Donato ficara no bar um tempo além de todos os outros presentes, terminando a sua bebida e conversando com o dono do lugar. Era recém chegado naquelas paragens. E ao estranhar o fato de que todos, naquela noite quente, seca e clara, iam embora tão cedo, recebera a seguinte explicação:
– É noite de Lua Cheia, e o lobisomem anda solto. Já matou galinha, ovelha e cachorro. E quem encontra ele corre o risco de levar uma mordida ou arranhão e compartilhar a sina.
Donato rira dessas bobagens, dissera que não acreditava. Mas, ao sair, por estar sozinho, foi advertido:
– Sei que portas um revólver. Mas não adianta atirar no medonho diretamente. Se o vir pela frente, aponta pra sombra, antes de puxar o gatilho. Ou a bala desvia.
E ia Donato pela trilha solitária, com a Lua Cheia brilhando e prateando os campos, quando, ao passar por uma tapera abandonada, de cuja antiga cerca restavam apenas uns moirões, ouviu um ronco alto, e depois um rosnado, que o colocou em alerta.
E pela frente lhe apareceu o bicho. Alto como um novilho, com uma cara de cão enfurecido, escuro e esguio como uma sombra, desafiador e sinistro.
Donato sacou do revólver, sabendo com um olhar que aquilo não era um simples cachorro do mato, e abandonando a descrença. E quando a coisa avançou pra ele, seguiu o conselho que lhe haviam dado e apontou para o lado, para onde a sombra da besta se projetava.
A criatura ganiu e rolou no chão. E quando gemeu mais alto, tinha voz de homem. Verificando com cuidado e distância, o atirador viu que era um homem agora. Nu e com uma mão sangrando, faltando-lhe alguns dedos. Correu a socorrê-lo e, com um lenço, ajudou a estancar o sangramento.
– Obrigado. – disse o lobisomem – Me acertando com essa bala e me tirando um pedaço fora, você me desencantou. Agora sou gente de novo. Espere aí onde está que vou lhe buscar um presente.
E se colocou em pé, correndo em seguida pelo campo. O outro nada disse, mas achou estranho uma gratidão tão súbita. Para tirar a prova, tirou a própria capa e chapéu e colocou sobre o moirão mais alto, se escondendo na tapera e observando.
O lobisomem voltou vestido e com uma atadura melhor, por um caminho diferente, com passos silenciosos e olhar matreiro. E quando viu o vulto da madeira disfarçada de homem no escuro, sacou de seu próprio bolso um revólver e meteu-lhe três tiros pelo que julgava serem suas costas. Ao ver que não caia, arregalou os olhos de medo e correu de volta por de onde viera.
Donato saiu de seu esconderijo, pegou a capa com três furos de bala, recolocou o chapéu e foi embora daquelas paragens.
Pois o lobisomem, se puder, não permite que aquele que conhece o seu segredo viva. E a forma humana também serve para o ofício de matar.

 

Texto de: Luiz Hasse
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