I

A chave girou na fechadura e a porta se abriu, e a luz, como uma intrusa, espantou as trevas do interior da casa, mas o mesmo não se pode dizer do pó.
Márcia tossiu e espirrou. Era alérgica. Paulinho apenas sorriu e entrou, depositando a maior parte da bagagem no chão. Raul e Júlia vieram depois, inspecionando com a minúcia de um casal recém-casado e em seguida jogando-se, rindo, no sofá.
Márcia não aguentou aquilo e simplesmente desabou, sozinha, numa poltrona. Vindo ela própria de um relacionamento fracassado, ainda lhe causava alguma amargura ver toda aquela alegria. O casal de amigos tentara armar uma situação entre ela e Paulinho, mas nem ela gostara dele e nem ele se encantara muito, por bonita que ela fosse, ele a achara convencida demais. E para alguém cuja autoestima já sofrera golpes demais por ser magro e fraco no tempo da escola, ele desenvolvera uma forma peculiar de orgulho que fazia desprezar qualquer pessoa que o desprezasse. No entanto, as relações entre ambos eram amigáveis. Era possível que, com o tempo, se tornassem amigos.
A casa, em si, tinha um jeito de casa de vó. Com cada móvel no seu devido lugar, tudo bem colocado e limpo, exceto pela poeira que se acumulara, e com bibelôs e um antiquado toca-discos. Mas o que aquilo queria dizer?
– Eu imaginara diferente um local de praia… – disse Júlia, desvencilhando-se por alguns instantes dos beijos de Raul.
– Ela só está como casa de praia esta temporada. A dona morreu faz pouco tempo e uma sobrinha herdou e entregou pra imobiliária alugar para quem pudesse pagar.
– Os bons preços do inverno – disse Paulinho, pensando no mar gelado que, apesar do frio impedir o banho, ele adorava contemplar enquanto lia – e o isolamento que todos procuramos. Quem vem ver o resto da casa?
– Eu – disse Márcia, e levantou suas formas voluptuosas da poltrona, seguindo a figura alta e esquelética, que lembrava um espantalho, de Paulinho.
A casa acabou se revelando simples, como todas as casas são depois de conhecidas. Uma sala, uma salinha de despejo com tralhas velhas, uma cozinha ampla e iluminada. Grades nas janelas – poucos animais, mas o ponto que ela ficava era isolado e ladrões e coisas piores sempre rondam à noite – e dois quartos no térreo, além de um banheiro e mais um nos fundos da cozinha. Lá fora havia uma garagem. E isso meio que encerrava as coisas.
Mas havia escadas. Escadas para um sótão. Chave após chave foi testada e nenhuma abriu a porta.
– Pode ser simplesmente que a imobiliária tenha esquecido.
– Eles não podem fazer isso – disse Paulinho – se alguém entrar por uma das janelas do telhado e forçar a porta por dentro? Eu não quero ter que dormir preocupado com nossa segurança. Já volto.
Desceu e saiu da casa. Márcia voltou para a sala. E o casal não estava mais lá. Fora para o quarto com a cama de casal. Ela pegou sua parte da bagagem e trancou-se no quarto de hóspedes. Lembrou do namorado antigo. E chorou.

. . .

Todos dormiam no fim de tarde quando soou o ruído como um tiro. Em seguida foi barulho de metal lascando e chacolhando. Todos, menos um, que estava acordado.
Raul pulou para fora do quarto, seminu, enquanto as duas mulheres espiavam pelo corredor.
– Calma – disse Paulinho do alto da escada – eu só forcei a fechadura…
– Por que você fez isso?! – gritou o outro – Agora quem vai pagar…
– Eu pago. Eles não podiam deixar a gente a mercê de qualquer coisa que possa entrar pelo sótão e nos pegar de noite…
– E o que diabos…
– Espera! Gente, venham ver isso…
A voz sumiu aos poucos. Os outros três se entreolharam e subiram devagar.
Ali em cima havia um quarto de criança. Uma caminha pequena entre os pilares que sustentavam o lugar, e janelas igualmente com grades, cujos vidros eram pintados de preto. Assim como brinquedos, livros infantis e um enorme urso de pelúcia, tudo velho e juntando pó. Uma aura de tristeza infinita sobre o lugar.
– Me disseram que a dona não tinha filhos – disse Raul.
– Vai ver era pra sobrinha quando vinha aqui – completou Paulo.
– Que abandono – murmurou Júlia.
Márcia apenas perambulou pelo quarto. Havia lágrimas em seus olhos. Contemplou um trenzinho de plástico no chão e depois bateu os olhos sobre o ursão de pelúcia ao lado da cama pequena. Apanhou o urso e desceu de volta para o seu quarto. A porta bateu de novo.
– Preocupação desnecessária, Paulo – disse o amigo de infância – ninguém passa essas grades.
– Não tinha como saber até ver. E por que será que pintaram as janelas de preto?
– Isso aqui é uma água-furtada. A luz incomodaria sem a tinta.
– Mas não tem nem luz elétrica… quer dizer… tá vendo alguma lâmpada em algum lugar?
– Gente – falou Júlia – vamos sair daqui? Esse lugar me deprime…
Havia agonia genuína naquela voz. Mas, dissimulando, agarrou-se a Raul e sussurrou de forma sexy em seu ouvido. Saíram ambos. Paulinho ficou a contemplar o quarto por mais algum tempo. Intrigado. Mexeu nos livros. Mal pareciam ter sido tocados. Tocou na cabeça de um soldadinho de madeira e ela deslocou-se, caindo ao chão. Estava quebrado. Saiu e fechou a porta.
Jantaram juntos. Márcia cada vez mais muda. Paulinho tentou animá-la sem sucesso. E soube calar para não forçar a barra. Júlia e Raul só tinham olhos um para o outro.
A noite oferecia pouco do lado de fora. Apenas o vento frio a fazer e desfazer dunas. A vegetação que cercava o local e o ruído distante, quase inaudível, das ondas. Dormiram. O casal, a solitária no quarto de hóspedes e o solteiro na sala.
O quinto habitante daquela noite, quando todos dormiam, saiu de seu esconderijo e, como uma sombra deslizante, pairou sobre sua presa. Suas mão buscaram a garganta dela e sua boca de dentes chatos e afiados buscou sua carne cheia de calor. E mordeu. Ela tentou gritar e era impossível. Tentou se desvencilhar dele e era como bater um bloco de gelo. Depois de saciada, a criatura buscou outro esconderijo e se encolheu.

II

A ansiedade era uma característica de Paulinho. Ele abriu gavetas e armários, um pouco antes do sol nascer, pois estava acordado, e descobriu fotos e cartas antigas. Com uma sombra de respeito pelos mortos, não leu nada, mas folheou álbuns.
Havia uma mulher jovem e bonita que aparecia em várias e várias fotos, sempre de óculos redondos escuros, ou saias longas à moda indiana, miniblusas que expunham a barriga, sandálias, colares de miçangas e pulseiras de bijuterias. As paisagens por onde ela andava eram sempre praias, bosques, beiras de rodovias. Volta e meia tinha um cigarro na mão. O álbum era decorado com flores em cores vibrantes. Outra época. Ingenuidade. Outros tempos. Inocência.
Ele ficou imaginando o passar das eras transformando uma hippie de menos de 20 anos numa senhora cansada e solitária, a arrumar e desarrumar freneticamente uma casa velha numa praia distante, onde talvez tenha se encontrado com amigos e usado drogas na juventude, para depois ver cada um tomar seu rumo, uns para o casamento, outros para a política, outros para o trabalho, muitos, como foi a época, para a morte ou a desaparição total. Sentiu o peso do tempo sobre si e pensou no que esperava ele e cada um de seus amigos.
Mas não precisou esperar muito. Um grito agudo o chamou para o corredor pouco depois que o sol nasceu. Mais alguém acordara. O álbum saltou de sua mão como se tivesse vida própria e ele correu até o quarto de hóspedes.
Márcia estava morta. E de um jeito ruim. Júlia se agarrava a Raul chorando, cujos olhos pareciam dobrar de tamanho, e o cadáver estava lá, estático. Pedaços de um urso destroçado pelo assassino se espalhavam pelo quarto. Ela tinha marcas de dedos longos e ossudos em seu pescoço, e estava com o rosto azulado. Mas isso não era tudo. Seus seios estavam cobertos de sangue e mutilados pelo que pareciam ser mordidas.
Raul afastou Júlia da cena e Paulinho andou de costas até de volta para a sala. Apanhou seu celular e…
Mudo. Totalmente sem energia.
Não havia problema. Era só recarregar com a tomada.
Mas foi então que percebeu que a eletricidade da casa se acabara.
Um relâmpago cruzou os céus cinzentos de inverno e em seguida o trovão fez até as fundações sacudirem com a vibração. E a chuva desabou.
– Teu celular tem bateria?!
– Não, os nossos acabaram também durante a noite!
– A gente precisa decidir o que fazer. Acalma a Júlia e volta aqui.
– Eu não sou criança! – gritou Júlia entre um choro e outro – Eu vou aí com vocês…
Os três sentaram na sala.
– Tá bom – começou Paulinho.
– Tá péssimo! – gritou Júlia, e enfiou o rosto no peito de Raul de novo, chorando.
– Entendi. Mas escutem… a gente tá sem celular e no meio do nada. A luz acabou. Viemos num carro só. Tem dois jeitos de resolver isso. Ou três. A gente pode pegar o carro e ir embora. E avisar a polícia… mas eu não gosto disso. A gente vai deixar ela ali, e a gente não sabe quem fez aquilo e nem por onde entrou nem saiu. Aliás… vamos verificar a casa antes de continuar essa conversa?
– Sim.
Trêmulos como varas verdes, os três apanharam cabos de vassoura e uma lanterna da sala de despensa. E então varreram o local de cima a baixo. Inclusive no quarto secreto. Nada. Não havia local onde um ser humano pudesse se esconder. Mas a porta da frente estava aberta. A chave, felizmente, ficara para dentro. Paulinho a girou na fechadura e não comentou nada. Mas instintivamente concluiu: era por ali que ele entrara. Quem quer que matara Márcia. Afinal… por que diabos alguém lembraria de trancar o lugar no meio do nada? Bem, havia um motivo.
– Pronto… tô mais calmo… e agora?
– Quais são as outras duas formas de lidar com o problema, Paulinho?
– A gente espera a luz voltar e telefona. Eu também não gosto de ficar aqui com nossa amiga daquele jeito… mas é melhor que fugir e deixar ela pra trás. Isso daria todo o tipo de má impressão também. Isso de sair correndo. E infelizmente a gente tem que pensar nisso agora.
– Isso pra mim é ainda pior – disse Júlia – porque tudo tem que dar errado agora? Por que não podia ter eletricidade?
– É normal. Instalação velha. Tempestade de inverno. E ninguém lembra de carregar celular do jeito que a gente tava ontem. Tá tudo bem. Não é culpa nossa essa parte… mas a gente precisa pensar mais um pouco… ah, lembrei. Terceira ideia. Vai um de nós e os outros ficam.
– Detestei! – disse Júlia
– Calma – disse Paulinho – é a melhor ideia. Olha só. Assim a polícia não vai dizer que a gente saiu correndo e deixou um cadáver pra trás. Além disso, pode até estar chovendo, mas é dia e logo adiante tem uma cidade. Eu só preciso me agasalhar bem, pegar qualquer coisa pra me defender, uma vara serve, e voltar logo com a polícia e tudo vai ficar… bom, não dá pra dizer que vai ficar bem, mas a gente vai resolver.
– Você? Por que você?
– A Júlia precisa de ti, Raul. Nenhum de vocês iria querer que o outro fosse. Vocês fecham a porta do quarto, montam guarda e…
– E por que você não vai com o carro?
– Acho que ele é mais útil pra vocês… se precisarem sair correndo. Olha só… que fez isso era um monstro, mas não tinha arma. Senão tinha feito ela de refém e… bom… brincado com a Júlia também. Mas e se voltar depois, e trouxer os amigos?
– Então eu e a Júlia vamos esperar no carro. E vamos te acompanhar com os olhos pela estrada até você sumir. Qualquer coisa diferente de você e da polícia que se aproximara a gente vai meter o carro em cima e sair cantando pneu.
– Combinado. Vou me arrumar e encarar a chuva.
Pouco tempo depois, no pátio do local, embrulhado o mais que podia em casacos e com um boné sobre os olhos que lhe dava um aspecto de bruxa malvada, dividindo seus cabelos para os lados, Paulinho acenou para seus amigos e partiu. Júlia e Raul ficaram atrás do volante, agarrados um no outro, observando a figura dele ficar cada vez menor indo pela estradinha de terra do litoral.

III

Quando Paulinho sumiu, Raul e Júlia só tiveram um ao outro, e à estrada, e às árvores, e o vento e à chuva para observar. E o tempo. E a espera. Haviam pego comida e bebida e ali ficaram, esperando, e esperando e esperando.
As tentativas de encetar uma conversa foram frustradas. O rádio foi esquecido porque qualquer música lembrava a amiga morta, e qualquer ruído estranho era sinistro.
E assim foi que o dia passou e se fez noite. E os dois contemplavam as trevas num silêncio pesado. Raul impôs escuridão dentro do carro, porque quando a noite chegou, nada poderia denunciar a ambos se alguém viesse do lado de fora.

– Ele está demorando tanto… – murmurou ele.
– Eu preciso urinar – ela disse.
Ele olhou para ela. E ela estava esperando há tanto tempo. E ele a amava.
– Vai. Eu vigio pra ti. Faz no chão da garagem, mesmo.

Ela suspirou de alívio antecipado e abriu a porta. E a luz se acendeu e o revelou.
Ele estivera ali escondido, a esperar por uma oportunidade.
Suas pernas eram segmentadas como se fossem os ossos de uma coluna vertebral, e se entrelaçavam de forma que formavam uma só. E com as duas ele se enroscava, tal qual fosse a cauda preênsil de um macaco, numa coluna da garagem. Seu corpo era pouca coisa maior que o de um menino, e mais largo. Suas mãos com longos dedos ossudos providos de garras fizeram um gesto para apanhar Júlia.
Mas o pior era seu rosto. Não tanto pelos dentes tortos e restos de sangue coagulado de Márcia no queixo, mas sim o fato de que ele não tinha olhos e nem a cavidade onde eles deveriam estar.
Márcia gritou e o grito dela, mais que a visão do monstro, tirou Raul da imobilidade. Ele saltou e puxou a porta de volta. Em seguida a coisa saltou sobre o capô e começou a esmurrar o para-brisa. A mulher pulou para o banco de trás e o homem vasculhou até encontrar a melhor arma que tinha.
Quando o vidro arrebentou o monstro caiu sobre Raul, e ele já tinha uma faca de bife preparada entre os seus dedos. Sua mão levantou e enterrou-a no pescoço da coisa, quase junto ao queixo. Ela gritou, desesperada e saltou para trás, seu rabo coleando enquanto seu corpo se debatia. Mas então ela se ergueu na ponta dele e, mesmo ensanguentada, preparou um pulo. E luzes se acenderam atrás dela.
Estampidos se fizeram ouvir e Raul se jogou instintivamente atrás do painel. Depois veio a voz:
– Tudo bem por aí?
– Tudo péssimo! – gritou Júlia
– É a polícia. Podem sair.
Lá fora estavam Paulinho e dois policiais. O monstro jazia morto no pátio.
– Eu levei algum tempo para explicar a história toda… – disse o amigo em tom de desculpas.
– A gente desconfiava que ela tivesse mais alguém em casa. Sabíamos que tinha tido um filho quando jovem, e sabíamos que o casamento não tinha sobrevivido a isso. Mas ela dizia que ele tinha morrido… só que quem poderia imaginar que… bom… ela usava muita droga naquele tempo… isso tem efeitos mutagênicos – disse o policial mais velho.
– Mas não tinha NINGUÉM em casa! – gritou Júlia – E eu tranquei a porta antes de dormirmos de noite!
– A coisa tem flocos de algodão presos nela – murmurou o policial mais jovem, olhando para o cadáver.
A súbita compreensão assaltou a todos.
Ela estivera escondida dentro do urso de pelúcia.

Texto de: Luiz Hasse
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