Como é sabido desde sempre um casamento é marcado por hábitos de ambas as partes. Alguns vieram antes da união, outros são adquiridos ao longo dessa. Martins e Linara que o digam.

Martins conheceu o marido da amiga de Linara, aí já marcaram um carteado nas quartas a noite. Pronto, estava nascido o habito “carteado das quartas”. Linara se interessou por um curso on line de escultura, comprou todos os aparatos, agora temos o habito de esculpir em casa.

Entretanto ultimamente Martins sempre tinha assuntos a resolver na sexta a noite. Linara não o questionou nas primeiras vezes em que ele saiu porta afora. Quando isso se tornou de fato um habito, ela perguntou do que se tratava aquelas saídas.

– Tenho que resolver uns assuntos ali no Cruzeiro – ele disse.

Linara começou a desconfiar mais e mais, principalmente porque Martins estava sempre bem alinhado, com uma aparência bem cuidada.

Certa noite durante o jantar, ela resolveu confrontá-lo.

– Afinal que assuntos são esses que você tanto tem que resolver nas sextas no Cruzeiro, Martins?

– Ah bobagem, coisa minha. Relaxa – ele respondeu.

– Martins, não mente pra mim. Ultimamente você tem estado estranho e sempre bem arrumado. Pode dizer a verdade, você tem outra, não é? Ou esta indo ao prostíbulo! – ela acusou já se exaltando.

– O que é isso, Linara. Que injustiça, eu nunca te dei motivo pra desconfiar de mim.

– Eu sabia que isso ia acontecer! Eu sabia… Espere aí. O que aconteceu com a sua barba?

– Oi? Nada! Quer dizer, nada não…

– Como não, Martins! Ela esta bem desenhada, bem feitinha!

– Fui eu quem cortei, te acalma.

– Foi nada! Nunca vi lamina de barbear nessa casa!

– Ta bom! Ta bom! Eu tenho ido na barbearia do tiozinho ali do Cruzeiro.

– Ah meu deus! Eu não acredito Martins! – Linara começou a chorar. – Nesse lugar a vigilância sanitária passa longe, o barbeiro usa a mesma lamina há meses! E quem vai la nem sabe falar direito!

– Opa opa, olha o respeito, os motoristas de caminhão falam o dialeto veneto.

– Português incorreto, Martins! – ela bradou. – Poxa eu te levei naquele barber shop no centro onde tem recepcionista, telão passando futebol europeu, cerveja artesanal, Martins. Lá é tudo limpinho, bonito, iluminado, tudo chique. E você me vai nessas pocilgas, que horror.

– Mas e o preço, Linara? Vou pagar 80 paus numa barba?

– Esse é seu problema Martins. Você sempre se coloca pra baixo, sempre teve uma mentalidade interiorana. Sempre resistindo a se adequar ao futuro, às novas tendências. Por isso que você nunca vence na vida, marido.

Martins ouvia as broncas cabisbaixo para finalmente dizer.

– Durmo no sofá hoje então?

Texto de: Adriano Cardoso

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