Capítulo I

Levantei meus olhos da foto sobre a minha escrivaninha. A proposta do homem me deixara intrigado. Ele era um sujeito baixinho e começando a ficar calvo embrulhado num terno barato. Dava pra notar que tinha sido bonito na juventude. Mas aquela cara inchada e olhos injetados indicavam que a fase juvenil de abuso de diversões durara tempo demais. Não escolhi as melhores palavras, pois admito que mesmo alguém experiente como eu estava um pouco perplexo.

– Ãhn… deixa eu ver se entendi… você quer que eu salve o seu filho? Tem certeza?

– Sim. Eu não confio na polícia. Eles podem ter alguém plantado lá dentro.

– Sim, mas… me diga, como você me encontrou?

– Bem, você foi recomendado…

– Por quem?

– Ele pediu pra eu não revelar. Olha, se é questão de dinheiro…

– Não, não. Ainda nem discutimos isso. É uma questão de ética profissional. Meu negócio prima pela honestidade no trato com o cliente. E isso me obriga a dizer que esta não é exatamente minha especialidade. Se a pessoa que me recomendou realmente me conhece ela sabe disso.

– Ela disse que você era o cara certo.

– Talvez ela não soubesse que a última missão de resgate de que eu participei foi um fiasco total.

– O que isso quer dizer?

– Ah, foi uma grande confusão. Não revelo nomes, então nem pergunte. Mas eu fui pago, no preço combinado, e não fui repreendido pelo resultado. O que me choca. Porque terminou com o próprio cliente metendo uma bala na cabeça da pessoa que deveríamos resgatar. E o contrato estabelecia que ele deveria me acompanhar durante o trabalho. Foi mais difícil mantê-lo vivo do que fazer todo o resto, mas pelo menos isso eu consegui. No geral foi um troço desagradável e ninguém ficou totalmente satisfeito. Então, se você quer que o seu filho sobreviva, eu posso não ser o cara certo, mas posso recomendar outros que são. O senhor entende?

– Ok. Vou ser honesto com você.

O que era uma maneira dele dizer que, até então, ele não estava sendo. Reprimi o sorriso. Adoro quando eles caem em contradição. Bons detetives tem o dom de induzir a isso. Ele continuou:

– Que se foda o moleque! Nem é meu filho biológico. Provavelmente é de algum empregado. Nem precisou DNA. O tipo de sangue do guri já denuncia, e o resto da família  finge que não sabe nada. Se é que dá pra chamar aquilo de família. O problema é o velho. O meu finado sogro. Ele empacotou quando recebeu a notícia. Coração fraco. E agora não dá pra pôr a mão na grana.

E silenciou subitamente. Com um ar de vítima indignada. Imaginei que haveria algo mais e tentei ser sutil:

– Continue, por favor. Eu não julgo nada nem ninguém aqui. Especialmente as motivações dos meus clientes. Toda informação é útil num trabalho investigativo. É do seu interesse que…

– Tá bom! Tá bom! – ele me interrompeu gritando –  Fui eu que encomendei a porra do sequestro! Minha esposa se matou uns anos atrás. Era uma histérica. E meu sogro era um sovina. Um filho da puta mesquinho. Mas adorava o neto. E eu achei que era um jeito de tirar algum dele, porque pra mim ele negaria até água no deserto, mesmo que fosse dono do único oásis e eu estivesse morrendo de sede. O problema é que o pessoal que eu contratei… bem… eles não são profissionais como você.. eles são amadores,! São gananciosos e desleais! E agora estão me extorquindo. Ameaçam contar a história toda se eu não transferir tal quantia pra eles. Mas eu não posso ter grana nenhuma enquanto esse bostinha estiver em poder deles e vivo. Ele é o herdeiro, não eu. Parece que eles não entendem isso. E  ponho a mão na nota apenas se…

– Se o menino morrer. Entendi.

– Ei! Eu não estou dizendo pra ir lá e matar o bastardinho! Se ele for resgatado eu ainda sou o guardião legal e podemos resolver tudo. Eu nem tenho como pagar o senhor antes disso. Mas se puder confiar em mim, vai dar tudo certo. Não sou traíra. E eles podem acabar matando ele se a gente não for rápido, no fim das contas!

Eu fiquei tentando imaginar o que ele queria dizer com a gente. Mas não importava. Tratei de corrigi-lo no principal.

– Duvido. A não ser que sejam muito burros. Se o corpo for encontrado, a fortuna vai pra você e eles não ganham nada, porque mesmo que contem a história, você terá dinheiro o suficiente pra comprar a desaparição de todos, junto com suas famílias e amigos mais próximos. Bem, esse caso é diferente do que você tinha me descrito antes. É meu tipo de trabalho.

– Puxa, muito obrigado. É bom que ainda existam umas poucas pessoas decentes no mundo.

– Calma. Não agradeça antes de ter o garoto com você. Como você achou esses caras? Nomes, endereços, família,  amigos, em que zona vão e qual a puta favorita de cada um, o que você souber eu quero saber.

– Eu não sei nem quem eles são. Sabe como é… hoje em dia…

– Sim. Muita coisa por intermediários. São poucos os que ainda conversam com o cliente pessoalmente, como eu. Esse sistema de intermediários uma vez quase me matou. Gosto de olhar nos olhos de quem está pagando por meus serviços. Quero o nome deste intermediário, então, se é só isso que você tem.

– Bem, o nome dele é Manuel alguma coisa. Oficialmente, ele é despachante, mas…

– O Manny? – abri um sorriso – Gente finíssima. Como vão a esposa e os filhos dele? Ele tem um casal que é uma graça.

– Você o conhece?

– Um bom detetive tem que saber quem é quem na Cidade. Ok. Já tenho o que preciso pra começar. Só falta um detalhe pra acertarmos.

O pai do menino remexeu-se na cadeira. Incomodado.

– Sim. Dinheiro. O quanto você vai querer depois?

– Cinco pelo silêncio. Cinco pelo serviço. Dez.

– Dez o quê?

– Dez por cento do que você vai conseguir. Da herança.

– Quê?! Você faz ideia do quanto isso é?! Você sabe quem era o avô dele? Você tá maluco! Tá brincando comigo!

Forçou uma risada. Não acompanhei o gracejo. Expliquei, didaticamente:

– Está saindo barato demais. De posse deste dinheiro, menos um décimo, você não vai ser um homem pobre. No estado em que está agora, nem saberia a diferença. Use a imaginação um pouco. Se você estivesse processando alguém neste valor, custaria uma porcentagem bem maior e você demoraria anos pra receber. Eu cobro menos que o mais humilde dos advogados e termino o trabalho em alguns dias. Se não terminar em alguns dias, é porque morri na tentativa e você nunca vai ter que me pagar nada e nem comentar essa conversa com ninguém se não quiser. Eu jogo limpo. Jogue limpo também e nos entenderemos.

Ele refletiu. O terno barato emitiu sons enquanto ele pensava. Na verdade, intelectualmente, ele sabia que eu estava certo. Mas muita coisa dita ali era um duro golpe no orgulho dele. Acrescentei:

– Olha, eu entendo a relutância em se desfazer de uma quantia dessas. Posso indicar alguém mais barato, se você quiser. Posso indicar até mesmo alguém mais competente, porque sou honesto o bastante pra admitir que conheço uma meia dúzia de homens melhores que eu neste ramo. Mas não dá pra ter as duas coisas ao mesmo tempo. É uma ou outra.

Ele remoeu aquilo por alguns mais alguns instantes. E depois concordou, carrancudo.

– Tá bom. Que seja!

Levantei-me e estendi a mão com um sorriso.

– Feito.

Ele apertou a contragosto depois de se levantar devagar. Minha mão ficou esperando o fingimento de controle da situação terminar. O aperto meio mole de mão suadas, apesar dos braços musculosos, dizia muito sobre todo o resto de sua pessoa.

Não desmanchei o sorriso, apesar disso, e completei, ainda segurando sua mão:

– Sou um homem tradicional. Um aperto de mão entre cavalheiros já firmou nosso trato. Você quer que o menino morra tragicamente durante o resgate?

– Bom, não que eu esteja pedindo por isso, mas se acontecer…

– Vinte.

Ele simplesmente soltou a minha mão sem responder e saiu pisando duro sem olhar pra trás. Dava pra entender como se metera naquele tipo de situação. Algumas pessoas simplesmente não conseguem. Não sabem. Não podem.

Parar quando se está ganhando pra não sair emburrado da mesa na primeira virada de sorte é uma verdadeira arte.

Mas estou acima dessas mesquinharias. Sou um profissional e tenho um contrato a cumprir.

Apanhei minha jaqueta com os bolsos secretos e contemplei o caderninho de anotações. Na saída peguei o endereço atualizado com a secretária.

Manny. Manny. Manny.

Hora de bater um papinho.

 

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Texto de: Luiz Hasse
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