Link do capítulo anterior – pulpstories.com.br/…/poor-little-rich-boy-7

Capítulo VIII – Fim

Contrariando as expectativas o menino me esperava no banco de trás do carro, ao lado de meu novo motorista. Certos serviços é bom fazer com o carro dos outros. Eu pensava que era um menino inteligente, porque, se fosse eu, teria raspado dali com ele.

Mas então entendi, quando tomei meu lugar:

– Meu pai… não se importava mesmo se eu morresse?

– Não.

– Então por que você não atirou?

– Ele não quis pagar vinte. Já estava achando dez caro demais.

Ele começou a chorar no banco de trás. Guri chato! Ele já tinha o que? Doze anos? Treze? Eu não precisei de quinze minutos pra perceber a importância que o pai dele dava pra ele. Como é que pode existir gente tão lenta?

. . .

O sol brilhava através da vidraça suja.

Pai e filho se abraçaram com sorrisos no meu escritório. Sorri como sorriria um herói satisfeito com a vitória sobre o mal ao ver uma cena tão bonita no alívio que se segue ao clímax de uma boa história.

– Que bom que você está bem – disse ele, desmanchando o penteado do menino.

– Bem, agora só falta uma coisa – acrescentei eu virando a palma da mão pra cima.

– Bom… você entende que eu não tenho como te pagar imediatamente… eu preciso, né, lidar com a papelada e tal…

– Compreensível. Mas eu cumpri o trabalho, não foi?

– Perfeitamente. Deve ser o melhor detetive da cidade.

– Hehehe. Obrigado. Se você reconhece, isso encerra meus negócios com você.

Atirei três vezes no peito. Ele caiu e eu terminei de esvaziar o pente na cabeça. Um tapete tão bonito jogado fora. Mas eu forrara com plástico por baixo. Pelo menos não ia estragar o assoalho daquela vez.

Voltei-me para o menino que assistiu a cena com frieza:

– Não esquece o que combinamos.

– Sim. Os dez que ele te deve e mais os dez que eu devo. Assim que eu puder pagar. Vinte.

– Vinte. Assim que você puder pagar. Promessa é dívida. Nesse caso literalmente.

Desceu pelo elevador. Eu ficara com o número do celular de Douglas, que o esperava lá embaixo. Sempre é bom ter um motorista em que a gente confia. Quanto tempo o taxista viveria era incerto. Mas nem todo o mundo paga o dobro do que dá no taxímetro depois de uma noite daquelas. Eu pago. Quem quita o débito em dia sempre consegue crédito.

Só havia mais umas pontas soltas a amarrar.

. . .

E elas foram amarradas bem. Linhas cirúrgicas com nós bem firmes. Ferimento limpo, pontos trocados e bandagem nova. Tudo quase indolor. O doutor era bom de fato no que fazia. Aproveitei pra pegar mais um colete e umas armas novas do depósito. Sempre bom se livrar do que já tá marcado por trabalhos demais. Dá pra acreditar num homem que tem três empregos? Cirurgião, merceeiro e traficante de armas.

Enquanto vestia minha camisa, falei.

– Bem, obrigado. Antes de ir… deixa eu te fazer uma pergunta… alguma das vezes que eu fui operado por você… você fez qualquer coisa parecida com aquilo que fazia antes?

– O quê?

– Aquilo que te custou a licença e te mandou pra cadeia. Você sabe do que eu estou falando. Eu sei do que eu estou falando. E se alguém filmou a deep web inteira sabe. Fez ou não?

Ele começou a chorar. Eles sempre choram nessa hora. Eu não entendo por quê. Nunca vi fazer nenhuma diferença.

– Julio… não… eu juro que não… aquilo era doença… eu tô curado! Eu não faço mais essas coisas! Por favor… por favor…

Tranquilizei-o com meu melhor sorriso.

– Ei, ei. Tá tudo bem. Eu acredito em você. Mas você entende que, como detetive, eu preciso verificar os fatos. Tem algum colega de profissão que possa testemunhar a seu favor nesse assunto? De preferência um que não goste de você e que não mentiria por você. Não pra mim, pelo menos. E que seja um bom médico. De preferência psiquiatra, porque daí eu vou confiar melhor.

– Bom, tem o doutor Candeias… ele…

– Candeias. É psiquiatra também?

– Sim. Por acaso é. Ele mora na…

Atire três vezes. Uma vez no chão, atirei mais três na cabeça. É um procedimento bastante seguro.

Velho safado.

Candeias. Psiquiatra. Era tudo que eu precisava. Com isto, o resto eu descubro.

Eu precisava de um novo médico.

Texto de: Luiz Hasse
Curta a Pulp Stories!