I

Um distante brilho no céu antecedeu o pouso da nave. Era a cintilação que ocorria cada vez que um veículo deixava o hiperespaço para entrar em condições normais de espaço, tempo e realidade. Poucos instantes depois, o corpo metálico e discoide baixou até o porto que se erguia trezentos metros acima das mais altas árvores da selva do planeta Gorak. Atmosfera respirável. Um sol. Três luas que tornavam as noites suavemente claras. Dia e ano de duração aproximada da Terra. Presença de água e nutrientes compatíveis com a vida humana. Potencial para ser um paraíso.

No porto, o velho oficial de cabelos grisalhos, acompanhado de dois jovens soldados, recepcionou aquele que ia substituí-lo.

O comandante Andro, o mais jovem oficial do Império Terrestre, olhou para o velho guerreiro na sua frente, e talvez tenham sido os seus olhos demasiadamente abertos e brilhantes, mas o fato é que ele teve a impressão de que o outro era maluco.

O cumprimento militar tradicional foi feito, seguido de um aperto de mão cortês.

– Bem-vindo a Gorak, comandante. Não posso dizer que vai adorar o lugar, mas espero em Deus que consiga suportá-lo até a aposentadoria, pois você não sai daqui antes disso.

Cinco minutos depois, estavam no complexo militar. Um conjunto de quatro torres circulares ligadas por passarelas fechadas e tubos de transporte rápido. Lá dentro, a maior parte das salas eram vazias, incluindo alojamentos e salas de exercícios. O efetivo total era de apenas cinquenta homens.

Conforme Orio, o oficial que agora deixava aquele lugar após quarenta anos, lhe explicava:

– Quando a base foi construída, cem anos atrás, esperavam que fosse necessário um efetivo maior. Por isso ela é tão grande. Também esperavam problemas com os gronkas, mas as duas coisas estavam erradas. Não só os gronkas são pacíficos e se importam muito pouco com os minérios que extraímos aqui, como também fazem todo o trabalho para nós em troca de ninharias. Esse é o principal motivo pelo qual não existem máquinas mais complexas que um escavador manual para o trabalho aqui. Um punhado de brinquedos para os gronkas é muito mais barato. Tecnicamente nada disso é problema nosso. Estamos aqui para assegurar a paz e a ordem do Império Terrestres, mas sabemos como são as coisas. Os interesses da Companhia de Mineração são os interesses do Império, lembre-se disso.

– Parece ser um trabalho bastante fácil. Perdoe a franqueza, mas não consigo compreender sua declaração quando eu desci da nave.

– Ah, meu rapaz… Já ouviu aquele ditado sobre mente vazia ser a oficina do diabo? Você não sabe o quanto uma mente pode ficar vazia aqui. O tédio. O tédio é um dos piores inimigos aqui. Raramente chegam novidades, mesmo da terra. Praticamente não há diversão. Sabe que, a essa distância, a hipernet não funciona? Então até mesmo conversar com seus amigos distantes é um processo lento, por trocas de mensagens gravadas enviadas pelo transporte que chega, no máximo, dez vezes por ano. Um homem são pode enlouquecer aqui, meu rapaz. Venha, vou lhe mostrar uma coisa.

E saiu da sala onde estavam, errando pelos corredores num passo firme e apressado. Andro seguiu-o até um pátio de exercícios com aparelhos deteriorando-se aos poucos. E então ele gritou:

– Enki! Enki! Há um homem aqui para vê-lo!

E de trás da sombra de uma torre de treino de escalada, Enki surgiu.

Andro soube que se aquele encontro, aquela aparição súbita, tivesse ocorrido na selva, ou então sem que a presença do alienígena fosse anunciada pelo oficial mais velho, ele simplesmente teria sacado a pistola e disparado.

Enki tinha o tamanho de um homem, e a forma geral de um. Mas todo o seu corpo nu era recoberto por uma espessa pelagem castanho-escura. Sua boca com maxilares proeminentes era decorada com presas superiores e inferiores de, pelo menos, o comprimento de um dedo, encimada por um nariz diminuto que lhe dava uma aspecto canino. Havia três pequenos chifres cônicos em sua testa e as pontas de seus dedos das mãos terminavam em garras grossas e afiadas de pelo menos dez centímetros.

– Este é um gronka. O melhor de todos, na minha opinião. É meu amigo desde que cheguei aqui. E meu servo fiel. Se eu pudesse, o levaria comigo, mas o regulamento proíbe. Eu espero que cuidem bem um do outro. Ele não é capaz de falar na nossa língua, mas entende o que dizemos muito bem. E faz mímica. Não deixe que o aspecto o engane. Os gronkas são sencientes como nós e mais inteligentes do que a maioria pensa. Aprendem a usar nossas máquinas para o trabalho e aprenderiam a usar armas, também, se permitíssemos que tivessem acesso a elas. Se a Confederação dos Planetas um dia descobrisse isso, tentaria sublevá-los contra nós. Mas mesmo assim duvido que conseguissem. Eles não tem grandes ambições e os invejo por isso. Enki, busque dois refrescos, um para mim e outro para o novo comandante aqui. O nome dele é Andro e ele será seu amigo.

Num andar rápido e bamboleante, Enki desapareceu.

Orio voltou a falar, num tom de voz que parecia conter uma certa urgência.

– Só há uma regra que você não pode violar, Andro. Sei o quanto as coisas podem ser solitárias e sei das necessidades dos jovens. Mas não importa o que você faça, o quanto se sinta solitário. Não mexa com as mulheres dos gronkas. Eles são super protetores e maus tratos a elas são uma das poucas coisas que poderia levá-los até mesmo à rebelião generalizada. Elas não fazem parte do trabalho. Ficam na aldeia, como rainhas que eles servem, e, por favor, deixe-as lá. Durante o tempo em que estive aqui três soldados cometeram essa imprudência. Dois simplesmente desapareceram após a uma visita a aldeia gronka. Na época investigamos e não concluímos nada. O terceiro foi visto tentando violentar uma delas e seu superior interferiu a tempo e impediu o pior. Mas isso não impediu que o estripassem. Esse nós encontramos na selva, alguns dias depois. O que restava dele esteava em cinco lugares diferentes. Então entendemos o que acontecera aos outros dois. Os gronkas são mais numerosos que nós e não temos muitas armas. Tem uma força fora do comum e aquelas garras podem rasgar aço. Arrancariam sua cabeça com uma mordida, se quisessem. Confiamos na submissão natural deles e nas boas relações que temos até então. Não estrague tudo. Para o seu próprio bem.

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Texto de: Luiz Hasse
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