I

Por uns primeiros e felizes anos, Glória havia sido uma garota comum, de vida simples e pobre, porém feliz, até o dia em que forças militares muito maiores que as de seu insignificante povoado avançaram sobre todos por ali. Muitos dos soldados, talvez a maioria, sequer era humana. Eram aberrações, distorções profanas das crias naturais do mundo ou então emanações obscenas do mal e do podre, evocadas de abismos horrendos mais velhos que o mundo, que só surgem quando um deus profere um blasfêmia e só vêm ao mundo quando aqueles que tem o perigoso conhecimento e poder para tanto os evocam.

A única sobrevivente que conhecia do povado, Glória havia mudado. Submetida tormentos horrendos e provações físicas e espirituais inumanas, seu ser deixara de ser humano. Após libertar-se de seus captores, Glória deixara para sempre de ser uma mulher.

O prazer e a maior parte das dores do corpo e do espírito haviam deixado de existir nela, bem como o amor e a compaixão, ela se tornou livre das amarras do tempo, da morte e da fome. E buscou por anos e anos o responsável por aquela desgraça.

Um mago. Um dos grandes magos de outrora. Um homem poderoso e cruel chamado Arius. Um dos poucos que teria poder, ousadia e conhecimento para evocar tal horda de horrores e varrer o mundo com ela.

Mesmo com o conhecimento de uma mulher comum, Glória percebeu que sua transformação só poderia ser resultado de uma experiência mal planejada e mal executada de um mago para o qual ela havia sido mais uma cobaia. Mas a experiência dera certo e, agora, sem o conhecimento dele, ela buscaria sua vingança.

Livre dos limites de um corpo humano, mais rápida e forte, e menos sensível, ela estudou com grandes mestres de armas e a todos superou, como todos os bons aprendizes devem fazer. Alguns mestres menos sábios tentaram puni-la por isso, e não viveram para repetir este erro imoral e profunda descortesia com outro discípulo.

Homens brutos das florestas, que raramente haviam visto uma mulher tão bela, ainda que tão fria, ensinaram-na a caçar e se esconder, e os segredos das trilhas selvagens. Ela deitou-se com eles em retribuição quase com indiferença. Tudo o que aquela pele e carne poderiam sentir tanto de bom quanto de ruim fora roubado dela para sempre.

Outros sábios, pela oportunidade de conversar com ela apenas, lhe ensinaram a ler e a se portar como uma pessoa de estirpe mais nobre. O que restava de sua humildade foi finalmente arrancado.

Então ela partiu, seguindo os rastros do seu algoz. Vivera até então unicamente para a vingança, não havia outro objetivo que fosse digno de uma criatura como ela.

E agora a vingança estava feita.

E, como todo o resto em sua nova vida, fora executada sem nenhum prazer ou alegria especial. E isso a decepcionara.

Arius era um velho caquético, fazendo espetáculos ilusionistas numa taverna quando ela o encontrou. Uma sombra da Grande Sombra que fora ao passado e, ao invés de ser arrogante ou tentar se defender, apenas choramingara e implorara pela vida, falando sobre um objetivo maior e a importância de continuar seu trabalho.

Pouco entendendo, ela o matou. E sentiu-se pior depois.

Porque agora, não havia mais nada que desse uma razão à sua vida, se é que de vida tal condição merece o nome. E vagou a esmo movida apenas pelo esdrúxulo impulso que leva corpos sem vida a continuarem a se mover apenas porque nada os detém… e talvez, é justo dizer, também movida pelo desejo de que houvesse mais algum motivo para existir, e isso já seria alguma coisa.

Uma noite, busca após busca, ela chegou aos limites do mundo, que diziam ser cercado por uma névoa profunda e cinzenta, completamente impenetrável. E tal névoa tinha um nome e uma razão.

As Brumas do Esquecimento.

-Glória… – disse a voz.

Aquela que fora uma mulher sobressaltou-se. Mesmo ela não estava preparada para, no meio de um deserto tão árido e tão gelado que  sequer cactus e répteis abrigava, num dia de inverno monstruosamente frio, em pouca coisa diferente da noite que o precedia, quando ela ali chegara, ouvir uma voz humana chamá-la docemente além das paredes da neblina, onde tudo era desconhecido.

-Medo, Glória? Que bom! É delicioso sentir algo supreendente de novo, não é?

Glória temeu reconhecer a voz, e sacou sua espada sem pensar. E, como que para responder às suas mais terríveis esperanças, surgiu diante dela um homem. Agora não o velho que matara na taverna, mas o Arius altivo e imponente que destroçara sua vida, em meio à névoa, quase na borda, de sorriso complacente e modos calmos, que tanto a horrorizara. Teria aquele homem hediondo voltado a vida?

Não. Antes de sucumbir ao pânico total, ela percebeu que ele não tinha mais substância. A névoa o atravessava, deixando a ambos da mesma textura, e seus pés desapareciam em nada antes mesmo de existirem, mostrando que não era mais um homem. E ele mesmo disse:

-Nada tema, minha criança, sou apenas uma sombra ainda menor do que quando me mataste na taverna. Se era possível cair ainda mais, está feito, e é obra sua.

-Não ouse me chamar de criança, velho monstro! – disse ela, quase rosnando.

-Raiva. Muito bom. Você está melhorando, está começando a sentir… não foi para isto que veio até aqui? Sentir algo?

-Não brinque comigo. Você não sabe de nada!

-Pelo contrário. Agora é o mistério do vazio que compreendo melhor. E quem compreende o maior dos mistérios, compreende todos os outros. Morto, a magia morre comigo, e esquecidos todos nós seremos, no devido tempo. Mesmo este pálido fantasma que eu sou agora provavelmente esquecerá quem foi e será mais uma sombra entre tantas no mundo… talvez renasça abençoadamente ignorante. Talvez encontre, por fim, o nada como recompensa, ou talvez vague eternamente numa abençoada ignorância.

Ele esperou. Ela hesitou e abaixou a arma.

-O que você quer, Arius?

-Nada. Foi você e sua presença inquieta que me perturbaram. Você veio livremente, parta livremente, se assim quiser. Estou além do alcance de sua espada e punido com mais rigor que você pode conceber. Sua punição, porém, será maior.

-Está me ameaçando?

-Não tenho poder nenhum para fazê-lo. Ela virá como simples conseqüência de seu ato. Você matou o próprio mundo. E viverá sozinha, além dele, eternamente.

Ela parou e contemplou a névoa. Não havia pensado que o que quer que acontecesse com ela seria pior do que o que já acontecera. Mas a dor a fazia se sentir viva… ou quase. E agora, sequer isso ela tinha.

-O que tem do outro lado?

-Nada. O mundo acaba.

-Você já viu?

-Como poderia uma simples sombra ir além do fim do mundo?

-Então não sabe. Dê passagem, velho.

Sem nenhum medo agora, ela encaminhou-se para a névoa. Arius dissolveu-se diante dela, como se nunca tivesse existido, e ela não mais tornou a vê-lo. Mas uma coisa a inquietou. Ele sorria com triunfo quando se desfez.

Na névoa, ela era cega. Uma coisa estranha, uma boa lembrança antiga, já que seus novos velhos olhos varavam as trevas como se fosse dia – exceto pelo céu, eternamente escuro. No entanto, não ver para onde se ia era bom.

Com o tempo, enquanto vagava, ela perdeu a noção do que, exatamente, procurava ali. Tudo era tão igual, naquele mar plácido de cinza interminável.

Interminável.

Mas é claro! Procuro o fim do mundo…”

E eis que, neste momento de lucidez, surgiu diante dela, silencioso e majestoso, um grande colosso de pedra, uma estátua arruinada e gasta pelo tempo, ao redor de uma cidade vazia e arrasada por algum tipo de  guerra ou catástrofe que parecia ter ocorrido a uma eternidade, mas cujas ruínas prosseguiam. Além do ciclópico ser, mais nada. Nem gente, nem planta, nem fera.

Quem és?” – perguntou Glória, aparentemente sem ver contradição em dirigir palavras a uma estátua.

Sou um Velho Deus, que agora mataste também. E minha morte é minha vida, porque sou um Deus de Enigmas. E o vazio é o maior de todos os enigmas.”

Arius disse que compreendera o vazio…”

Quem foi Arius, para saber de algo? Arius nunca foi. Mataste o mundo, nada foi nunca mais será…”

Você fala como se… como se eu fosse uma deusa. Você é o deus, reconstrua-o!”

Os Deuses pertencem ao mundo, minha menina, e não o contrário. E o mundo, aos seres, e você, que é ser e não ser, o matou.”

Não posso não ser…”

E percebeu, com uma surpresa que em seguida foi ignorada, que não tinha mais corpo.

O Deus dos Enigmas prosseguiu:

Sim, e é este o seu destino, seu castigo e sua missão. Parta daqui, e construa um novo mundo, à sua imagem e semelhança. Porque você destruiu, mas sobreviveu, é seu destino recomeçar sozinha. Todos nós já fomos ou iremos. Você prosseguirá.”

E depois?”

Nenhuma resposta. Nem quando ela repetiu. Nem quando ela gritou.

Era apenas uma velha estátua de pedra, e o seu grito fez com que mais pedras rolassem dela e ela se parecesse ainda menos com um deus e mais com um monte de rochas. Só então ela viu como era louco querer falar com pedras.

E prosseguiu pela névoa, até ouvir alguém chamá-la pelo nome, e se aproximou de um ponto onde algo colorido chamava sua atenção. E este algo era…

II

Docinho. E Lindinha. E Florzinha.

Glória acordou ante os berros da mãe e viu o pôster no teto do seu quarto. Ali estavam as heroínas. Puxa! Como a menina desejava ser como elas! Forte, poderosa e independente.

Ao mexer-se na cama para levantar, sentiu a dor da surra do dia anterior e chorou de vergonha pela sua fraqueza. Mais uma vez o padrasto a espancara, alegando que ela era má e ingrata, quando ele a chamara a sós no quarto e ela se recusara a ir, alegando uma desculpa qualquer. Acusando a menina de cabeça suja, que não respeita o pai que tem e que vê maldade em tudo, quando tudo o que ele, homem religioso e de bem, que fizera a caridadade de acolher ela e sua mãe de uma vida de pecado, queria apenas conversar.

Então ela a espancara usando as mãos. Era ainda pior do que com a cinta. Porque, com as mãos, ele a tocava e ofegava, e ela podia, se quisesse, ver o volume em sua calça quando fazia aquilo.

Então Glorinha – como a mãe a chamava – olhou para o canto do quarto e viu a coisa que estava lá desde a noite anterior. E então compreendeu. E toda a dor passou.

Na pequena cozinha de classe média baixa, a mãe gritou pela décima vez e só então percebeu a menina parada na porta, serena e com um sorriso leve e escarnecedor.

-Filha!

Depois parou. Estranhou aquela palavra. Glorinha não era mais uma menina, era uma mulher feita quase, dezesseis anos, e boa de corpo e de rosto, apesar de suas roupas simples e pouca educação. Ser pobre não era ser desonesta, dizia a mãe, e nem feia.

Mas sentiu uma ponta de inveja. Já fazia muito tempo que ela era mais bonita que a mãe, mesmo quando ela…

(tentava avisá-la de coisas que ela sabia, e ela, por uma mistura de inveja, medo e estupidez, fingia que não ouvia e deixava a filha continuar sofrendo, pois não tinham escolha, era melhor assim, a mãe pecara, a filha pecaria, ambas seriam punidas, o destino da mulher é servir, amém, amém, amém…)

inventava histórias absurdas, tentava fugir de casa e tinha que ser repreendida, ainda era mais bonita e parecia melhor da cabeça do que a mãe, na idade dela.

Glorinha começou a trabalhar sem dizer um bom-dia, lavando a louça do café da manhã sem nem tocar em sua parte. Talvez estivesse cansada e chateada, e por isso não queria comer, já que na noite anterior…

(ela havia sido espancada como uma cachorra, porque merecia, porque se recusara a servir o padrasto, e o destino da mulher é servir, amém, amém, amém, e ela o provocara, com aquela corpo de mulher, e merecia o castigo, como a mãe dela, como a mãe dela que agora era feia e agora ela é que era a culpada, a carregadora do fardo de Eva e merecia as cintadas que não provocara, mas ela devia agradecer porque ele usara as mãos e…)

ela havia brigado com o pai adotivo dela e ele tinha se exaltado um pouco. Mas ela tinha que aprender o seu lugar na casa. Ele era um homem bom e não deveria ser difamado por ela.

-Filha, eu vou trabalhar…

-Eu sei.

-Tu tem que nos esperar com o almoço pronto, viu?

-Eu sei.

-E nada de demora quando o teu pai for te levar pro colégio.

-Aurélio não é meu pai. Meu pai morreu.

-Não diga besteiras! Bata na boca e peça perdão!

-Perdão.

-Tô indo, Deus te abençoe.

-Eu sei… eu sei…

Mas não o seu deus, mamãe.”

III

-E aí, Chaves? O que diz o laudo?

-Olha, detalhes técnicos a parte, envenenamento. Já estavam mortos há horas, quando a menina chamou a gente. E você lembra como ela chamou?

-Sim. A voz parecia de gelo. E ela também parecia de gelo quando nos recebeu lá na casa. Mais algum detalhe?

-O médico que examinou ela disse que ela está muito fraca, como se estivesse em choque. Não comeu nada e não aceitou ser alimentada. Disse também que ela tem marcas no corpo… daquele tipo.

-Seviciada?

-Pelo que diz o doutor, a coisa já vinha de tempo. Mas a psicóloga não sabe o que dizer. Ela diz que raramente alguém é TÃO frio diante destas coisas.

-Vai querer dizer que não foi ela?

-Claro que foi. Às vezes, acontece de uma menina nesse estado reagir. É raro, mas acontece. Só que, pra acontecer,  a guria deve ter meio que…

-Pirado?

-Foi o que a doutora disse. Sabe o que eu acho?

-O quê?

-Ela deve ter usado alguma coisa.  Tem uma seringa vazia que tava no quarto dela, e ela tem marcas de picada no braço.

-Bom, tava chapada. Pode nem ter percebido o que fez.

-É… mais ou menos isso…

-Qual é tua dúvida, Chaves?

-Olha doutor Carlos. O senhor é que o delegado, mas eu tô nessa há mais tempo. Vou esperar o resultado do laboratório… mas jogo com o senhor que naquela seringa tinha a mesma joça com que matou a mãe e o padrasto.

-Só que, daí, ela devia ter morrido.

-É, devia. Posso ir pra casa agora, doutor?

-Pode, já tá bem tarde.

O veterano se levantou. Pegou o casaco e começou a andar em direção à saída. No caminho, a garotinha pálida que o apavorava desde que chegara ali olhou pra ele com olhos de raposa, da sala onde estava, vigiada por um guarda, mas sentada tranquilamente sobre uma cadeira.

E, uma vez que os olhares de ambos se cruzaram, ela disse, sem cerimônia:

-Começou.

-Começou o quê?

-Até daqui há pouco, seu Chaves.

-Não brinca comigo, menina!

Ela apenas sorriu. E ele não disse mais nada e foi pra casa.

IV

O mundo andava estranho.

Era o que pensava Chaves. Muito estranho. Sua amiga de infância, dez anos mais velha que ele, tida por todos como uma mulher gentil e caridosa, morrera recentemente. Diziam que a morte de Dona Eulália fora horrenda. Ela gritava e desesperava, pedindo para ficar, apontando para a porta e para os cantos escuros do quarto, o padre presente tentara acalmá-la e ela repetia incessantemente: Não me deixa ir! Ele vêm me pegar! Eles estão me esperando! Não me deixa ir!

Quem são eles? Quem eram eles? Demônios?

Crianças! Criancinhas! Eu matei! Eu matei todas elas! Tantas! Tantas! Oh! Meu Deus! Tantas…

Sempre houvera boatos de que ela era… aborteira. Que fizera várias vezes a operação por um preço, para moças da classe rica, quando não era tão fácil conseguir este serviço com médicos e com seguranças.

E diziam que isso lhe tinha provido de dinheiro e amizades importantes, embora ela residisse no mesmo bairro de classe-média que todos. E diziam também que pouco lhe importara o tamanho dos bebês – melhor dizendo, fetos – que matara.

Um dia, Chaves ouvira comentar que bastava o mínimo de desenvolvimento cerebral para que uma criatura sentisse dor e medo. Então…

Besteira!  – pensou, enquanto caminhava pra casa – Se os mortos vão ficar vingativos com Dona Eulália, que sempre foi tão boa e que sempre ajudou a todos por aqui, o que dirão de mim, que fiz coisas piores com…

Havia um bando de jovens parados na beira de uma escadaria. Um dos edifícios de apartamentos do bairro, que, já fazia alguns anos, vinham se tornando mais e mais numerosos. Natural. Havia mais gente, então se empilhava as casas uma por cima das outras. Apartamentos. Até mesmo Chaves trocara sua antiga casa por um deles. Um apartamento no terceiro andar de um prédio de três andares. Os únicos outros residentes eram o dono da quitanda do primeiro andar e uma velhinha presa numa cadeira de rodas no segundo andar. Pessoas solitárias. Ele também.

Aquele bando parado na escadaria, àquela hora da noite, o perturbou. Uns dez moleques, o mais velho deles não deveria ter mais que dezessete anos, parados e silenciosos, acompanhando o movimento das pessoas na rua. Dez adolescentes parados numa noite quente de quase verão… não era normal. E nem seguro. Era tarde e eles estavam em risco… ou então significavam problema.

Não parecia uma coisa nem outra. Estavam vestidos com simplicidade, mas não faziam nenhum esforço para parecerem fuleiros ou agressivos, como muitos baderneiros fazem. Não pareciam exatamente uma gangue, já que não portavam armas. Nem falavam com ninguém, nem usavam drogas, nem… nada.

Aquilo o incomodava, também. Por que não estavam em casa, então?

Não estavam fazendo nada. Apenas parados, silenciosos, na rua. Fitando as pessoas. E eram diferentes demais uns dos outros pra serem uma gangue. Havia um rapaz de cor com camiseta de time de futebol, uma camiseta da seleção, antiga, parecia do tempo em que houvera o tri-campeonato. E, ao lado dele, uma mocinha loira de cabelo comprido e liso, calça pantalona e uma camiseta amarrada sobre os seios bonitos exponda a barriga, uma fita no cabelo e um olhar triste, que cruzou com ele também. Aquele jeito de se vestir era tão antigo, e ela se parecia tanto com…

Com uma garota que, há muitos anos, quando trabalhava na polícia federal, Chaves assassinara.

Queriam que eu fizesse o quê?! Era uma guerra! Ou tu ficava do lado dos militares, que hoje todo mundo xinga, mas na época todo o mundo adorava e aprovava, ou então do lado desse bando de viciados, comunistas, baderneiros e…

Os olhos da garota pareciam dizer: e as coisas que você fez comigo? E as risadas que deu enquanto eu gritava e chorava, e pedia pra pararem? Tudo isso foi por uma boa causa? Tudo isso foi pra combater o comunismo, a baderna e o vício?

Chaves sacudiu a cabeça, virando para o outro lado. Estava quase tendo delírios! Ficara assim naquele tempo. O trabalho era difícil…

Difícil como currar um crioulo algemado, não é?

Merda! Maldição!

Lidar com aquela louquinha na cadeia tinha perturbado ele bastante.

Continuou andando, sem virar para trás.

Os dez jovens que o fitavam naquele momento, como num lento e pré-combinado movimento, começaram a se levantar e a segui-lo, silenciosamente, sem dizer uma única palavra.

V

Carlos estava indo para casa, quando o guarda o deteve. A prisioneira escapara. Ele simplesmente não sabia dizer como. Ela estava numa sala com uma única porta e ele próprio diante da porta.

-Acho que alguém me acertou porque, no meio do caminho eu… me perdi… eu fiquei como se estivesse dormindo e… bom, quando vi, a cadeira dela estava vazia.

Houve no mesmo instante uma rápida busca e troca de informações. A menos que a delegacia inteira tivesse combinado a mesma mentira, ninguém vira ninguém entrar e nem sair. E nem ouviram o guarda ser atacado. Ele próprio acabou confessando que, mesmo com a sensação de ter perdido a consciência, pois não se lembrava direito do que ocorrera, ele havia notado o sumiço da garota na mesma posição em que estava antes… de pé, diante da cadeira vazia que ela ocupara. Houve quem entrou em pânico e começou a chorar. O guarda foi preso no mesmo instante e se rumou para a casa do único homem que deixara o serviço até então.

Chaves já tomara banho e pusera o pijama. Ouviu batidas desesperadas na porta. Correu até ela e apanhou seu revólver no caminho – um velho hábito – perguntou, numa voz serena:

-Quem é?

O silêncio atrás foi tão absoluto que ele chegou a a imaginar que as batidas nunca haviam existido. Aliás, a certeza de que o corredor era vazio era tanta e tão medonha, e a sensação de ter estado sonhando era tão concreta que ele, mesmo sabendo da imprudência, manteve a corrente na porta e girou a chave na fechadura, entreabrindo-a. Pois o olho mágico de lente era inútil com a luz do corredor apagada.

Um braço magro e pálido se infiltrou pela brecha mais rapidamente do que ele imaginava e agarrou, mesmo às cegas, seu pulso do revólver, torcendo sua mão. Outros braços e um pé calçando tênis junto ao chão se interpuseram na abertura, impedindo que ele fizesse porta voltar ao umbral. A tentativa de gritar por socorro foi frustrada por uma mão na garganta e por outra que se enfiou entre seus lábios. Ele tentou mordê-la, ouviu ossos estalando, mas apenas o odor de podridão e o sabor de carne estragada inundaram suas narinas e língua. Nenhum sangue.

A porta foi forçada e se abriu, e eles caíram sobre ele. Os mesmos dez da escadaria.

Só que agora, como realmente eram.

Podres, pele branca como o gelo, azulada ou roxa. Os sinais de antigos ferimentos e o cheiro, aquele cheiro de churrasco velho, de comida enlatada estragada. Os olhos vazios despejando gosmas repugnantes e as marcas e aberturas sobre a casca deixando ver órgãos podres e exalando um cheiro que lembrava dor… muito mais do que lembrara morte, o fedor interno deles era de dor.

Uma coisa, porém, chamaria a atenção de quem pudesse meditar com frieza. Não havia vermes, apesar do odor de carniça. Parecia que, por anos e anos, nem eles ousaram se alimentar daquelas coisas.

Deitado no chão, com a garganta apertada e os braços e pernas imobilizados, ele assistiu à garota loira se aproximar, com um rosto sorridente, com metade dos dentes quebrados e um olho desaparecido por baixo de uma equimose fabulosa. Seu corpo tinha marcas em pontos sensíveis, que a as roupas por cima escondiam em sua maioria… mas a quantidade de sangue que ainda escorria ao longo da parte interna de suas pernas bonitas empapava a calça e deixava dois rastros irmãos no caminho de seus pés.

Ela não disse nada. Apenas se abaixou sobre o homem, que teve a boca tapada e a garganta libertada. Abriu sua camisa botão por botão. Montou sobre sua cintura e, quando ele parou de tentar gritar, lhe foi tirada a mão da boca e permitido falar, que era só o que ele poderia fazer.

-O que vocês querem? Santo Deus, o que vocês querem?!?!

Alguém que ele não podia ver, mas cuja voz ele conhecia, falou do corredor.

-O que alguém que nunca mais vai viver quer quando abandona o túmulo?

-Vingança… – respondeu a loirinha.

A boca de Chaves foi tapada. E toda a luta pela libertação foi inútil. Com suas unhas e os dentes que restavam, a menina cavou através de seu peito até achar o coração, arrancado com o homem ainda vivo, para ser devorado enquanto ele morria.

De joelhos, enquanto terminava sua refeição, a loirinha se aproximou daquela que a libertara, e esta afagava sua cabeça, e dizia aos outros:

-Espalhem-se e acordem seus irmãos. Nosso tempo chegou. O tempo para acabar com todos os tempos.

A loira lambeu os dedos e disse:

-Sim, mãe.

Beijou-a nos lábios. As duas tinham a mesma idade, embora fossem diferentes. Todos se espalharam, menos ela. Ela permaneceu, recolhendo o sangue do homem com um vaso de flores de plástico, pintou nas paredes.

EU SOU A MÃE DOS MORTOS

MEU REINO CHEGOU

PARA PÔR FIM A TODOS OS REINOS

E A TODOS OS TEMPOS

DE TODOS OS VIVOS

PARA SEMPRE E PARA NUNCA

O FIM

Ainda riscava as últimas palavras quando os primeiros disparos soaram. Seu corpo caiu ao lado do policial, crivado de balas.

O delegado Carlos e os outros entraram cautelosamente no apartamento. A cena era horrenda o suficiente para que mesmo gente calejada como eles se sentisse desconfortável. Além do fato de que o colega recém-morto era querido por muitos dos que estavam ali.

Enquanto a cena era examinada e o jovem delegado se sentava na beira do sofá, atordoado, um novo disparo soou, e todos se voltaram, sobressaltados, para um dos guardas mais jovens e menos experientes, que ofegava, obviamente em pânico, com o cano fumegante de seu revólver virado para a cabeça do cadáver da menina.

-Ela morreu sorrindo… tava rindo da nossa cara…

-Guri, larga essa arma…. tu não tá legal!

-Ela tava rindo da nossa cara!! Como é que ela fez tudo isso sozinha?!?!

-Tá na cara que teve ajuda… mas não importa agora. Larga essa arma senão eu vou ter quem…

-E quem é que vai nos ajudar agora? – respondeu o jovem com um ar misterioso, enquanto apontava para a própria cabeça.

Alguns mais corajosos e benevolentes tentaram detê-lo. Por incrível que pudesse parecer, ele disparou duas vezes… contra a própria cabeça.

Horas depois, finda a confusão toda, todos se dirigiram para suas casas.

Ainda de madrugada, todos já dormiam, mas não era um sono tranquilo. Em cada um deles havia um pesadelo diferente, mas em todos os pesadelos havia a menina estranha que chegara na delegacia na metade da tarde. E em todos eles ela dizia ou escrevia com sangue na parede a simples mensagem.

-Começou… o fim.

No mesmo instante, o corpo do jovem policial que se suicidara estava para ser aberto pelo legista, que, ao erguer o bisturi, detinha-se com um grito mudo na garganta.

Aqueles olhos, naquela expressão de medo e horror congelada pela morte, haviam acabado de piscar. E ele repetia, sem mover os lábios, com uma voz que era a sua e de uma menina, e também de muitos outros, que há muito aguardavam:

-Começou… o fim.

Texto de: Luiz Hasse

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