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CAPITULO IV – FIM

O coração do rapaz já antecipava o gozo.
Abriu a porta, deslizou pelo corredor escuro de entrada de funcionários. Usou o celular – que fica no mesmo bolso que o canivete de pressão – pra iluminar o caminho. Viu uma porta maior e entrou por ela.
Um daqueles imensos corredores, iluminados por débeis lâmpadas auxiliares, surgiu diante dele. Daquele jeito, silencioso, sem pessoas, sem música ambiente, as luzes das lojas apagadas, os cantos escuros impenetráveis, os manequins imóveis, ele era morto, gelado. Mostrava o quando era, no fundo, estéril.
Muito pior que um cemitério.
Ele gostava! O lugar era perfeito pra meter um pouco de vida.
Aliás, “meter” era a palavra. Aquela pequeninha não ia ficar só na brincadeira com ele, não…
Ouviu o barulho, ela não fez questão de ser nem um pouco discreta.
Já vinha chegando, por outra entrada.
-Oi, que bom que você veio…
-Vem cá, gatinha, me diz teu nome agora…
Ela avançou na direção dele.
Abriu a boca e o beijou.
Os olhos dele se tornaram selvagens – ele olhou a lua e o céu estrelado acima dele pela clarabóia de vidro do corredor. Sentiu aquele fogo queimando. Quis apertá-la em seus braços.
Ela se desvencilhou, enquanto ele ainda era gentil.
-Espera…
Era uma expressão preocupada. Quase arrependida.
A frustração dele esteve a um passo de se transformar em raiva.
Ela tirou o casaco como quem tira um peso de uma idéia ruim. Ali dentro não estava frio. A perturbação dele sumiu ao lhe observar o corpo mais livremente.
Belo.
Puro.
Frágil.
Ela agarrou-se nele de novo e o beijou. Os dois caíram no chão voluntariamente.
Por cima, ela empertigou-se e, montada sobre ele, arracnou a camiseta. Não havia sutiã nenhum sob a mesma. Atrás e acima, a lua e as estrelas eram como olhos de voyer a assistir.
Acariciaram-se de novo.
Interrompendo bruscamente, ela se levantou.
Sorria, parada em pé, enquanto ele se levantava, atordoado.
Desabotoou a calça e o barulho do zíper foi como uma faísca elétrica. Ele começou a arrancar a própria roupa, sem se importar com o quanto cada peça tinha custado.
Ela estava agora completamente nua, antes dele.
Sorridente, linda, boba, imprudente…
Completamente vulnerável – seu tipo de garota.
Ele avançou.
Ela deteve-o com um gesto. Seria a última vez que ele seria detido.
-Me pega!
Deu-lhe as costas e disparou a correr como uma gazela, dando risinhos.
Rosnando de irritação – embora, lá no fundo, bem divertido. Ele começou a correr feito um sátiro atrás de uma ninfa.
Ela correu elegantemente, como uma jovem que praticava esportes desde criança, sem se esbaforir. Percorreram aquelas galerias cheias de fantasmas do dia por muito tempo. Aquele que a perseguia também era atlético, mas passou trabalho, no afã de pegá-la logo. Por várias vezes quase a alcançou.
Mas com um saltinho, ela sempre se colocava a frente dele.
Fim da linha.
Beco sem saída.
Ela parou, coberta de suor. Olhando para o fim do jogo. De costas para ele, imersa na semi-obscuridade, suas formas femininas eram apenas excitantemente adivinháveis.
Ela parecia quase fluida.
Ele parou também. Tomou um pouco de fôlego e decidiu que era o momento.
Deu um passo na direção dela, agora calmo e determinado.
Ela virou-se num pulo e, ato conjunto, arremessou-se contra ele, descrevendo um lindo arco no ar.
Ele gritou! Deixou de ser homem e era só uma criança.
De novo e para sempre.
E o sempre não ia durar muito.
Aquilo que saltava contra ele, tão feroz, faminto e incontrolável quanto a menina, não era mais a menina. Talvez nunca tivesse sido. Embora nunca tivesse visto um de verdade, seus instintos sabiam o que aquela figura significava e o que iria fazer com ele.
Era um lobo.

Epílogo

-Cuidei de tudo desta vez, mamãe. Limpei o sujeira e joguei os restos no incinerador, onde eu já tinha colocado o vigia antes, lembra? Não vou mais pisar na bola. Prometo.
-Claro que não, minha querida. Foi só uma vez, eu sei. Você é bastante esperta. Durma, meu anjo, que amanhã tem aula.

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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