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IV

O mundo andava estranho.

Era o que pensava Chaves. Muito estranho. Sua amiga de infância, dez anos mais velha que ele, tida por todos como uma mulher gentil e caridosa, morrera recentemente. Diziam que a morte de Dona Eulália fora horrenda. Ela gritava e desesperava, pedindo para ficar, apontando para a porta e para os cantos escuros do quarto, o padre presente tentara acalmá-la e ela repetia incessantemente: Não me deixa ir! Ele vêm me pegar! Eles estão me esperando! Não me deixa ir!

Quem são eles? Quem eram eles? Demônios?

Crianças! Criancinhas! Eu matei! Eu matei todas elas! Tantas! Tantas! Oh! Meu Deus! Tantas…

            Sempre houvera boatos de que ela era… aborteira. Que fizera várias vezes a operação por um preço, para moças da classe rica, quando não era tão fácil conseguir este serviço com médicos e com seguranças.

E diziam que isso lhe tinha provido de dinheiro e amizades importantes, embora ela residisse no mesmo bairro de classe-média que todos. E diziam também que pouco lhe importara o tamanho dos bebês – melhor dizendo, fetos – que matara.

Um dia, Chaves ouvira comentar que bastava o mínimo de desenvolvimento cerebral para que uma criatura sentisse dor e medo. Então…

Besteira!  – pensou, enquanto caminhava pra casa – Se os mortos vão ficar vingativos com Dona Eulália, que sempre foi tão boa e que sempre ajudou a todos por aqui, o que dirão de mim, que fiz coisas piores com…

            Havia um bando de jovens parados na beira de uma escadaria. Um dos edifícios de apartamentos do bairro, que, já fazia alguns anos, vinham se tornando mais e mais numerosos. Natural. Havia mais gente, então se empilhava as casas uma por cima das outras. Apartamentos. Até mesmo Chaves trocara sua antiga casa por um deles. Um apartamento no terceiro andar de um prédio de três andares. Os únicos outros residentes eram o dono da quitanda do primeiro andar e uma velhinha presa numa cadeira de rodas no segundo andar. Pessoas solitárias. Ele também.

Aquele bando parado na escadaria, àquela hora da noite, o perturbou. Uns dez moleques, o mais velho deles não deveria ter mais que dezessete anos, parados e silenciosos, acompanhando o movimento das pessoas na rua. Dez adolescentes parados numa noite quente de quase verão… não era normal. E nem seguro. Era tarde e eles estavam em risco… ou então significavam problema.

Não parecia uma coisa nem outra. Estavam vestidos com simplicidade, mas não faziam nenhum esforço para parecerem fuleiros ou agressivos, como muitos baderneiros fazem. Não pareciam exatamente uma gangue, já que não portavam armas. Nem falavam com ninguém, nem usavam drogas, nem… nada.

Aquilo o incomodava, também. Por que não estavam em casa, então?

Não estavam fazendo nada. Apenas parados, silenciosos, na rua. Fitando as pessoas. E eram diferentes demais uns dos outros pra serem uma gangue. Havia um rapaz de cor com camiseta de time de futebol, uma camiseta da seleção, antiga, parecia do tempo em que houvera o tri-campeonato. E, ao lado dele, uma mocinha loira de cabelo comprido e liso, calça pantalona e uma camiseta amarrada sobre os seios bonitos exponda a barriga, uma fita no cabelo e um olhar triste, que cruzou com ele também. Aquele jeito de se vestir era tão antigo, e ela se parecia tanto com…

Com uma garota que, há muitos anos, quando trabalhava na polícia federal, Chaves assassinara.

Queriam que eu fizesse o quê?! Era uma guerra! Ou tu ficava do lado dos militares, que hoje todo mundo xinga, mas na época todo o mundo adorava e aprovava, ou então do lado desse bando de viciados, comunistas, baderneiros e…

            Os olhos da garota pareciam dizer: e as coisas que você fez comigo? E as risadas que deu enquanto eu gritava e chorava, e pedia pra pararem? Tudo isso foi por uma boa causa? Tudo isso foi pra combater o comunismo, a baderna e o vício?

Chaves sacudiu a cabeça, virando para o outro lado. Estava quase tendo delírios! Ficara assim naquele tempo. O trabalho era difícil…

Difícil como currar um crioulo algemado, não é?

Merda! Maldição!

Lidar com aquela louquinha na cadeia tinha perturbado ele bastante.

Continuou andando, sem virar para trás.

Os dez jovens que o fitavam naquele momento, como num lento e pré-combinado movimento, começaram a se levantar e a segui-lo, silenciosamente, sem dizer uma única palavra.

Texto de: Luiz Hasse

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