CAPITULO I

Era um meio dia suave.  A menina chegou em casa com paz no coração.

A mãe não estava – natural trabalhava duro para que as duas tivessem tudo o que precisavam.

A filha colaborava como podia, ambas se entendiam muito bem. Não havia pai, desde o trágico acidente alguns meses depois da menina ter sido concebida. Trabalhou com diligência e pôs a casa em ordem – não que houvesse muito a fazer. Mãe e filha eram caprichosas com suas coisas. Raramente algo ficava fora do lugar por muito tempo – e elas não geravam nem tinham porque gerar muita sujeira. Uma empregada? Nem em sonho.

Não que não fosse possível pagar por uma, mas a privacidade das duas não devia ser violada. Nunca.

-Uma mulher decaída, minha filha, é apenas e nada mais que uma mulher comum que perdeu a discrição. É a isso que se resume, e eu sou a mãe mais sincera do mundo por dizê-lo: discrição.

Só depois almoçou, ali pelas três da tarde. Uma maçã vermelha, de sabor agridoce. Um copo de água e um bife que a mãe já deixara temperado, na geladeira. Deveres escolares – com uma pequena pausa para brincar no computador. Internet e apelidos bonitinhos + fotos verdadeiras.

Os caras ficavam doidos por ela! Inclusive, e principalmente, os mais velhos… – e depois, já cerca de seis da tarde. Foi até o banheiro. Deixou a água quente encher a banheira, a despeito do calor gostoso de princípio de primavera. Tirou o uniforme diante do espelho e se admirou – agora, nua e sem vergonha nem timidez fingida, parecia bem menos com uma adolescente. Na verdade, aquele corpo era de dar inveja a quase qualquer mulher madura.

E ainda era muito jovem quando entrou na banheira – enquanto lembrava dos olhares – tímidos, grosseiros, insinuantes, ofensivos, admirados, gentis, sedutores, amedrontados – de todos os tipos, mas todos carregados de desejo – de ânsia! – masculina por ela.

Olhares de algumas meninas, também. Lembrou do futebol na educação física e do olhar tímido do aluno excluído e sentado que ficava vidrado nela – enquanto os outros, suados e agressivos, lutavam como bichos numa estação de acasalamento, para deleite de e buscando deleite com, a atenção daquelas a quem queriam impressionar.

Corpos jovens, flexíveis, suados… Um olhar de uma pessoa cheia de medo, mas o olhar, este era cheio de paixão e poder… As duas coisas eram belas, suaves, brutais e selvagens. E ambas a fizeram fechar os olhos e sonhar acordada com eles, enquanto seu corpo respondia às suas memórias e fazia exigências, e ela atendia. Quando terminou o banho, sem culpa nem vergonha nenhuma, percebeu que aquilo não seria suficiente. Não naquela noite.

Porque anoitecera. E era sensível o quanto a noite estava quente, seca e convidativa. Vamos brincar? Dizia a vida lá fora. Estou indo. Dizia a vida dentro dela. Sorriu enquanto se contemplou no espelho, pensando na roupa que iria usar no passeio. Será que encontraria amigos? Algum conhecido? Seria interessante, ah, se seria… Seria gostoso.

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

CURTA NOSSA PÁGINA – facebook.com/pulpstoriesbr