo seco. Mas, em seguida, esta impressão passou – ou melhor, se transformou em outra, como se aquele rosto, e aquele corpo, tivessem engolido aquela fumaça estranha pelos poros – e ela viu quem era o seu adorador defunto.

E era o mesmo jovem que a recebera ali. Usando a mesma roupa.

Como? Ele a vira abrir a porta! Ele saíra dali diante dos olhos dela! Não houvera voltado, com certeza!

O medo começou quando ela pensou que acabara de se encontrar com um fantasma… e virou terror quando o cadáver abriu os olhos brilhantes, na semi-obscuridade da sala e a fitou com um olhar apaixonado.

Ela gritou automaticamente, como se obedecesse a um treinamento condicionado, e virou-se para correr de volta a entrada. Sentiu uma brisa suave e rápida passar às suas costas e, inexplicavelmente, diante da porta, estava o mesmo jovem, segurando a flor que ela deixara cair no momento do grito.

-Foi apenas uma brincadeira. O choque irá deixá-la mais receptiva para o que virá depois.

Sua resposta, depois de ficar um instante paralisada por aquelas palavras em tom sério, mas ainda assim tão suave, foi desferir um golpe no rosto dele com sua bolsa e correr para outra direção. O golpe teria sido forte o suficiente para fazê-lo cambalear, caso não desviasse. No entanto, ele não fez nem uma coisa, nem outra. Seu cabelo se agitou um pouco e… mais nada. Nem seu corpo nem seu rosto moveram um milímetro do lugar.

Ela tentou fugir novamente. Atrás, só havia aquela voz.

-Escute, vamos conversar primeiro, por favor.

Ela não queria ouvir nada. No fundo do salão havia uma escada. Subi-la seria idiotice, se fôssemos pensar, mas levando-se em consideração que a coisa estava no extremo oposto, na porta de entrada, ela não pensava. Tudo o que queria era se afastar dele.

Ganhou a escadaria e olhou para os dois lados. Não o viu. Olhou para trás…

… e uma coisa disforme, fantasmagórica, nem fumaça e nem névoa, mas bastante semelhante a isso, rastejava pela escada em sua direção. Ela viu – ou teve a impressão de ver – dois olhos brilhantes no meio daquilo.

Ela gritou mais uma vez e olhou para a frente. Havia mais um lance de escadas que levava, provavelmente para o aposento da torre. Aquele não tinha vidros e nem venezianas. Dali poderia gritar por ajuda ou mesmo escorregar pelo telhado até o jardim e depois, semi-aleijada, correr pela rua gritando.

Os passos ecoaram por esta escada que, no segundo lance, ficou estreita e espiralada. Pensou que terminaria num alçapão, e aí ela morreria de medo ou se mataria, mas não foi o que aconteceu. Havia um alçapão, mas ele esperava por ela, aberto.

Ela emergiu na torrezinha. Apenas um mirante do qual se via uma paisagem que, outrora, quando aquela casa talvez estivesse no campo e sobre o qual uma cidade se ergueria ao redor dela, teria sido bela. Viu o telhado ao seu redor e as janelas grandes, na verdade simples vãos entre o teto do mirante e um muro de pedra fácil de saltar. Era melhor quebrar o pescoço e morrer tentando do que…

E eis que surgia, emergindo de trás do muro para o qual ela estava virada ao chegar ali, o mesmo jovem. E agora ela o via como ele realmente era. Flutuando, erguido no ar pela força do próprio salto, depois de se ter escorregado pela frestas das telhas silenciosamente e assumido uma forma mais semelhante a um homem, leve como um balão cheio de vapor quente. Apesar da luminosa Lua Cheia atrás dele, cujo brilho ela quase conseguia ver, como se ele fosse translúcido, nenhuma sombra se projetava sobre ela e nenhuma mudança havia na claridade do mirante. Imaginou, insanamente, se alguém mais na rua o enxergaria além dela. Se tudo aquilo não estava sendo vivido, na verdade, numa sala alcochoada e monitorada, com ela embrulhada numa camisa de força, depois de finalmente enlouquecer pela tortura doméstica constante.

Ele não tinha sombra, isso era fato, mas seu corpo era escuro como se fosse visto debaixo de uma. E, além disso, seus olhos brilhavam intensamente, não como os de um animal, mas como se fossem verdadeira lâmpadas esverdeadas, dotadas de luz própria, nas quais se via, em tom sobre tom, em círculos concêntricos, as partes de um olho humano.

E o brilho de seu sorriso agora era plenamente compreensível. Afiados como facas e compridos como agulhas, seus dois caninos superiores pareciam feitos de marfim, mas tão refulgentes quanto prata.

Ela abriu a boca para gritar. Não teve tempo. Antes que ela visse seu movimento, ele estava sobre ela. Com a mão esquerda, apanhara suas duas mãos, e, com a direita, tapava sua boca. Ela queria gritar mais alto, mas nem um grunhido saia, pois, por alguma estranha força, sua garganta também estava paralisada.

Ele olhava para seu pescoço, arfando, ansioso, como um menino prestes a ter sua primeira experiência sexual. Uma respiração de maníaco… mas também de amante apaixonado.

No entanto, voltou os olhos para ela, e, enquanto eles pareciam ficar mais humanos, ela pôde ver o quanto domar o impulso quase irresistível que o jogaria contra suas veias custara em termos de força de vontade.

Mas ele acabou por vencer a luta.

Recobrando o auto-controle, diminuindo pouco a pouco o ritmo da respiração, mas sem nunca afrouxar a pressão que suas mãos geladas faziam sobre os pulsos e os lábios dela, ele disse, calmamente.

-Agora escute. Eu vou tirar a mão de sua boca. Se você gritar, eu vou morder você. Já perdi a conta de quantas pessoas eu matei desde que… bom, desde que fiquei assim. Mas não vou te matar. Vou sugar apenas o suficiente para que você desmaie… e você vai acordar em sua casa. Cada vestígio da minha existência vai ter sumido de sua vida, e, se um dia voltar aqui, vai encontrar a mesma casa em ruínas de sua infância, e ninguém mais se lembrará disso, a não ser você, e acho que, com o tempo, você irá se convencer de que foi tudo apenas um sonho romântico e cruel. Mas… é isso o que você quer? Voltar para a sua casa? Não quer ouvir o que eu tenho para lhe oferecer antes de voltar para o verdadeiro vampiro em sua vida?

Ele tirou a mão e, em seguida, era o mesmo jovem, gentil e ligeiramente preocupado. Com um salto, se pôs sentado sobre o muro que havia entre ela e o telhado. Ela não gritou, mas olhou para as outras janelas.

-Vá em frente, se é o que deseja. Não posso obrigá-la a ficar comigo. Não podia quando vivia… e ainda não posso agora. Mas, se saltar e correr por aí, vai estar louca antes de chegar em casa. Daqui pro hospício, onde seu marido a colocará para sempre, enquanto prepara os papéis de divórcio e atestado permanente de insanidade que o deixará livre para conhecer a mãe de seus filhos. Será que é tão ruim assim não poder conceber? Não tem me feito muita falta…

-Quem… é você? – ela perguntou, entre lágrimas.

-Você sabe. Daniel Ripke. O garoto que te observava apaixonado e nunca teve coragem de se aproximar. Quando soube que você estava noiva, depois do fim dos estudos, quase me matei, sabia? Eu não tinha mais nada. Era inteligente, mas o nervosismo me fizera reprovar no vestibular. Não tinha amigos, meus pais eram frios e distantes, e me olhavam agora com reprovação. Não tinha namorada e nem vontade ou coragem para me aproximar de ninguém. Amor? Amor é uma coisa cruel, porque você se coloca sob o controle de outra pessoa… não é mesmo? Você sabe disso. Eu te observei nos últimos cinco anos, esperando criar coragem para falar com você de novo. Não quero comparar o que eu vivi com o que você viveu até agora… mas amar pode ser o paraíso ou uma desgraça. Talvez por uma questão de pura sorte.

-O que você quer de mim? – choramingou Lúcia – Vingança?

-Minha querida… não ouviu nada do que eu disse?

Respirou fundo e falou, com aparente calma, mas com os olhos em chamas.

-Eu te amo. Como poderia querer me vingar de você? O que você me fez de mal?

Ela o olhou. A situação era simplesmente surreal. Porque todo aquele diálogo era versossímil – meio romanesco, mas verossímil – alguém que mantivera por anos uma paixão secreta e resolvera subitamente se declarar. Isso era o mais horripilante. Levando-se em conta que o apaixonado tinha presas de lobo na boca e olhos com luz própria, seria menos enlouquecedor se ele desse gargalhadas sádicas e dissesse que iria amaldiçoar sua existência.

Ela tentou impor uma certa lógica naquilo. Era um exercício constante de pessoas que tinham uma existência sofrida e difícil. Tentou descobrir alguma coisa sobre ele:

-E como foi… como foi que…

Não conseguiu terminar a frase. O medo era horrível. Paralisante.

Ele sorriu, parecia ser capaz de saber tudo o que ela sentia. Movendo-se como um relâmpago, estava ao lado do alçapão, e disse a ela.

-Não precisa se preocupar. Pode perguntar o que quiser sem medo. Vamos a outro lugar? Não precisa ser àquele horrível caixão, que você detestou.

Ela lhe tomou a mão e os dois desceram juntos. Era paradoxal, mas ela se sentia confortada, protegida e apavorada num só instante. Como Bela no castelo da Fera. Talvez de fato, por trás de toda aquela loucura, ele a amasse ainda.

Mas… ele era um monstro.

-Há coisas bem piores do que eu – disse ele, como se lesse seus pensamentos – e você já as conheceu, Lúcia. Não precisa ter medo de mim, porque eu não quero e nunca irei querer te machucar.

Haviam chegado à biblioteca da grande casa. Estava limpa e bem arrumada, e as estantes cheias. Uma garrafa de vinho suave esperava numa mesinha entre duas poltronas. Instintivamente, ela se sentou e viu que havia apenas um cálice.

-Não precisa se constranger. Raras vezes eu tenho oportunidade para ser hospitaleiro, o que me causa grande prazer.

Abriu a garrafa e encheu o cálice. Ela bebeu trêmula, precisando se acalmar.

-O que te deixa nervosa, isso eu sei, é que eu posso te machucar, se eu quiser. Não há possibilidade de defesa se eu quiser te fazer mal, pode acreditar. Mas eu não sou um covarde e não tenho porque fazer isso. Eu a amo como nunca alguém amará depois de mim. Creia em mim… nos últimos oito anos você nunca esteve tão segura, minha bela.

-Você disse que… mata… mata… p…. pes…

-É óbvio! Caso não tenha percebido, eu sou um vampiro! No sentido literal! Eu sei que parece quase piada, que a coisa virou um clichê de cinema, literatura e televisão, mas a chave do problema é que eu sou. E, se eu não quiser definhar, enfraquecer e talvez até morrer, eu preciso matar e beber sangue. Eu mato pra sobreviver, não tenho remorso nenhum, e às vezes me divirto bastante com isso… mas não faço por mal, ou porque quero, apenas. O fato simples e inegável é que o sangue humano é meu único alimento possível.

-Isso é monstruoso!

-Monstruoso? Se você refletir, vai ver que, no meu caso, é uma simples necessidade. Cada criatura que existe, se alimenta da vida de outra criatura, através do fenômeno da morte. Se eu ficar tendo crises de remorso, vou acabar louco. Além disso, há um detalhe que você esquece… Há homens que matam por dinheiro, por ódio, por poder, por prazer, há pessoas que declaram guerras irresponsavelmente. Matam podendo escolher não fazê-lo. Outras tantas se comprazem com a dor alheia, com a sensação de poder que isso traz. Mas eu… Eu preciso de sangue! Se eu quero ou não não importa, porque eu não tenho escolha nenhuma!

Havia indignação sincera em sua voz, e ele completou, implacável:

-Eu sou um vampiro, quer eu goste ou não. Qual é a desculpa de homens como o seu horrível marido?

-O que você sabe sobre…

-Eu sei tudo. Ou quase tudo… o suficiente para saber que ele e boa parte dos que andam sob o sol é muito pior do que eu. Eles poderiam viver diferente, poderiam aproveitar as delícias da vida terrena, das quais fui privado tão cedo…

Contemplou o cálice, que ela segurava diante dos seios – ou talvez os seus próprios seios, visíveis pelo decote de seu vestido. Um vestido preto e longo, que ela escolhera talvez para honrar o tio do menino… talvez para seduzir o menino. Talvez porque fosse a peça mais bonita de seu guarda-roupa.

Não havia menino e nem tio. Aquela criatura era tão velha quanto ela. Morrera muito antes e continuava a caminhar pelo mundo. Aquele olhar era para seus seios. Mas era um olhar de tristeza, mais que de desejo. Um olhar de eunuco no meio do harém. Um olhar de alguém que perdeu o olfato e o paladar e vai trabalhar na fantástica fábrica de chocolate.

– Aproveitá-las e valorizá-las, sem buscar privar os outros das mesmas. Poderiam fazê-lo sem medo e nem culpa, e sem buscar a dor alheia… e escolhem fazer o mal. Escolhem impor infelicidade a si e aos outros. Ou só conseguem ser felizes através do suplício de outras pessoas. Eu… não tenho nada do que eles têm. Mato várias pessoas a cada ano… pessoas ruins, ou desesperadas demais para terem chance de viver uma vida decente… ou mesmo pessoas boas, se estou com muita fome e não há mais nada disponível. Mas não me foi dada opção.

Olhou para ela com olhos duros.

-Seu marido, no entanto, teve todas as chances de ser um sujeito decente… e jogou todas fora com desprezo.

Ela quis mudar de assunto.

-Como isso acontece? Quer dizer… de onde vem essa…

-Doença?

-Eu ia dizer condição.

-Mas pensou doença. Tudo bem, eu conto, mesmo sabendo que você não está realmente querendo ouvir. Está tentando ganhar tempo. E vai conseguir. Está mais calma, mas ainda sente medo e repulsa por mim.

Prosseguiu:

-Se você me perguntou a origem desta maldição, eu vou ter que ser honesto… não sei. A origem de criaturas como eu é antiga. Pesquisei o que há pra ver em bibliotecas, e os fatos se contradizem, mas todos os relatos são antigos. Vêm de lendas de muitas origens diferentes e eu… eu não sei de onde veio o primeiro, nem sei se a forma pela qual eu me tornei isto é a única possível.

-Mas outro… outro como você… não sabe?

Ele sorriu diante da ingenuidade dela.

-Outro? O que a leva a pensar que, nestes oito anos, algum dia eu vi outro como eu? Eu tenho vivido sozinho desde que isso me aconteceu… e a pessoa que fez isso comigo está morta. Ou… destruída.

Deu um longo suspiro.

-Não sei quem ela era. Mas as circunstâncias em que a encontrei tem a ver com você… li a notícia de seu casamento no jornal e fui até a igreja em que ele se realizou, para assistir do outro lado da rua. Achei, a princípio, que iria me ajudar a aceitar a coisa. A lidar com a realidade do fato. E que, a partir daquilo, eu poderia continuar vivendo como se eu nunca tivesse te conhecido. Então, o que aconteceu? Tudo ficou ainda pior. Junto com a frustração, ver aquele homem contra o qual, em se tratando de conquistas amorosas, eu jamais teria a menor chance, fez surgir em mim outros sentimentos ainda piores… raiva, inveja, revolta… e um profundo senso de humilhação e orgulho ferido. Porque eu te adorava. Você era a única deusa de meu panteão particular… e ele te levava embora com indiferença. Dava pra ver que aquele homem, o que você escolhera, não dava a você metade da importância que você dava a ele, e nem um décimo da importância que eu dava a você. Isso era o que mais doía! Você era o brinquedinho adolescente dele… ele não te amava e não queria a tua felicidade… mas iria matar quem tentasse tirá-la dele, porque homens assim não suportam ser contrariados e não admitem que alguém se meta com as suas propriedades.

-Você não tinha como saber de tudo isso…

-É mentira, por acaso?

Ela calou-se.

-Eu sabia. São coisas que se sabe, quando a gente ama e não é correspondido. São coisas que se sabe e que se têm certeza, tão certo quando o conhecimento da diferença da noite e do dia. O mistério da compreensão. Eu sabia. E eu sabia que não tinha chance.

-Por que você nunca tentou…

-Se aproximar de você? Acredite em mim, eu tentaria. Eu era tímido como uma raposa européia… e tentaria mesmo assim, com o coração aos pulos… se acreditasse que tinha alguma chance. Mas eu e você não ocupávamos o mesmo nível na hieraraquia dos relacionamentos. Eu estava muito, muito abaixo. Os homens em geral só têm acesso às mulheres de seu nível pra baixo.

-Você está generalizando, e não teria como saber se não tentasse.

-Honestamente, Lúcia: Eu tinha alguma chance? Você trocaria o bonitão mais velho que fazia todas as suas amigas se morderem de inveja por alguém da mesma idade que você e sem nenum atrativo especial? Pense em mim, naquela época, e nele. Você trocaria?

-Eu… eu não me lembro de você.

-Isso encerra a questão.

Ela calou-se. Não havia cobrança e nem acusação na voz dele. Tratava-se apenas de estabelecer um fato. A partir daquele fato, talvez ela pudesse compreender.

-Então, depois da cerimônia terminar e eu, do outro lado da rua, assistir à partida de vocês para a lua-de-mel no carrão dele, decidi que não valia mais nada viver. Não me entenda mal. Não estou te culpando por nada. Foi escolha minha e não acho que você tivesse ou tenha hoje alguma obrigação comigo. Não senti raiva de você… de sua escolha, sim, mas não de você. Apenas achei que viver seria insuportável dali para a diante.

Ela estava atenta. A expectativa do fim da história já surgira nela. Passara de medrosa a levemente interessada.

-Meu pai guardava um revólver carregado. Eu tomei ele da gaveta no dia seguinte e vim para cá, sem contar pra ninguém. Para esta casa, que era uma ruína na época, na qual eu nunca tivera coragem de entrar quando criança. Escolhi este lugar porque era um no qual eu sabia que ninguém me procuraria… então eu tirei a arma do bolso, engatilhei-a e coloquei-a sobre um caixote quebrado. Não atirei naquele momento. Não sei porque. Estava decidido a morrer, não tenha dúvida, mas por alguma razão, decidi esperar a noite. Talvez fosse romantismo, mas talvez eu soubesse, intuitivamente, que deveria esperar alguma coisa grande acontecer. Talvez não uma coisa boa, mas uma coisa grande. E aconteceu. O Sol caminhou e as sombras se moveram. O dia passou, eu não comi e nem bebi nada. Chegou a noite e eu ouvi ruídos na casa. Estivera contemplando o revólver na última meia-hora. Havia acabado de apontá-lo para a cabeça… quando os ruídos começaram.

-E o que eram? – ela acabara de passar para ansiosa. Levemente interessada, para ansiosa.

-Uma luta. Uma jovem. Uma menina da nossa idade, gritava, gemia e implorava. Havia uma voz áspera de homem também. Que às vezes xingava e às vezes dava gargalhadas. Havia barulho de trastes rolando pelo chão e som de bofetadas. Vinham do andar de baixo.

-E você?

-Desci… cauteloso e curioso. Certo de que veria uma cena revoltante. E, de fato, uma jovem de longos cabelos negros, bonita e triste como a vida, estava deitada de costas no chão, usando um longo e recatado vestido, que agora estava sendo rasgado sem piedade pela mão esquerda do homem. O homem era um quarentão bêbado, fedendo a cigarro e falta de banho, que estava debruçados sobre ela, prendendo contra o chão seus dois pulsos só com a mão direita. Ela olhou para mim com um olhar de súplica. Aquele corpo era fantástico, sabe? Eu sei que deve ser sadismo, mas ver aquela pele branca se revelar sob os rasgos do vestido e as formas voluptuosas que ela tinha, junto com aquele rosto inocente, meigo e desesperado, me fez ter uma ereção na mesma hora… mas então olhei para o rosto nojento do homem, com a língua de fora e um sorriso de hiena, já levando a mão ao zíper da calça. Ele nem notara minha chegada, tão concentrado estava na barbaridade que estava prestes a cometer… e eu o odiei. Odiei cada homem prepotente e sádico que tinha o que eu jamais teria… e jamais terei.

Ela curvou-se para a frente. Ele se ergueu, vitorioso. Ela fora pega. Ele a cativara. Prosseguiu, então:

-Corri até ele e desferi um chute no seu rosto que o fez sair de cima dela e tomei distância, escondendo o revólver atrás do corpo. Queria dar a mim mesmo um motivo, por isso não o ameacei. Era um resquiciozinho hipócrita de ética e moral. Ele se levantou bufando e correu em minha direção, armado com um gargalo de garrafa apanhado às pressas no chão. Apontei a arma. Antes de disparar, não vi nenhum remorso em seus olhos… só arrependimento e medo. Um arrependimento egoísta, pelo fato de ter dado errado, apenas, e um medo das conseqüências, sem nem um resquício de culpa. Disparei uma, duas, três vezes. Acho que pelo menos uma bala já o atingira neste estágio, pois ele escorregou e caiu de costas no chão. Dei dois passos pra frente, ele estava coberto de sangue da garganta até o peito… e esvaziei o revólver naquele farrapo humano caído. Quando terminei, ele parecia apenas um boneco de carne, muito parecido com um ser humano, mas não era mais meu semelhante. Neste momento, uma voz soou atrás de mim: “Que heróico! Que nobre!”, mas eram palavras ditas num tom de desprezo e irritação. E mal me dera conta de que, no meio da briga, a garota sumira. Quando ele se levantara e tentara me atingir, devia ter tropeçado nela, mas nós dois agíramos como se ela não existisse. E, de fato, ela estava agora atrás de mim, se aproximando a passos lentos, de uma distância que eu não a vira cobrir. Tinha o vestido esfarrapado que ia terminando de rasgar e expondo o corpo. Os olhos estavam carregados de fúria… “Vai mentir pra si mesmo, salvador do dia? Ou vai admitir que quer a mesma coisa que ele queria? Vem pegar, então! Juro que não vou correr!”. Eu caminhei pra ela, como se estivesse… hipnotizado. Mas, mesmo assim, era verdade. Eu queria muito agarrar aquelas carnes bonitas e generosas. Ela era bem isso: voluptuosa. Não era gorda ou grandalhona, mas tinha seios grandes e naturais, quadris que tornavam impossível andar sem rebolar e coxas grossas e musculosas… lábios bem mais vermelhos que o normal, sem uso de maquiagem nenhuma. Quando abracei ela e comecei a beijá-la ansioso, descobri que ela era fria. Gelada como alguém depois de uma chuva, e era um verão bem quente aquele. No entanto, foi o mais perto que eu cheguei de fazer amor com uma mulher. E aqueles lábios vermelhos se abriram num esgar de ódio e revelaram… bem… você sabe o quê. Antes de enterrar as presas em mim, ela disse: “Eu queria uma coisa dele… e iria conseguir. E preferia mil vezes tomar dele do que de ti.” , disse ela, me condenando por eu ter interferido, afinal, eu acabara de estragar a sua comida, que devia ter lhe dado algum trabalho atrair, tentei escapar, mas ela me dominava completamente, com a força de um lutador de wrestling, jogou-me no chão e disse, “Mas eu não posso continuar com fome. Você não merecia… mas eu também não”.

Silêncio.

-E então? – perguntou Lúcia, sobressaltada com o final súbito da narrativa.

-Então eu morri. Ela roubou toda a vida que havia em mim. No entanto, mesmo morto, eu voltei.

-Como… como foi?

-A princípio, depois que o prazer bizarro de ter aquela boca carnuda rasgando minha garganta passou, depois que a dor, a náusea e a tontura da hemorragia passaram, depois que tudo esfriou e se acalmou, e eu não vi, nem ouvi, nem senti mais nada, foi como se eu mergulhasse num lago escuro e profundo, caindo de costas para um abismo sem fim. Sem luz. Sem dor. Sem remorso. Sem mágoa. Sem medo. Descanso. Apenas isso. Sono e paz. Talvez houvesse algo mais além, mas tudo o que eu sentia era… sono e paz.

-Isso é a morte?

-Não sei. Pode ter sido só delírio. Ou parte da morte… se eu tivesse visto tudo, acho que não me deixariam voltar.

-Quem não deixaria?

Ele deu de ombros. Não sabia. Aquilo parecia ser só mais uma certeza intuitiva.

-Só sei que o sono durou pouco, e comecei a ter pesadelos ainda antes de acordar. Pesadelos de verdade, confusos, surreais, sem sentido e apavorantes… com uma única diferença… eram bem mais intensos que o normal. E… eu não quero entrar em detalhes… mas dava pra ver em cada um deles tudo o que tinha dado errado em minha vida, ou tudo o que eu amava e tinha perdido. E, no maior de todos, estava você, partindo para uma floresta escura, num carrão barulhento, presa por uma coleira ao fundo do carro e a cabeça debruçada sobre o colo de Antônio Donatto, chorando e sendo obrigada a fazer você sabe o que, enquanto ele dirigia com uma mão e com a outra te dava chibatadas na bunda.

-Que horror! – a expressão fora de nojo e raiva. E ofensa. Como ele se atrevia a dizer aquelas coisas? Por um momento, ele pareceu apenas um moleque atrevido e ela esqueceu que deveria ter medo dele.

-Posso garantir, Lúcia, que este sonho foi extremamente desagradável para mim. Não me causou prazer nenhum ver aquilo. Aliás, foi tão, mas tão desagradável que foi o que me acordou, como muitos pesadelos são capazes de fazer. Um pesadelo sobrenatural pode acordar a gente do mais sobrenatural dos sonos.

Depois de dizer aquilo, ele se sentou novamente.

-Acordei sobre uma mesa gelada, sentindo dor, frio e fome. Mas a dor foi só por um instante, no local onde ela me cravara os dentes… e então sumiu. No mesmo instante em que sumiu, o homem que havia diante de mim arregalou os olhos de exclamação… e eu vi a máscara que ele usava se mexer com o ar que ele puxava para gritar… mas eu não lhe dei tempo nenhum. Acho que nem pensei no que estava fazendo. No momento seguinte, antes de receber o primeiro golpe de bisturi, eu estava debruçado e nu sobre o legista, tomando dele o que a belíssima morena tomara de mim. Me levantei aliviado… e horrorizado também. A gente assiste muitos filmes desse tipo de coisa. Acho que fica tão ligado com a fantasia que é ainda mais impossível acreditar. Insensibiliza… no entanto, o cheiro de formol, o silêncio sepulcral do necrotério e o fato de que eu fora recolhido como indigente por engano eram inegáveis… assim como o cadáver seco que havia a minha frente. Eu estava sozinho, sabia disso também… não sei como, mas sabia. Por puro instinto, vesti as roupas do cadáver e joguei-o no forno de cremação… para partes velhas e inaproveitáveis. Não era um forno funerário normal, de forma que eu tive que despedaçá-lo antes e… quer mais vinho?

Ela estendeu o cálice. Ele serviu-a, solícito, e prosseguiu.

-O vigia, salas e salas depois, me tomou por um estudante qualquer. Eu levava a maleta comigo. Caminhei por algum tempo e, quando a aurora se aproximava, senti um medo terrível e impossível de explicar… corri como um louco por refúgio… no meio da corrida, eu já não tinha mais o mesmo corpo… me transformara em…

Parou por um instante.

-Você saberá logo. O fato é que cheguei aqui, no local de minha “morte”… e dormi aqui o mais profundo dos sonhos. Com o tempo descobri o que eu era… não podia ver minha própria sombra… posso ver minha imagem em um espelho, mas ninguém mais pode além de mim, o que levou várias pessoas a se apavorarem, pois eu não tive o cuidado necessário… em vão procurei a mulher que fizera aquilo, apenas para ouvir falar através de boatos e rumores sobre uma misteriosa garota que aparecia no cemitério em noites de chuva forte… e entrava num ônibus, que levava para o inferno quem a acompanhasse. Muita coisa devia ser fantasia, mas não sei quanto… quando finalmente deixei de agir por instinto e comecei a pensar novamente, compreendendo racionalmente o que me acontecera, eu decidi investigar… e, juntando lendas e relatos, alguns deles colhidos de bocas de vítimas assustadas com a proximidade da morte nos meus dentes, descobri que ela morrera. Ao que parecia, uma de suas vítimas dera sorte e, antes de morrer, enfiara uma lasca de madeira em seu coração. Comecei a tomar cuidado com estacas, então… isto foi há cinco anos.

-E nunca viu mais nenhum?

-Ouvi coisas que talvez queiram dizer que haja mais um nesta cidade… mas não posso saber nem nunca o vi… acho que é só um boato. Além disso, eu vou viver por muito tempo… creio que, inevitavelmente, vou morrer, todos morrem, tudo morre, só muda o como. Mas antes disso, se houver mais algum no mundo, há muito tempo para nos cruzarmos. Por ora… a vida que eu levo é solitária… não há nenhuma Irmandade Secreta dos Vampiros que eu conheça. Já cheguei a pensar que posso ser o último… o sobrevivente de uma lenda cada vez mais desacreditada e banalizada. Esta existência, meu amor, é mais terrível por este motivo… solidão. Não há glamour e sedução, como alguns gostam de imaginar. Uma pessoa sem sombra e sem reflexo estragaria qualquer festa… não tenho com quem conversar, exceto por alguns bate-papos ocasionais, a maioria terminando com a morte do interlocutor… como costumo escolher gente da pior espécie, são conversas horríveis. E, sim, há certos limites que me são impostos. Nunca me deixei apanhar pelo Sol, e não sei se ele de fato me transformaria em cinzas, mas nutro verdadeiro horror por ele. Cada madrugada eu preciso correr de volta para cá, para este lugar onde eu fui criado, e me refugiar num canto escuro… para passar o tempo, com dinheiro de vítimas e coisas roubadas tornei ele mais confortável. Quando posso, quando a fome não exige ação, passo muito tempo lendo ou ouvindo música. Tudo o que tem aqui funciona a bateria, porque não há corrente elétrica…

Só então ela percebeu que o que havia nos lustres eram velas. Não apenas a sala do funeral, como tudo ali era iluminado por velas posicionadas em lampiões, lustres ou candelabros. E estavam todas acesas. Provavelmente uma cortesia destinada a ela… já que ele provavelmente podia ver no escuro.

-E conseguir estas coisas não é tão fácil, já que, mesmo que eu possa me esgueirar por qualquer canto… não posso entrar em locais sagrados.

-Como Igrejas?

-Como lares, como corpos alheios tratados com auto-estima, como escolas onde um professor dedicado trabalha, como o hospital onde há um médico que não seja cínico, como um campo onde um casal de adolescentes se sente seguro para amar… tudo aquilo que alguém individualmente ou como parte de um grupo, considera seu templo, seu local de refúgio, me é proibido invadir. Igrejas também, mas somente as poucas que têm ainda sacerdotes sinceros. Eu preciso ser arrastado pra dentro, ou convidado, e, por isso, não entrei em sua casa.

-Eu odeio a minha casa…

-Claro que odeia! Acha que eu estava falando de você? A vontade que me manteve fora foi a dele, pois ele considera sagrado tudo o que possui, e o símbolo da posse, na mente dele, é a casa confortável e bem-protegida que ele criou para enjaulá-la.

-Quer dizer que você não pode me fazer mal… só porque ele não quer? – perguntou, insultada, Lúcia.

-Eu não posso lhe fazer mal… porque eu a amo. Você é uma pessoa, e não pode ser convertida numa coisa… a menos que se submeta voluntariamente a isso. Mas meu amor faz de você o meu solo sagrado. Que eu não posso adentrar… sem um convite seu.

-Quando você ameaçou beber meu sangue…

-Eu blefei. Mas foi apenas para que você me escutasse até aqui.

-E… por quê?

-Porque apenas se passaram oito anos e eu comecei a me enfastiar da vida… a idéia de me matar, agora, me parece impossível, impensável, horrenda. E, no entanto, a minha vida está pior do que jamais esteve. A solidão que sinto não é apenas física… é espiritual. Não há criaturas iguais a mim. É como se eu fosse um estranho no ninho… um peixe fora d’água… uma coisa errada na paisagem, porque não tenho com quem me identificar. É como ser preto e branco num filme colorido. Não posso ter amigos, da mesma forma que você não pode estabelecer ligação emocional com pedaços de bife. Sei que não vou me matar. Acho que é outro limite de minha existência, meu fim virá por outras mãos, necessariamente, como nas histórias mais antigas. Mas antes que ele chegue… eu tenho medo de ficar louco.

Ela suspendeu a respiração.

-Eu comecei a escutar vozes suaves… primeiro em minha cabeça, e depois nas sombras atrás de mim. Às vezes elas falam quando estou matando alguém. Elas me instigam a fazer coisas. Coisas ruins. Eu sei que mesmo que eu declare guerra à humanidade inteira e passe uma eternidade causando-lhe mal eu não vou fazer nem uma mínima parte do que ela já faz a si própria… mas eu não quero me ver ficando louco, perdendo completamente o juízo, uma morte espiritual mil vezes pior que a morte física. Eu não tenho remorso e nem culpa com o que eu faço, porque preciso fazer, mas… se eu começar a fazer por prazer, e mais do que o necessário, aí vai ser bem diferente. Não acho que eu vou me importar quando e se isso acontecer… mas eu me importo agora, e quero evitar isso.

Ela se levantou, devagar e trêmula, novamente.

-Eu acho que, se eu me livrar da solidão… se houver outro como eu… isso pode ser evitado.

Ela tremeu mais, e tentou falar em outra coisa:

-E todas as outras pessoas… elas deveriam ter virado… vamp… vampir…

-É difícil de dizer essa palavra numa conversa séria sobre o assunto – ele sorriu – elas não levantaram, nenhuma de minhas vítimas. Sabe por quê? Por uma das duas seguintes razões: ou simplesmente não quiseram, ou então eu opus minha vontade às que eu achava que queriam. Acho que, para isso acontecer, é necessário que haja um motivo forte que prenda a pessoa aqui, neste mundo, com pelo menos parte da mente e da alma que tinha antes voltada para isso… ou então que seja chamada por quem a vitimou, ou que, pelo menos, ela não se oponha, caso a pessoa queira voltar. Acho que foi isso que aconteceu comigo… eu tinha uma grande paixão aqui… fui mordido por uma vampira e abandonado sem que ela me desse qualquer importância ou estivesse pensando se eu voltaria ou não… o que me fez voltar foi…

-Eu… quero ir pra casa… por favor!

-Eu não posso te impedir, meu amor… mas lembre-se de que o verdadeiro monstro em sua vida não sou eu. Aquele homem monstruoso tirou de você o que você tinha de mais precioso… eu me lembro de como você era impetuosa, inteligente, cheia de fogo… eu não posso te restituir o fogo que ele roubou. Mas posso lhe dar algo novo… e se houve aí alguma coisa escondida da garota que eu amei quando vivi, talvez esse algo desperte. Você pode ir para a jaula que chama de casa… e sabe o que vai encontrar lá. Solidão, tristeza, humilhação e… velhice. Uma velhice amarga, carregada de arrependimento. E, então, quando você olhar para as jovens dos tempos vindouros, você as invejará e pode chegar a odiá-las, pelo que elas ainda têm e você desperdiçou ao lado da pessoa errada. Quer ser isso? Uma velha rancorosa e frustrada? Ou tem a fantasia sinistra de que as coisas vão melhorar por mágica?

Ela não disse nada. Apenas derramou silenciosas lágrimas e caminhou para a saída. Ele não tentou detê-la. Observou-a pelas costas. Ela caminhou sozinha até a entrada, passou pelo caixão que olhou com indiferença e viu que a porta estava aberta e o portão, lá fora, também. E todo o mundo exterior pareceu uma ilusão e um pesadelo.

Parou junto a porta. As lágrimas teimavam em continuar saindo. Era uma decisão difícil… era escolher entre o péssimo e o mortalmente horrível.

No entanto… o péssimo tinha suas possibilidades. E, se nada mais houvesse a esperar ou desejar da vida, ela sabia que, conforme ele dissera, ela apenas morreria.

Virou-se para a entrada e perguntou, para as sombras da casa:

-Você me ama?

A resposta foi rápida. Ela se viu imersa em névoa e desfalecendo, antes que pudesse dizer ou pensar outra coisa, enquanto brilhavam, à frente dela, duas chamas verdes. A dor no pescoço foi rápida e, em seguida, veio um prazer estranho, intenso e assustador, misturado com um medo tão horrível que só não era pior que uma única experiência em toda a sua vida.

Sua noite de núpcias.

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Texto de: Luiz Hasse
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