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Capítulo VII

Djou estava com o menino na frente. Segurava uma faca na sua garganta, puxando os cabelos para expô-la melhor. Matilda estava atrás. Segurava a pistola. Estavam seminus. Não era difícil imaginar o que ele interrompera. Pareciam ter vinte anos cada um dos sequestradores.

Julio já estava com sua arma na mão. Os escutara pela porta, antes de abri-la. Esperava algo assim ao ver a câmera de segurança na entrada do prédio. Eles não eram tão burros quanto outros teriam suposto. Poderiam ter atirado pela porta de madeira, se quisessem.

O prédio era quase vazio. Mas se pudessem resolver no silêncio resolveriam. Era melhor para todos que sobrevivessem.

– Volta – disse o rapaz – volta ou eu abro a garganta do moleque.

– Pode abrir – disse Julio.

Djou continuou frio.

Matilda piscou.

A expressão do moleque era apatia pura.

– Eu fui pago pra tirar ele de você. Ele ou o cadáver dele. Tanto faz. O pai dele não se importa. Deixa ele vir ou eu atiro nos dois. Estou usando colete e se a Matilda errar da minha cabeça, ela morre também.

– Ele tá blefando. Mulher, enche esse filho da puta de…

Mas ele não estava. E Matilda sabia ler a alma dos homens maus com que convivia.

Sua mão foi rápida. A coronhada desnorteou Djou e provavelmente o deixaria com dano cerebral se ele vivesse. Mas isso ninguém ia ter como descobrir. Ela puxou o menino para junto de si, tirando-o da linha do tiro antes que Julio disparasse até ter certeza de que ele não se levantaria.

Dando as costas à peneira sangrenta em que transformara um ser humano ele deu um passo para dentro do apartamento, mas ao sair da cozinha uma bala ricocheteou no marco da porta a três polegadas de sua cabeça. E ele voltou num pulo, ficando atrás da parede.

– Ei! Calma! Pra que isso?

– Não vou deixar matar o menino! – gritou ela, da escuridão.

– Desculpa. Não sabia que isso era importante pra você. Vamos fazer um trato. Você me entrega ele. Eu levo ele vivo até o pai dele. Pode ser? – respondeu ele, trocando o pente da pistola.

– Não! Não dá pra confiar em você! Você ia atirar mesmo! Eu vi!

– Pelo contrário. É a prova de que dá pra confiar em mim. Eu cumpro as promessas que faço.

– Sai daqui!

– Moça… que chance você tem? Eu só preciso ficar onde estou. E você não tem como sair. Se eu encher o saco de esperar, eu ligo pra polícia e dá no mesmo pra mim. No que eu escutar a primeira sirene pulo fora. O pai dele recebe o que quer, eu sou pago e você vai presa. Não é melhor a gente entrar num acordo?

– Eu não quero que ele morra…

– Ele não vai. Quer dizer… eu não vou matar ele. Prometo. Vem até aqui, apontando a arma pra minha cabeça e solta ele no corredor. Tem um taxista esperando por nós, algemado no volante. Eu estou colocando a chave do carro dele aqui no chão.

Ajoelhou-se, onde ela podia alvejá-lo, com a arma apontada para cima, e depositou os pequenos objetos metálicos. Ela veio devagar. O menino pela mão. Arma em riste.

– Vai – disse ela baixinho para ele.

O moleque correu entre os dois, apanhou as chaves e sumiu na escuridão, escada abaixo. Seus passos ecoando no corredor.

Os olhos dos dois se desafiavam. Julio falou com voz diplomática.

– Até então tudo certo. Agora vamos ver se você é esperta o suficiente pra viver. O que aconteceu aqui?

Ela pensou em disparar. A distância era curta. Ele continuava ajoelhado. Mas não largara sua arma. Era um risco para os dois. Se ele antecipasse o gesto na mais suave mudança de respiração dela seria como jogar uma moeda para ver qual dos dois ia viver. E nessas situações a moeda às vezes cai em pé.

– Um homem chegou no escuro. Disse que tinha uma conta a cobrar do Djou e encheu ele de bala.

– O Djou algum dia sequestrou algum menino?

– Não. Era um pé-de-chinelo que fazia assalto pequeno e entregava droga dos outros.

– Você viu o homem que matou ele?

– Não. Tava escuro.

– Nem tentou defender o marido?

– Ele não era meu marido. Só um traste que me comia e me batia. E eu continuava junto porque não tinha escolha. Ele podia me matar ou matar a minha mãe se eu tentasse ir embora.

Júlio percebeu as equimoses naquelas pernas e braços bonitos. E olhou para o cadáver no chão. Não havia raiva por ele e nem compaixão por ela. Mas falou, com alguma admiração.

– De um sobrevivente pra outro, você é boa. Vai longe, se não der azar. O garoto vai ficar bem, não se preocupe.

– Só vai embora.

Ele ficou de pé e caminhou até a saída do apartamento de costas pra ela.

Ela o viu desaparecer pelo marco da porta.

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Texto de: Luiz Hasse
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