I

As últimas luzes da vila se apagavam ao longe, enquanto Amaro olhava para o homem à sua frente. Velho, sentado curvado em um pequeno banco de madeira, no interior de uma pequena casa de madeira.
Casa? Seria melhor dizer barraco. Era de uma peça só, com quatro paredes e um teto, feito provavelmente de restos de construção. Mas que paredes! E as coisas que havia penduradas nelas!
Peles, caveiras de animais, garrafas suspendidas por ganchos com líquidos de tons e transparências distintas, uma espingarda no alto, velha como o hábito da caça, e retratos, muitos retratos antigos, pintados sobre fotos antigas, falando de memórias e tempos sem nome.
O homem em si era um espetáculo. A pele curtida pelo sol era quase coriácea, as rugas e o cabelo e barba brancos sugeriam velhice, mas os membros fortes e ombros largos estavam em desacordo.
Amaro era magro, flexível, mas musculoso. Moreno como o velho, mas seus olhos eram mais astutos… e menos sábios.
– Um gato. Você precisa de um gato preto.
– Tá bom, certo… – o jovem repetiu com uma incredulidade evidente.
O velho bufou.
-Não quer acreditar em mim, não acredita, menino. Foi tu que veio atrás de mim. Falo o que sei.
-Não sou um menino.
-Não, não é. É um homem feito que não precisa de conselho de um velho. Vai-te embora, então.
Amaro surpreendeu-se e, arrependido, emendou:
-Não… não… eu… desculpa. Me fala. Eu quero saber.
O velho bufou mais uma vez. Tirou uma palha de um bolso e um pouco de fumo de outro, e começou a enrolar, calmamente. O jovem forçou-se a ser paciente.
-Foi você que me procurou, não esquece. Quando alguém te pegar, você vai dizer isso.
-Quem é que vai me pegar?
-Não sei. Quer ouvir o fim?
-Claro. Por favor.

II

Enquanto pedalava de volta para a vila, pela estrada deserta naquela hora tardia, Amaro decidia se acreditava ou não. Normalmente, ele não seria capaz de acreditar, assim como não seria capaz de fazer o que o velho dissera.
O bruxo.
Amaro ouvira falar dele havia pouco tempo, embora, segundo dissessem, vivesse nos arredores do povoado há muito tempo. O dono daquelas terras não o expulsava dali nem o incomodava de forma nenhuma, apesar do velho nunca ser visto trabalhando como os outros, nem em plantio, nem em colheita, a não ser para cuidar de seus próprios assuntos. Subentendia-se, embora ninguém nunca tivesse ousado dizer isso abertamente, que até o patrão tinha medo dele.
O jovem se tornara homem há pouco tempo, e passara um ano amargo no exército como presente de aniversário. Errando pelo mundo desde que enterrara sua mãe, aos treze anos, única pessoa que fora boa para ele, ele partira para nova viagem depois da dispensa, assentando-se ali naquela fazenda fazia alguns meses.
Considerando-se as perspectivas que tinha na vida, ali não era ruim. Tinha trabalho, é verdade, mas tinha um ou outro dia de folga, e a vila dos moradores, onde lhe fora permitido dividir uma casa com outros dois rapazes solteiros, tinha tudo de que podia se precisar para uma vida humilde, com o mínimo de dignidade. Um teto cujo aluguel era descontado do pagamento, bem como um armazém que consumia quase todo o restante do mesmo.
Não lhe sobrava quase nada. E havia meses em que nem mesmo isso.
Ele podia, se quisesse, ter se acomodado com aquilo. Casar com uma moça da vila, se acomodar e providenciar o mesmo tipo de vida para a sua descendência.
Mas, há muito tempo, desde que a terra acolhera as carnes frias de sua mãe, ele decidira que não seria assim. De um jeito ou de outro, subiria na vida, sairia da pobreza que o estigmatizara desde criança. Se pudesse, enriqueceria, custasse o que custasse.
Tendo visto bastante do mundo para sua pouca idade, se habituara a desejar aquilo que via. E a lembrança constante da injustiça de que tantos que nada haviam feito para merecer o que tinham estivessem tão melhor do que ele, o mordia constantemente.
Não havia lua naquela noite, mas havia estrelas. A estrada era visível como uma sombra pálida no meio das sombras maiores e mais escuras de árvores e arbustos.
E o que o velho dissera tinha algum valor? Se não tinha, porque fora lá escutá-lo?
E onde conseguiria…
O brilho das duas chamas verdes lhe surpreendeu de repente, à frente de seu caminho. O susto foi o suficiente. Tentou frear e girar o guidon ao mesmo tempo… e caiu, ralando os rosto e os braços na terra arenosa.
Tentou erguer-se praguejando, e escorregou. O medo estava começando a se insinuar. O que diabos teria sido aquilo?
O dono dos olhos brilhantes se aproximou.
Pequeno, nada ameaçador, miou, ronronou e lhe fez um carinho.
Era preto. Esguio e negro e como uma pantera. Mas muito menor e sem agressividade nenhuma.
Por um instante, Amaro, sentado sobre a terra, enterneceu-se, e chegou a quase sentir culpa.
Mas aí pensou no que o velho tinha dito. Nas maiores e melhores perspectivas. E no destino. Por que é que ele encontraria um gato preto naquela hora solitária, justamente na noite em que o velho lhe contara aquilo, se não fosse o destino?
E, naquela noite, o seu destino foi traçado.

III

Sexta-feira santa.
No mato escuro, entre as árvores altas, sem qualquer luz além da fogueira que ele mesmo acendera.
Longe de qualquer testemunha.
A lata d’água fervente sobre as pedras. A folha de metal que a tamparia. A pedra que manteria a folha no lugar quando o animal quisesse dali sair.
Animal. Vítima sacrificial. Inocente. Afeiçoado ao rapaz.
Rapaz agora de disposição irredutível. De confiança cega. De coração de pedra.
Essas coisas eram necessárias para a obra que realizaria.
Tão necessárias quando o lançamento da criatura na água fervente.
Gritos, chiados, debater-se, guinchos altos – talvez uma acusação de traição, talvez a dor da confiança destruída, num nível instintivo.
Não duraram tanto assim.
Mas mesmo assim a fervura continuou.

Até toda a carne se desmanchar e os ossos se soltarem uns dos outros.

O velho dissera, e algo ou alguém mais enviara o gato até ele.

IV

– Você ficou sabendo do que encontraram no meio do mato?
– Não. O que foi?
– A Quitéria, mulher do Tião. Não mora muito longe dali. Disse que a noite toda escutou uns gritos horríveis vindo de lá. Disse que parecia coisa do outro mundo. Mas o marido não quis ir ver… não no meio da noite.
– Hehehehe… cagão.
– Você ia, por acaso?
– Eu ia, sim. Por que?
– Por nada, não.
– E o que é que tinha lá afinal?
– Pois é… no sábado, de dia, o Tião foi até lá. Diz que encontrou umas coisas estranhas. Uma lata com um cozido, uma sopa, uma coisa assim, colocada em cima dos restos de uma fogueirinha num buraco cavado no chão. Mas não viu ninguém. E o cozido na lata… cheirava como carne ensopada. Só que o Tião disse que não gostou do jeito que aquilo parecia.
– Qual é o problema? Um andarilho cozinhou para ele um ensopado no meio do mato. Esse tipo de gente tá sempre passando por aí.
– Eu não sei… por que alguém faz uma sopa e não come?
– Tava ruim, provavelmente.
– E os gritos?
– Bobagem da dona Quitéria.
– Eu não sei… dizem que naquele mato, há algum tempo atrás, tinha até leão.
– Leão? Só no circo.
– Leão baio. Puma.
– Então veio um puma e pegou um andarilho que tava cozinhando… e ele gritou? É isso que tu acha?
– Eu não sei. Um puma ia deixar rastro, sangue, ou algum pedaço do infeliz. E o Tião disse que não tinha nada. Mas pode ter sido isso. Só que, se não foi isso… era coisa do outro mundo.
– Não acredito nessas coisas. O que tu acha, Amaro?
Amaro ergueu os olhos do prato de comida a que dedicava sua atenção na folga para o almoço e encarou os dois rapazes com que dividia a casa do vilarejo, como se só agora se desse conta de sua presença, e disse:
– O que eu acho do que? Tava distraído.
– Do que aconteceu essa sexta… a dona Quitéria disse que…
– Ah… não sei nada dessa sexta. Não lembram que eu saí? Fui à cidade, aproveitar meu feriado de Páscoa. Não é sempre que a gente tem essas regalias. Precisava aproveitar.
-Assunto de mulher? – perguntou o outro, maliciosamente.
Amaro apenas sorriu.

Amaro, pelo restante do ano, trabalhou como um burro e poupou cada centavo que lhe sobrou, e pelo começo do ano seguinte também. Cada dia mais quieto, calado, taciturno, mas com um sorriso que volta e meia lhe iluminava os olhos, sem nunca descer para a boca.
Até a outra sexta-feira santa.
Até um ciclo que ele não compreendia bem – e nem precisava compreender – se completar.

. . .

Depois, na frente de um espelho, sozinho, tu coloca um por um na boca.

Vai ter um que, quando tu colocar, vai receber um sinal. Esse é o escolhido.

O sinal vai estar no espelho…

V

Dorotéia saltou do carro e entrou em casa. Respirar o ar puro do campo lhe fazia bem, depois de meses no internato na cidade. A casa de seu pai continuava a mesma. E o seu pai, ocupado com os negócios, mas nunca ocupado demais para lhe buscar na estação, também continuava o mesmo. Ela já era uma moça agora, ele dizia. Ela sabia o que aquelas palavras significavam.
Festas, bailes e reuniões sociais. Ocasiões para que ela conhecesse um namorado do seu nível. Um futuro noivo. Um futuro marido. Um genro que valesse a pena para casar com sua filha única.
– Vou dar uma volta por aí…
– Mas mal chegou! Vamos conversar, menina.
– Conversamos bastante no caminho, pai. Levou duas horas pra chegar aqui. Eu to com saudades dos ares do campo. Não aguentava mais aquelas freiras.
– Tá bom, mas toma cuidado. Tu não é mais uma menina. E nada de ficar de conversa com os peões. Não quero ter que dar um jeito em ninguém que se meta a besta contigo.
– Pode deixar, pai. Eu me cuido. Sua benção.
– Deus te abençoe, filha. Volta antes do almoço. É Páscoa.

Dorotéia, sentada sobre a pedra lisa, mergulhava os delicados pés na corrente suave de água, respirando o ar. Ultimamente se sentia diferente. Renovada. Um mundo novo abrira-se para ela há alguns meses.
Se o pai soubesse, ah, se ele soubesse…
Das fugas noturnas com outras amigas do colégio das freiras, das coisas que havia feito em segredo, nas casas de rapazes das universidades, onde solteiros moravam vários jovens, e se entregavam àquilo que se chamava de “vícios e libertinagem” por ali…
Soubera tomar os cuidados para que nenhum grande mal daquilo viesse. Era travessa, mas não burra. Algumas jovens de sua idade se perguntariam o que o noivo pensaria, quando se tornasse marido no quarto nupcial… mas ela sabia as regras da coisa. Qual o homem que tivesse a sorte de se casar com ela que iria jogar na cara de seu pai que ela não era “pura”? Se não fosse por medo, então por conveniência. Um casamento com ela, pura ou impura, era um excelente negócio para qualquer jovem ambicioso.
Tinha tudo planejado. Normalmente tinha.
Mas não planejou aquela manhã.
A sobra do rapaz se projetou sobre as águas.
Ela saltou e se pôs em pé.
Encarou o moço à sua frente e, por um débil instante, sentiu medo, e lembrou-se de todas as advertências que escutara sobre o que acontece com mocinhas encontradas sozinhas por homens quando não há ninguém para ouvi-las gritando.
Mas o moço sorria, e não parecia nada ameaçador.
– Oi. Meu nome é Amaro. E a senhorita, quem é?
– Eu sou Dorotéia. O que está fazendo aqui? Não devia estar trabalhando?
– É domingo e além disso é Páscoa… de novo.
– Por que de novo?
– A Páscoa do ano passado não passei em tão boa companhia. Daí lembrei.
Ela riu:
– O senhor sabe de quem eu sou filha? O que quer dizer com boa companhia?
– Sei. Você é filha do patrão. Já escutei história a seu respeito. Mas eu vou embora amanhã. Vou pra cidade. Dinheiro guardado e começar uma vida nova. E boa companhia pra mim quer dizer moça bonita, cheirosa e estar sozinho com ela. Mas não se assuste, não vou te fazer nada, se você não quiser.
Ele era bonito. E a cada palavra, chegava mais perto dela. Havia um magnetismo diferente em seus olhos. Algo que a fazia se sentir como um passarinho hipnotizado pelo olhar de um gato.
E ela gostava.
Ele a beijou.
Ela rendeu-se.

VI

Alceu contou o dinheiro uma vez e conferiu mais duas. Estava tudo certo, dentro dos conformes. Ser dono de uma pensão dava mais trabalho do que parece à primeira vista.
Você não podia confiar nas pessoas. Simplesmente não podia. Felizmente, ele tinha um tino pra saber quem era mais desconfiável que os outros. E o rapaz que se hospedara ali aquela noite não era nem um pouco confiável. Dava pra ver pelos olhos.
Ele viera do campo. Muitos vinham. Lá o emprego diminuía e na cidade ele aumentava. Também era verdade que trouxera o dinheiro adiantado pra três semanas de estadia. Mas tinha algo, algo que Alceu não podia precisar. Se conhecesse o termo, o dono da pensão chamaria de sexto sentido.
Colocou o dinheiro na caixa, e passou os olhos pelo seu escritório, como chamava aquele cômodo com um espelho, uma escrivaninha e um sofá onde se deitava para pensar na vida às vezes – ou então cobrar o aluguel de forma diferenciada a alguma moça bonita que não tivesse como pagar em dinheiro – e deu um pulo.
Havia alguém ali com ele! Vira um vulto pelo espelho.
Olhou para trás, puxando a gaveta onde seu revólver era guardado.
Não havia mais ninguém.
Olhou no espelho novamente. Nada.
Com a pulga atrás da orelha, checou embaixo do sofá, atrás das cortinas puídas, escutou embaixo da porta. Nada.
Nem um som.
Apenas a inquietante sensação de estar sozinho.
Temeu pela própria sanidade, também não conhecia o termo paranoico, mas o teria usado, em autorrecriminação, se soubesse.
Foi até a caixa e não pode evitar contar o dinheiro mais uma vez. Estava tudo lá. Fechou a caixinha de madeira, passou a chave pela sua fechadura pequena e colocou a caixinha na escrivaninha. Puxou a gaveta, abriu o compartimento secreto atrás dos papéis inúteis – os mesmos há anos – e colocou a caixinha lá. Depois fechou e chaveou a gaveta. Baixou o tampo da escrivaninha e passou a chave nele também.
Deu mais uma olhada no cômodo e, ao principiar sair, apagou a luz. Teve mais uma vez a impressão de ter visto algo. Algo medonho.
Acendeu a luz… e nada.
Saiu.
Fechou a porta e passou a chave na fechadura desta também.
Foi para o quarto e trancou a própria porta, dormindo aquela noite com o molho de chaves na mão.

– Arruinado! Arruinado! – choramingava, à beira das lágrimas, na manhã seguinte, na presença do policial que lhe colhia o depoimento.

O segundo policial conversava com Dona Emengarda. Velhinha que raramente saia de sua cadeira de balanço na sala de estar da pensão, mesmo altas horas da noite. Tinha algum tipo de entendimento com Alceu, o dono do lugar, que lhe permitia ali ficar, mesmo não tendo com o que pagar a estadia e as refeições. Que tipo de entendimento, ninguém sabia, pois o fato é que Alceu não era homem de fazer caridade.

– Eu vi, sim, seu moço. Vi o dinheiro ser roubado. O ladrão passou pela minha frente.
– E como era o ladrão, dona?
– Ah… eu não vi ele… não dava pra ver…
– Mas se viu o dinheiro sendo roubado, como foi que…
– Não dava pra ver. Não tem olho de homem que enxergue, nem fechadura que homem faça que prenda ele. Vocês não vão pegar esse ladrão. E se pegarem, ele foge. Ninguém mais tranca, ninguém mais prende, ele vem e vai como quer, e ninguém vê.
– Hmmm… entendo. A senhora pode dizer, então…
– Eu vi a porta do escritório abrir e ouvi ele pegar a caixa. Depois ele passou por aqui e saiu pela porta da frente.
– Certo… e a senhora diz que não viu ele?
– Não vi, porque não dava pra ver. Mas vi a caixa passando no ar, segurada pelas mãos dele. Só que mesmo a caixa ia ficando mais sumida enquanto ele carregava. Acho que lá na rua já não dava mais pra ninguém ver ela também. Nem ela e nem o brilho dos olhos. Brilham que nem os de um gato.

Sem sequer agradecer, o policial se levantou, encontrou com o outro no corredor da pensão.
– E aí, chefe? O que a vitima falou? Porque a velhinha tá caduca, não diz coisa com coisa…
– A vítima não tá muito melhor, não… disse que o escritório tava trancado, que dormiu com a chave nas mãos, e não tem sinal de arrombamento no lugar. E mesmo assim insiste que alguém entrou e pegou o dinheiro. Culpa um moço que se hospedou ontem e tá sumido desde a madrugada.
– Alguém conhecia esse rapaz?
– Ninguém. Uns outros viram ele. Disseram que era forte, alto, moreno. Bem novo. Só conversou com o dono da pensão, que diz que não sabia nada sobre ele. Só que, se foi ele, ele tinha as chaves, mesmo o dono jurando que nunca fez cópia.
– Sabe o que eu acho? Isso é caso de amor que terminou mal. A nossa vítima aqui, esse senhor, devia ser chegado num mocinho fortão…
Os dois riram, baixo, mas não tão baixo quanto deveriam, de um roubo que, como tantos outros, nunca seria solucionado.

. . .

– Não, senhor. Eu mesmo confiro o dinheiro do caixa. Eu também desconfiaria de uma das funcionárias. Mas ninguém tem a chave daqui, e eu sou sempre o último a sair, depois de conferir tudo. Me acalmar? Como me acalmar? Como eu vou pagar os fornecedores? Eles vão a juízo, eu sei que vão.

. . .

– Eu tenho o sono bem leve. Eu acordei com passos na escada. Acendi as luzes, pensei em chamar a policia, mas não tinha ninguém. Olhei várias vezes. É claro que não dei a combinação do cofre pra pessoa nenhuma!

. . .

– Meu marido disse que viu… eu não vi nada… mas ele disse que viu… era um homem muito sensível… muito assustado… e disse que viu… gritou Olha lá. Olha os olhos dele. Ele me amava muito. Acho que avançou pra cima pra me defender. Achou que ele queria alguma coisa comigo… e então… e então… eu só vi a faca aparecendo… entrando e saindo, três vezes, do meu… do meu marido… Como é que eu vou saber? Eu já disse que não vi ele!

. . .

Lágrimas por ouro. Lágrimas por sangue.

VII

Quando o carro buzinou na frente do portão da casa do dono daquelas terras, sendo recepcionado por cães que ladravam agressivamente, um rapaz desceu. O patrão não o reconheceu.
Trajava terno. Tinha carro novo. Dentes brancos. Barba bem feita. Cabelo bem penteado. Confiante, não deixava os latidos dos cães o intimidarem. Tinha um sorriso que mostrava que nada lhe intimidaria e uns olhos que desafiavam quem quer que fosse a tentar.
O dono das terras, o patrão de outros tempos, desceu os três degraus que o separavam do pátio, algo desconfiado, e se aproximou do estranho:
– Bom dia, tenho a honra de falar com quem?
– Com Augusto Moreira, moço. Do que se trata?
– Lamento incomodar, seu Moreira. Tô viajando a negócios. E meu carro deu um defeito bem passando por aqui. Achei que não valia a pena perder tempo perguntando na vila e vim direto na casa de onde me pareceu ter gente instruída, enquanto o possante ainda rodava. Tem algum mecânico nas redondezas? O senhor tem telefone pra eu chamar um se não tiver?
O patrão olhou para ele, com uma sombra de reconhecimento.
– Entre. Vamos ver o que se pode fazer. O senhor viaja a negócios, é? E quais são seus negócios?
– Comércio e representações. Gerencio a venda de muita coisa. O senhor tem uma bela propriedade por aí. O que ela produz, se posso saber?

Dorotéia o reconheceu. Ele viu em seus olhos. E também viu medo.
Durante o jantar, a moça o olhou apreensiva várias vezes. Ela agora não era, é claro, uma mocinha. Era uma senhora casada. O marido estava visitando o sogro, na companhia dela. Ele ouviu com indiferença o sujeito dizer o que fazia da vida. Parece um tipo apagado, sem vida, apesar de cordial.
Seu Moreira havia dado a bênção para o casamento se realizar, evidentemente, mas dava pra sentir que o que ele considerara uma boa ideia no passado não era nem um pouco satisfatório hoje. A decepção com o genro era profunda.
Dava para quase adivinhar o que acontecera. De todas as opções disponíveis, Dorotéia escolhera o mais submisso, o mais sem fibra, o com menos chance de enfrentar ela e o pai.
Um cachorrinho.
Em poucas horas de conversa, deu pra notar que Moreira gostava bastante dele. E olhava com tanta desaprovação para o genro que o outro, por mim, acabou pedindo licença para se retirar, pedindo gentilmente para que a esposa o acompanhasse.
Oh, a diferença que um terno, um carro e uma conversinha mole aprendida na alta roda não fazem!
Amaro se levantou, findando a conversa:
– O senhor me desculpe, mas tenho que lhe dizer não. Infelizmente, o compromisso que me aguarda amanhã é daqueles que fazem ou destroem a reputação de um homem e tenho que me por em viagem, mesmo tarde da noite. Obrigado pelo jantar e pela companhia. Tenho que lhe dar boa noite, seu Moreira.
– Se o amigo insiste, assim seja. Mas lembre de passar aqui na volta. Vamos conversar sobre sua casa de comércio. O assunto me interessa. Não ando especialmente satisfeito com o sujeito que administra essas coisas pra mim no presente. Me deixa te acompanhar até lá fora.
No caminho, passaram pela varanda.
Lá estavam Doroteia e o traste com que se casara.
Mas o que era aquilo?
O traste a abraçava, protetoramente, e ela mergulhava o rosto em seu peito, parecia chorar.
Os olhos do marido o fulminaram.
O cachorrinho virara cão de guarda.
– Vim lhes dar boa noite. Estou me retirando.
– Está tarde, não é? – emendou o marido.
– Boa noite. Foi um prazer te conhecer. – acrescentou Doroteia, engolindo o choro e compondo-se com a velocidade de que só as mulheres são capazes.
– O prazer foi todo meu.
Despediu-se dos demais com um sorriso e boas maneiras, voltou até seu carro e partiu.

. . .
À luz do painel, com o carro parado na estradinha, Amaro lia o bilhete que Doroteia deixara sobre o banco do motorista.

Amaro,

Viu?Ainda me lembro do teu nome. Sei quem você é e sei que o que nós tivemos deve ter sido especial para você. Foi para mim também. Não tenha dúvidas.
Estou escrevendo com lágrimas nos olhos enquanto vocês três conversam.
Mas entenda bem o que vou dizer, não tenha ideias erradas:
Eu amo meu marido. Estou feliz com ele. Ele sabe que já tive outros homens, mas não se importa. É um homem especial. Diferente. Me trata como nenhum outro me trataria. Não quero destruir tudo de bom que tenho, mesmo o papai não gostando muito dele.
Mas tenho medo que você tenha vindo aqui atrás de mim. Se é esse o caso, esqueça, Amaro. As brincadeiras são coisa do passado. Posso não ter casado pura e virgem, como se esperava que eu fizesse, mas agora que sou uma mulher casada, quero levar as coisas a sério. Nunca tive amantes e não pretendo ter.
Fico feliz que você tenha subido na vida. Deu pra perceber que subiu. Aproveite. Encontre alguém que lhe mereça.

Seja feliz,

D.

Amaro desligou o carro, mergulhando em escuridão.
Desceu e tirou o isqueiro do bolso. Acendeu um cigarro e então, sem apagar a chama, queimou o bilhete.
Apalpou o faca no bolso e também aquela outra coisa.
Já usara a faca antes. Não tinha mais mistério pra ele.
Se o problema é você estar casada, Dorotéia. Resolvo isso hoje.
O carro abandonado ali não seria perturbado, ele sabia.
Era perto demais da casa do velho bruxo.
Ainda estaria vivo? Quem sabe?
Começou a caminhar pela estradinha, no sentido oposto.

Havia um pouco de lua naquela noite, assim como havia estrelas. A estrada era visível como uma sombra pálida no meio das sombras maiores e mais escuras de árvores e arbustos.
Sem motivo algum, lembrou-se da advertência do velho, sobre o dia em que alguém o pegaria… mas quem o pegaria? Quem o pegaria quando não havia, nas palavras do mesmo velho, olhos de homem que pudessem lhe ver nem fechadura, tranca ou corrente feita por homem que pudessem lhe prender?
O brilho das duas chamas verdes lhe surpreendeu de repente, à frente de seu caminho, após uma curva enganadora entre dois aglomerados de árvores. O susto foi pequeno. Ainda assim, tropeçou nos próprios pés e caiu, ralando o traseiro e esfiapando a calça.
Tentou erguer-se praguejando, e escorregou. Não sentia lá muito medo, mas algum medo sempre há, mesmo para os mais tarimbados nos modos da noite.
Ele se preparava para enxotar o gato com um chute, assim que ele estivesse próximo.
Mas a escuridão confunde as coisas e, assim como o medo, a superconfiança cega.
Não era um gato.
E não havia ficado parado à sua frente. O brilho dos olhos desaparecera, restando apenas escuridão.
Fugiu. Não ficou parado como…
Não. Não ficara parado. Tampouco fugira.
Ele sentiu, mais do que viu, a coisa ao seu lado. Reentrara nas árvores e o espreitava de lado.
Os olhos brilhavam, é verdade. Refletiam palidamente a luz da lua. Mas eram maiores. Só por estupidez alguém tomaria aquilo por olhos de gato. Eram grandes e tinham entre si a distância que poderia lhes fazer pertencer ao rosto de um homem. Não fosse o brilho. Não fosse o fato de estarem baixos demais, mas ainda muito altos para serem os de uma criatura inofensiva como um gatinho.
Essa coisa… ela… ela tá me vendo! Dá pra sentir os olhos dela em mim! Ai! Ai! Ai! Ai, meu Deus!
Tomado pelo pânico, Amaro deu as costas e correu, pensando, ou melhor, desejando instintivamente, chegar de volta ao carro. Quão longe podia estar? Não havia andado tanto assim. Não podia ser tão difícil escapar.
A criatura veio. Veloz como um raio. Implacável como a vingança. Certeira como o destino. Saltou-lhe sobre as costas, cravando as garras em seus ombros e os dentes abaixo de sua nuca.

. . .

– Eu te falei. Eu te falei que nesses matos tinha leão baio. Olha os rastros! Vamos ter que caçar esse bicho, agora.
– Não pode ter sido onça?
– Dá no mesmo pro coitado. Olha o estado em que ficou. Alguém conhecia ele, será?
– Tão dizendo que jantou com o patrão antes de vir pra cá. Mas por que será que desceu do carro? O que é que ele queria?
– Sei não… disseram pra gente cuidar aqui até a polícia chegar, mas acho que boa coisa não era.
– Por que?
– Tem uma faca na mão. E essa coisa que tem nos dentes dele… é um osso, né?
– Sim, e daí?
– Tamo bem perto da casa da casa daquele velho.
– E daí?
– Daí que o velho ensina fazer bruxaria pras pessoas…
– De novo com essas histórias… uma onça pegou ele e pronto.
– E por que a faca? E por que o osso?
– Ah… ele pegou a faca pra se defender. E mordeu o osso, que tava no chão, quando caiu.
– Sei… e você iria perguntar pro velho se ele sabe alguma coisa, só pra garantir?
– Eu não. E você?
– Também não. E acho que nem o patrão. Tua explicação é melhor, mesmo.

 

Texto de: Luiz Hasse
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