E eis que tive um sonho.
Neste sonho minha barba, que já está ficando grisalha, havia se tornado quase completamente branca. Cabelos há muito não os tenho.
E o filho de meus vizinhos chorava doente há muitos dias, acometido de uma diarreia terrível. As orações fervorosas do pastor que vinha visita-los constantemente não estavam surtindo o efeito desejado.
Não sei se perturbado pelo choro do infante, ou tocado pela sombra de um sentimento prejudicial do qual há muito já me livrara – piedade – busquei a mãe do menino e recomendei que misturasse em tal quantidade de água duas colheres de açúcar e uma pitada de sal e desse ao menino. Desesperada, ela apelaria para tudo, até mesmo para a ciência. E o menino melhorou.
A única conclusão possível do ministro religioso que acompanhava a família, ao saber da história, foi de que eu curara o pequeno lançando mão das artes negras. Uma bruxaria. Uma mandinga diabólica. Como era possível que água, açúcar e sal resolvessem o que apelos sinceros ao divino não haviam resolvido? Havia um dedo – uma pata rachada – do maligno nessa história.

Fui submetido a uma longa investigação que, quando não era tediosa, era assustadora. E acompanhada de perto pelas mídias sociais que, no futuro, haviam substituído quase completamente a imprensa. Por fim, consegui provar, apelando a Deus e beijando a mão do juiz que me julgava, que tudo o que fizera era perfeitamente natural e que, na verdade, eram as orações do pastor que haviam feito o seu trabalho. Elas apenas haviam operado através de mim ao me induzir àquela ideia. Se Deus não quisesse, seria impossível eu curar o menino. Paracelso salvou-se da fogueira usando expediente semelhante quando teve que explicar por que não pegava as doenças de quem tratava, se tudo o que ele fazia era usar o procedimento luxurioso do banho e um ritual sombrio em que queimava as roupas com que atendia os doentes.

Fui liberado. Embora meu nome tenha ficado anotado para futura referência e eu tenha sido advertido a cuidar mais da minha vida e menos da dos vizinhos, pois estaria sendo vigiado de perto, coisas pelas quais, sabiamente, agradeci.

Quando voltei para minha casa, sentia um quase alívio, embora a palavra BRUXO estivesse pichada na porta e eu precisasse de um novo emprego – naquela idade e sem tempo pra aprender um ofício novo – até que o mensageiro me trouxe duas notícias: o menino morrera, após ser submetido a um exorcismo de emergência para expulsar a influência que minha poção do mal tinha nele, e a associação médica local estava me processando por ter praticado medicina sem licença.

Acordei assustado. Que bom que foi só um sonho.

Mas porque agora, sempre que sinto cheiro de churrasco, que adoro, de carne queimada, eu começo a ter náuseas?

O mensageiro chegou e acaba de me informar que um grupo de veganos considerou esse comentário sobre o churrasco muito ofensivo. Farão algo a respeito. Talvez um processo.

Texto de: Luiz Hasse

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