Por Catarina – Capitulo 1

 

Eram quase dez horas da manhã, havia combinado um pouco depois desse horário em um café próximo ao porto. Gostava desse lugar, um ar sofisticado com vista para o lago arco íris. Casaria aqui se pudesse, mas Julian preferiu uma cerimônia no campo. Caminhava a passos curtos, relutava em chegar ao local combinado. Era um misto de emoção e ao mesmo tempo dúvida. Uma voz gritava dentro de mim falando que talvez não fosse a decisão certa casar me nesse momento. Claro que isso, poderia ser apenas uma insegurança boba de mulher, e passaria logo. Mas, mesmo assim uma luz vermelha ligava em minha cabeça, e a tal voz dizia:

– “Catarina pula fora enquanto há tempo. “

Idiotice da minha cabeça, tudo coisa de mulher insegura, antes do casamento.

Iria encontrar uma mulher chamada Beatriz, uma profissional em escolher vestidos de noiva e organizar tudo para o dia. Nunca pensei que seria tão rápido. Conheci Julian em uma feira ecológica a dois anos atrás e já estamos casando. Não tenho dúvidas das qualidades de Julian. Ele é o cara que toda mulher gostaria de ter ao seu lado.

Sempre sonhei muito com esse dia, achava que teria que ser tudo perfeito como um conto de fadas. Fazia mil planos em minha cabeça, como seria nossa casa? Se teríamos um casal de filhos? Cachorro ou gato? Dúvidas era o que mais tinha.

Eu sabia que minha família estava muito feliz com esse casamento. Afinal eu já ia completar trinta anos, e ainda não havia me casado. Eu era de uma família de três irmãs. E a última que iria para o altar. Minhas outras duas irmãs já haviam casado. Eu sofria aquela pressão da família de ter que casar logo ou fica para titia.

Achava um absurdo isso de a mulher ter idade para casar. Claro que eu não externava essa opinião para meus pais. Meu pai era muito tradicional, acho que sofreria um ataque se falasse para ele que não me casaria mais. Mas de certa forma as coisas se ajeitaram. Falta apenas uma semana para o casamento, meu futuro marido é uma cara legal, eu estou feliz com tudo isso. Pelo menos eu acho?

Chego no café do porto. Prontamente um senhor auto, moreno, com vestes elegante, dirigi se até mim e fala:

– Senhorita Catarina?

– Sim sou eu. – Respondi ao senhor com cara gentil.

– A senhorita Beatriz, nos informou que viria. Reservamos uma mesa especial. Ela ainda pediu para avisar lhe que iria atrasar um pouco, mas já adiantou algumas revistas na mesa. A senhorita gostaria de beber algo?

– Sim, uma chá preto por favor. – Respondi ao senhor.

Observei que uma das mesas com visão total para porto, estava montada de forma diferente. Havia nela algumas revistas e um cartão com desenho de um casal de noivos. Sentei me na cadeira virada para o porto, peguei o cartão nas mãos e o abri lentamente. Nele estava escrito:

“Senhorita Catarina.  Perdoe me.  Mas terei que atrasar um pouco nosso encontro.  Deixei algumas revistas em cima da mesa com modelos espetaculares de vestidos de noiva.  Dentro de uma hora estarei de volta. O café com chantili é fantástico. Somente uma sugestão. Atenciosamente Beatriz.”

Voltei minha atenção para as revistas. Haviam três em cima da mesa. Abri uma delas. Realmente os vestidos eram fantásticos. Cada modelo da revista, fazia imaginar me como estaria no dia do casamento. Parecia um sonho, eu escolhendo meu vestido de noiva para o grande dia. Poderia ser uma grande ironia, pensava com um leve sorriso no rosto. Logo chegou meu chá. O senhor gentil com uma bandeja na mão contendo uma xicara e um bule de porcelana, colocou em cima de minha mesa, e com todo cuidado serviu o chá. Ao retirar se, indagou me:

– Algo mais senhorita?

– Não obrigada. – Respondi com cortesia.

Comecei a tomar o chá, que por sinal estava ótimo. Olhava com toda calma a cada foto de vestido que folhava a revista. Quanto mais olhava a revista, mais próxima me sentia do casamento. Alguns pensamentos bobos, vinham em minha cabeça. Como se tivesse embarcando em uma viagem para marte sem volta. Pulando em um buraco negro sem paraquedas. Mas o que adiantaria de paraquedas em um buraco negro. Comecei a rir sozinha. Meu Deus! Quanta bobagem pensa uma mulher antes do casamento.

Um forte calor começou a subir em minha face. Quem sabe o chá seria o culpado, ou talvez meus pensamentos doidos. Resolvi levantar de minha cadeira e fui até o alambrado que dava vista para todo mar que banhava aquele lindo porto. Comecei a olhar longe, um instinto observador parecia que havia surgido em mim. Coisas simples como o voar dos pássaros, e o vento em minha face desarrumando meus cabelos parecia algo fantástico. Será que sentiria a mesma sensação se estivesse prestes a ser enforcada ou eletrocutada? Nossa como estou pensando bobagens hoje. Dessa vez dei uma sonora gargalhada, ao mesmo tempo em que um navio atravessava ao porto tocando uma buzina extremamente alta, fazendo eu tomar um susto quase que pulando subitamente. Resolvi voltar para minha mesa. Afinal Beatriz estaria quase chegando. Antes de chegar, observei um homem sentado em outra mesa, talvez uns trinta anos, vestido com um terno roxo horroroso, moreno claro com feições fortes devorando literalmente uma rosa que se encontrava em suas mãos. Era a coisa mais estranha que havia visto nesses últimos dias. Ele pegava as pétalas molhava no café e comia uma por uma como se fosse um biscoito. Não consegui parar de olhar para aquilo. Foi quando ele percebeu que eu estava o observando. Seu olhar que tinha a total atenção na rosa, fixou se em meus olhos. Foi como se eu tivesse levado um choque com tamanha profundidade daquele olhar. Por alguns segundos fitei dentro dos seu olhos, mas logo desviei o olhar e voltei atenção para revista que acabara de pegar sobre a mesa. Olhando as fotos dos vestidos pensava comigo mesmo, que cara estranho. Já começava a ficar entediada, Beatriz já passara do tempo prometido do atraso. Quando ergui a cabeça novamente em direção ao maluco das rosas, ele se encontrava parado em minha frente olhando me fixamente. Fazendo um frio subir em minha espinha. Fiquei imóvel, sem saber o que falar. Foi quando ele ergueu a mão direita onde possuía uma rosa quase sem pétalas e ofereceu para mim.

– Você aceita? – Foi o que ele disse.

 

Por Nicolas – Capitulo 2

 

A exatos trinta e três minutos o amor da minha vida me deixou. Pelo menos eu achava que era o amor da minha vida. Quando acordei hoje pela manhã, tinha a certeza que seria um lindo dia. Na verdade é um lindo dia. O motivo por eu estar triste, não tem força suficiente para estragar esse dia ensolarado de uma brisa agradável. Tinha em minhas mãos o relógio de ouro que meu avó havia me deixado de herança. Não sei bem se era realmente para mim. Cresci em um orfanato. Quando tinha treze anos apareceu um senhor falando que era meu avó. Me deu esse relógio de ouro e nunca mais apareceu.

É estranho que o único laço familiar que tive em minha vida foi uma conversa de meia hora com meu suposto avó. Ele me presenteou com um relógio velho, e foi embora. Não lembro muito do teor de nossa conversa, mas uma frase não saia de minha cabeça. Antes de ir embora ele falou:

“Filho nunca olhe para atrás.”

Nunca entendi bem o significado daquela frase, mas sabia que de certa forma ele estava certo.

Havia acordado cedo hoje. A expectativa era grande. Combinara na noite anterior em encontrar minha futura mulher nesse porto.

Eu e Jessica, já estávamos juntos a quase sete anos. Meu plano era pedir lhe em casamento exatamente hoje nessa manhã linda e quente de primavera. Embora ainda não fosse verão, a primavera fazia dias espetaculares. Achava que esse café com vista para o porto seria o cenário perfeito para isso. O contraste do sol batendo em nossos rostos com a brisa do mar era algo mágico.

Do momento que Jessica chegou, sentou se na mesa, e acabou nosso relacionamento de quase sete anos, foram apenas trinta e três minutos. Tempo esse que provavelmente nos separaria para sempre. E meio difícil acreditar que uma pessoa que você conviveu por tanto tempo resumiu um relacionamento em uma simples conversa de pouco mais de meia hora. Antes de Jessica chegar, contava os minutos para vê-la.       Talvez por isso, e pelo fato de ter o presente que ganhei de meu avó em minhas mãos, resolvi marcar o tempo de nossa conversa antes dela chegar. Já havia me preparado. Pedi o café com canela que ela adorava. Comprei um buque de flores vermelhas. Combinara com o garçom para trazer junto com as alianças que também havia comprado já fazia algum tempo. Até uns balões daqueles que fogem estavam estrategicamente amarrados em nossas cadeiras. Queria fazer uma grande surpresa.  Quando ela chegou linda como de costume, faltava poucos detalhes para o nosso; “Felizes para Sempre.”

Sempre pensei que talvez não merecesse ela. Jessica estava se formando em medicina naquele ano. Eu apenas um aspirante a escritor que fazia bicos de palhaço em festas infantis para sobreviver. Pelo menos havia conhecido ela dessa forma.   Estava animando uma feira na cidade e Jessica passou por lá. Eu podia ser um palhaço, mas com alguns truques de mágica e uma flor conquistei o coração da mocinha. Claro que o prazo dessa conquista havia acabado nessa manhã linda de primavera. Até os melhores mágicos falham. Dessa vez o coelho não havia saído da cartola. Lembro apenas dás primeiras palavras de Jessica:

– Nicolas, infelizmente a gente não pode mais ficar juntos.

Depois disso a sensação era como se ela estivesse falando, e apenas um eco em meu ouvido daqueles quando você viaja e desce a serra. Ela falou por trinta e três minutos. Levantou se da cadeira, e saiu com um leve balançar de cabeça. Eu permaneci imóvel por algum tempo. Voltei ao mundo, quando o garçom trouxe até minha mesa o buque de flores, e a aliança que havia comprado para Jessica.

Com uma voz gentil, perguntou-me:

– Algo mais cavalheiro?

Pedi uma dose de uísque. Sabia que eles não serviam. Mas era o que eu precisava naquele momento. O garçom apenas me olhou, e com um leve sorriso saiu em direção ao café. Não sabia exatamente a sensação que sentia naquele momento. Encontrava me sentado sozinho em uma mesa de café, com um buque de flores, um par de alianças, e alguns balões. Era irônico tudo aquilo. O universo estava gozando de minha cara. Quem era o palhaço dessa vez?

Observava fixamente o relógio de ouro em minhas mãos. Era para ter dado sorte. Acho que meu suposto avó era pé frio. Dei um leve sorriso. Que piada idiota até para um palhaço. Peguei uma das rosas do buque, observei ela por um momento, comecei arrancar pétala por pétala. Molhei no café com canela que havia pedido para Jessica, e comecei a come-las. Uma por uma. Será que já estava com algum sintoma de loucura? Dei de ombros e continuei saboreando as rosas com café. Quando estava prestes a comer a segunda rosa, percebi que uma mulher sentada em uma mesa a alguns metros de mim, estava me observando. Ela era linda, com um vestido vermelho, sua pele levemente bronzeada com cabelos que não chegavam a ser loiros. Quando batia o sol neles, parecia que seu rosto brilhava em contraste com seu olhos azuis. Olhei fixamente em seus olhos. Ela desviou o olhar, baixando a cabeça na hora, voltando sua atenção para uma revista em sua mesa. Não sei se posso acreditar em amor à primeira vista, mas nunca havia trocado um olhar tão intenso com uma mulher em poucos segundos. Acabara de tomar um pé na bunda, e já estava flertando com outra mulher. Devo estar ficando doido mesmo. Mas uma coisa eu tinha certeza. Seu olhar em direção ao meu, era muito mais do que reprovação por estar comendo as rosas.

Sorrisos brotavam em minha face. Resolvi largar as rosas. Fiquei observando alguns minutos aquela mulher que mais parecia ser uma deusa sentada em um altar. De súbito aconteceu algo que jamais poderia imaginar. Meu corpo como se tivesse vontade própria, levantou se da cadeira com uma determinação incrível. Naquele momento, parecia que estava sendo controlado. Talvez eu teria virado um robô com chip implantado. Meu corpo não me obedecia. Comecei a andar vagarosamente em direção a mesa daquela mulher. Não sabia o que pensar, e nem o que falar. Mas queria estar lá, o mais perto possível dela. Quando cheguei bem próximo de sua mesa, ela levantou a cabeça levemente em minha direção. Uma vez mais, nossos olhares se fixaram por alguns segundos. Foi quando que quase involuntariamente ergui minha mão direita com a rosa faltando várias pétalas e a ofereci para ela:

– Você aceita?

 

Nicolas e Catarina – Capitulo 3

 

Não acreditava no que acabara de acontecer. Nunca tivera coragem de fazer nada parecido antes. Estava diante de uma linda mulher, que nunca havia visto na vida, com uma cara de idiota, lhe oferecendo uma rosa despedaçada. O movimento da mão direita com a rosa em sua direção, foi a coisa mais involuntária que havia feito nos últimos tempos. Por alguns segundos olhei fixo em seus olhos. Até falar a coisa mais boba possível:

– Você aceita?

Aquelas palavras saíram de minha boca como se fosse um rajada de metralhadora. Não conseguia imaginar como um homem com meia rosa na mão, chega para uma bela mulher e lhe oferece. Que porcaria pensava comigo mesmo. Já estava quase voltando para minha mesa, quando ela respondeu:

– Não obrigada.

Somente isso ela falou, e retornou atenção para suas revistas. Achei justo, afinal que idiotice a minha. Estava quase retornando a minha mesa. Mas algo cochichou em meu ouvido dizendo que era ali que eu queria ficar. De súbito sentei me na cadeira, exatamente em frente a ela. O olhar dela fixou se novamente em meus olhos. Eu sentia que era um olhar de reprovação. Mas naquela altura já não me importava tanto com isso, só queria estar naquele local. Resolvi falar:

– Posso sentar aqui?

– Acho que não seria uma boa ideia, estou esperando alguém. – Foi sua resposta.

– Não preciso de muito tempo, gostaria de sua companhia por alguns minutos.

– Me desculpe moço, você está sendo inconveniente. Não quero sua companhia, e se não sair daqui agora terei que chamar o garçom.  – Falou ela já erguendo a mão em direção ao café.

– Não quero muito tempo, preciso de apenas trinta e três minutos com você.  Eu prometo que é só isso, depois vou embora. – Falei apoiando os dois braços na mesa, quase sussurrando próximo ao seu rosto um pouco antes da chegada de um garçom.

– Algum problema senhorita? – Indagou o garçom.

Achei que nossa conversa acabara ali. Fiquei olhando fixamente para seus lindos olhos azuis, esperando que mandasse o garçom retirar me daquele local.

– O senhor tem café com chantili?  – Ela pediu ao garçom.

– Sim claro senhorita, nosso café com chantili é o melhor de todo o porto. Dois? – Perguntou o garçom.

Nesse momento ela virou levemente a cabeça em minha direção, como se esperasse minha aprovação para pedir o café. Balancei a cabeça em afirmação. O garçom retirou se do local, olhando me com um sorrisinho no rosto.

– Isso é um garçom ou um cão de guarda? Falei dando um leve sorriso não correspondido.

– Seu tempo está passando. Quanto tempo você havia pedido mesmo?  – Falou ela voltando atenção a sua revista como não se importasse muito com minha presença.

Puxei meu velho relógio de ouro que havia ganhado de meu avô. Coloquei cuidadosamente em cima da mesa, e disse:

– São trinta e três minutos apenas que quero da sua vida.

Dessa vez ela largou a revista, olhou para o relógio e para mim com ar de extrema curiosidade.

– O que você pensa que vai me acrescentar em trinta e três minutos? Porque esse tempo em especifico? – Ela indagou olhando me com aqueles olhos azuis que poderiam derreter uma geleira.

– Na verdade eu não tenho a pretensão de lhe acrescentar nada. Eu quero imaginar em trinta e três minutos como seria a nossa história de amor.

A cada palavra que eu pronunciava, fazia sua face modificar. Naquele ponto, já não sabia mais se era de reprovação ou se estava gostando daquela conversa.

– Você só pode ser louco né?  Vem até minha mesa, com uma rosa toda despedaçada, que você mesmo comeu, e que saber como seria um romance entre nós.  Eu sei que eles não vendem bebidas alcoólicas aqui, mas eu tenho quase certeza que o senhor está bêbado.  – Desabafou ela com um olhar mais feroz do que um predador quando vai abater sua presa.

– Eu sei que isso é loucura, mas como já havia lhe falado são apenas trinta e três minutos e vou embora, nunca mais irá me ver.

– Está bem Dom Juan. Você tem os seus trinta e três minutos a partir desse momento. – Falou ela com um tom de ironia, pegando o velho relógio de meu avó nas mãos como fosse marcar o tempo.

– Pode começar senhor trinta e três minutos, estou esperando.  Como seria nossa história de amor?

A cada palavra que saia de sua boca, parecia ampliar sua beleza. Porque nunca tive coragem em conhecer mulheres como ela. Passei sete anos de minha vida me iludindo com uma pessoa que nunca me olhou nos olhos com tamanha profundidade o quanto tive agora nesse exato momento.

– Tudo bem.  Vamos começar. Até porque o nosso romance, será mais curto que o de Romeo e Julieta. – Falei com um pouco de descontração na voz.

Ela permanecia firme com o relógio na mão me observando como se quisesse lançar uma bomba em cima mim e acabar com aquilo tudo de uma vez. Essa é a coisa mais louca que eu fiz em toda minha vida pensei comigo mesmo. Mas enfim não tenho como recuar agora, afinal depois que você pula do barco, não adianta ficar com medo dos tubarões. Uma voz lá no fundo em minha cabeça dizia:

“Vamos Nicolas, você nunca brilhou em sua vida, que seja agora o momento.”

Puxei todo o ar que tinha em meus pulmões. Daquele folego que você dá quando vai descer uma ladeira de bicicleta.  Enfim comecei a falar:

– Pois bem. Nosso romance, talvez teria começado na infância.  Você seria a garota dos meus sonhos, aquela que dividiria seu lanche comigo na hora do intervalo, pelo simples fato de eu não ter levado nada para comer.

Nesse momento dei um sorriso, e notei que levemente ela retribuiu alterando um pouco a feição de sua face séria.

– Claro que você não seria apenas a garota dos meus sonhos, e sim da maioria dos garotos a sua volta.  Minhas chances seriam poucas comparados aos outros garotos, mas mesmo assim não desistiria. Enfrentaria dragões e dinossauros para trazer a flor mais linda da floresta para você.  Seria minha fantasia de criança, meu sonho de adolescente e minha realidade de agora.

Nossos olhares foram tão profundos, notava que aos poucos o escudo que encontrava se entre nós, estava sendo derrubado. A sua mão que segurava o relógio de meu avó, lentamente pairava sobre a mesa. Eu sentia em suas feições que ela queria ouvir o resto da história, eu não poderia decepciona-la.

– Já que não temos muito tempo, vamos pular um pouco a infância e a adolescência. Não seríamos um casal perfeito.  Com certeza teríamos muitas diferenças, mas talvez essas que nos manteria unidos.  Eu gosto de gato e você de cachorro.  Eu amo a natureza e você o nosso apartamento.  Você teria que gostar de futebol, porque não gosto, prefiro jogar bolinha de papel na lixeira.  Não gosto de filmes de terror, mas assistiria todos ao seu lado.  Agora ambos adoraríamos praia, cerveja e hambúrguer, isso não abriria mão.

Por um momento ficamos nos olhando sérios, mas ambos caímos na gargalhada. Pela primeira vez desde que começamos nossa conversa senti que ela estava confortável com minha presença.

– Continua nossa romance. – Ela falou com uma voz descontraída.

– Eu acordaria nas manhãs de domingo, e faria waffles com cobertura de chocolate. Te levaria café na cama, e te acordaria com um beijo. Claro que teria que dividir o café com nosso cachorro Plutos, um enorme labrador que amaríamos como fosse nosso filho. Depois do café tomaríamos banho juntos, daqueles que esquecemos do mundo fazendo o banheiro virar uma sauna praticamente. Senti que ao falar isso, sua face ruboresceu, mesmo assim não encontrava mais reprovação nela.

– Depois do banho, iriamos passear com Plutos.  Ele ficaria extremamente agradecido e nos lamberia nossas faces demostrando todo seu amor. Iriamos ao parque de diversão comeríamos cachorro quente, pipoca e algodão doce.  Andaríamos na roda gigante até quase vomitarmos.  Depois nos cavalinhos.  Tiraríamos um retrato a moda antiga aqueles de papel.  E no final levaríamos um enorme urso de pelúcia para casa, que com certeza nosso cachorro acabaria com ele em um segundo.

Nesse momento senti que ela olhava me dê uma forma diferente, como se tivesse impressionada com tudo que acabara de falar. Com um sorriso nos lábios ela quebrou o silêncio:

– Depois disso iriamos para nossa casa, cortar nossa grama, assistir filmes de terror, jogar bolinhas de papel na lixeira.  Ao final da tarde comeríamos hambúrguer e tomaríamos cerveja assistindo futebol que eu adoro, com nosso cachorro lambendo as migalhas do tapete.  – Falou ela com uma grande gargalhada e uma expressão de estar se divertindo com tudo aquilo.

– Você e totalmente louco, eu nem sei o seu nome? – Falou ela ainda sorrindo.

– Nicolas. – Respondi com um olhar de puro encanto para ela.

– Muito bem Nicolas. E como acaba nosso romance?

– Eu pensei que poderíamos transar no final.

Mais uma vez ela sorriu e disse:

– Pensei que tínhamos feito isso pela manhã no chuveiro.

Ambos começamos a rir tão alto que chamamos atenção das pessoas que estavam no café.

– Me chamo Catarina. – Ela falou com um feição tão maravilhosa que poderia emoldurar em um quadro.

Por alguns segundos senti que nossos olhares poderiam ficar interligados para sempre.

– E agora Nicolas, o que faremos depois de todo esse nosso romance?

– Talvez voltamos a realidade. Acho que nosso tempo acabou.

Peguei o relógio que se encontrava próximo a uma de suas mãos. Levantei da cadeira em que estava sentado e disse:

– Exatos trinta e três minutos, cumprirei minha promessa em deixa lá em paz agora.

– Acha que histórias de amor duram apenas trinta e três minutos Nicolas?

– Talvez uma vida inteira, nunca será o suficiente para superar esses trinta e três minutos.

– Algum dia nos encontraremos novamente? – Ela perguntou.

Pensei comigo mesmo não quero estragar esse momento, e nem esse nosso pequeno romance imaginário. Peguei meu relógio, lhe dei um sorriso daqueles que se dá apenas quando se acha um tesouro de verdade, e sai sem falar uma palavra. Não queria perder a imagem de seu rosto em minha mente. As pessoas procuram muitas vezes o amor em momentos que desejam durar para sempre. Talvez o amor exista em pequenos momentos que são eternos enquanto estiverem em nossas mentes.

 

Por Catarina

 

Fiquei ali parada, olhando ele ir embora. Nunca imaginei que um cara tão estranho pudesse mexer tanto comigo em tão pouco tempo. Não tenho dúvida alguma que esses trinta e três minutos foram mais intensos do que a maioria das relações que tive no decorrer de toda minha vida. Sei que isso vai ficar em minha mente por muito tempo. Prefiro guardar isso como algo único, que nunca mais acontecera. Mas serei grata a Nicolas pelo resto de minha vida. Não importa a forma, o amor sempre valera a pena. Que seja por uma vida toda ou apenas por trinta e três minutos.

 

Texto de: Mauricio Prestes

Curta a Pulp Stories!