A bala atravessou a testa da vítima e saiu pelo outro lado. Ela finalmente parou de se mexer.

O executor olhou para o corpo amarrado naquela cadeira. Enquanto vivo, o homem ali estivera por três dias. Falara tudo o que sabia. Eram pouquíssimos os que não falavam. Depois disso, fora recompensado com uma bala que recebera quase com alívio. Assim eram aqueles negócios. Um alcagueta vivia até dizer o que precisava dizer. Nem um segundo a mais.

O outro, que estava ao seu lado e assistira a tudo calado e impassível, perguntou:

– Bom, como é que a gente vai tirar ele daqui?

– Não se preocupa. Conheço um profissional pra cuidar disso.

. . .

Fernando não era nenhum gênio ou tinha grandes talentos. Mas seu cuidado, perfeccionismo e discrição eram realmente elogiáveis. Ele fazia o serviço com capricho e profissionalismo. Para sua própria segurança, evitava saber qualquer coisa, a não ser o mínimo necessário, sobre os pacotes que carregava. Sua falta de imaginação era algo que funcionava a seu favor. Assim como sua falta de laços pessoais e frieza quase apática.

Seu procedimento era mecânico e variava pouco. Ele os embrulhava numa lona resistente, ao lado de várias pedras. Amarrava o embrulho com destreza e passava outra lona por cima, com mais cordas. Reforço duplo.

E então dirigia até a represa. Cercada por árvores e isolada. Um ambiente bucólico e bonito. Sempre gostara dali, mesmo antes de trabalhar no que trabalhava.

Mas, naquela noite nevoenta, foi à represa pela última vez.

Ao colocar para dormir no fundo das águas aquele corpo, não gostou do que viu. Havia um carro parado na outra margem. Faróis acesos e música alta. Um grupo de adolescentes. Apesar da distância e da escuridão, e de seu próprio automóvel estar longe, teve a nítida impressão de que um deles olhou para ele.

Uma foto, um vídeo, podia colocar tudo a perder.

Aquele lugar estava ficando frequentado demais. Mesmo nas madrugadas.

. . .

Antes que o próximo trabalho viesse, Fernando rodou com seu carro por horas e horas em busca de um novo lugar. Fora da zona urbana, conforme mandava o figurino. E encontrou, a algumas dezenas de metros de uma estrada de terra.

Era um charco imundo. E provavelmente seria um lugar insalubre mesmo que não fosse poluído. Longe de tudo e de todos, exceto por uma indústria química que despejava seus resíduos ali. Mas a parede que estava voltada pra o lugar era sem janelas.

A vegetação ao redor era tão cerrada e espinhosa, e o local tinha um cheiro tão ruim, que dificilmente alguém viria até ali a menos que precisasse.

Observou o lugar por dias antes de se convencer. Crianças não brincavam ali perto nem mesmo quando o sol refletido na água lançava padrões luminosos estranhos no ar. De noite uma névoa especialmente malcheirosa emanava das águas, e não havia luz alguma. Ninguém em sã consciência ousaria se aproximar.

Foi onde depositou o próximo cadáver. Foi precavido. Comprou uma máscara com filtro para circular no local e um barquinho que levava na caminhonete para remar longe da margem, onde presumia que as águas eram mais profundas.

Por um ano, provou-se ser um local melhor que a represa.

Nem um único corpo voltou para a superfície ou foi encontrado de outra forma.

. . .

Batidas violentas soaram na porta naquela noite fria. Fernando morava sozinho e não tinha amigos próximos, mas sabia que, por discreto e confiável que ele fosse, a vida que vivia e os contatos que tinha o colocavam permanentemente em risco. Por isso não atendeu a porta. Silenciosamente ficou em pé, tomou o revólver que tinha no criado mudo em mãos e se escondeu no armário.

As batidas não continuaram por muito tempo. No lugar de esperar serem atendidos, eles colocaram a porta abaixo.

O cheiro nauseabundo inundou a pequena casa de Fernando.

Era o cheiro daquele lugar. Fediam a ele.

E eles também podiam sentir o seu.

Quando a porta do armário foi aberta, ele os viu. Ainda tinham a marcas que os seus algozes haviam feito, mas não houvera decomposição ou corrupção posterior. Pareciam todos frescos. Bem conservados. Recém mortos. Quase vivos. Exceto pelo cheiro que emanavam. Pior que o de qualquer cadáver.

Ele tentou controlar o pânico e atirar. Mas os buracos que as balas faziam apenas os deixaram mais horríveis.

Eles avançaram e o puxaram para fora do armário. Cercaram-no e o despedaçaram com as mãos nuas.

Porque cada um deles lembrava de tudo.

Haviam conversado, trocado histórias e marchavam para a vingança.

Mas, antes de pegar seus assassinos, haviam decidido por consenso ir atrás dele.