Todos os dias ele vomitava em sua própria grama mal cortada, dava pra ouvir ele rangendo os dentes e praguejando contra a vida, dava para sentir seu cheiro de álcool, de suor e de merda, seus cabelos que cobriam seu rosto estavam sempre molhados ou sujos, usava sempre as mesmas roupas, trapos cinzentos sujos de vinho e vômito, ele se tremia todo e não conseguia manter a cabeça erguida, entrava para dentro de sua casa de aparência tão lamentável quanto a dele e gritava de dor e raiva pela manhã inteira até dormir.

Ninguém se atrevia a falar ou olhar para ele.

Pela madrugada andava pelas ruas e colava suas poesias em postes de luz, brigava com a noite e com sua própria existência, eu sentia medo e admiração por aquele homem, nunca conheci alguém com tanta personalidade, um verdadeiro louco, seu desapego social e existencial era algo incrível, sempre tive certo fascínio pela loucura alheia.

No fim da tarde enquanto eu andava pela rua fumando um cigarro, pude vê-lo colando uma folha no poste, caminhei em sua direção, passos receosos, inseguros e silenciosos, ele sentiu minha aproximação e virou-se para mim e arrancou o cigarro da minha boca, correu para sua casa, corria como um macaco, e gargalhava, ele se trancou e começou a gritar. Na folha estava escrito:

‘’Nada é melhor do que cagar de ressaca, bebendo o resto de uma cerveja agora quente, que tivera fodido sua cabeça na noite passada, o cheiro de merda poluí o ar e nos protege de todos os sentimentos puros e cruéis que nos fodem constantemente.’’

Ele era louco, mas entendia das coisas, um gênio da escrita escatológica, talvez…

Caminhei por todo o bairro arrancando folhas de poemas escritos por ele…

Me sentei no sofá, abri uma cerveja e comecei a ler…

Madruguei lendo as poesias de um homem louco, bebendo cerveja…

Não conseguia me conformar com tamanha genialidade sendo desperdiçado, aquele homem escrevia melhor do que qualquer um, ele merecia ser publicado, merecia ter fãs para que pudesse destilar seu ódio sobre eles, merecia ter mulheres e usar roupas caras, merecia uma estátua em sua homenagem, merecia dar o nome a uma universidade, merecia ser considerado o novo Shakespeare ou Jesus Cristo.

Não consegui dormir naquela noite, amanheci bebendo e esperando que ele saísse de casa, de campana na janela embaçada de poeira, bebia cerveja e observava uma aranha marrom tecer sua teia, o sol se pôs e eu acabei dormindo…

 

 

Dois dias depois, depois de muito uísque e algumas prostitutas, voltei a me interessar pelo louco, eu estava bêbado demais para sentir qualquer coisa ou me importar, decidi comprar uma dúzia de cervejas e ir falar com ele, fui até sua casa e bati na porta, vi as cortinas amarelas que já foram brancas se mexerem, não fez questão de abrir, apenas gritou:

— VÁ EMBORA CABEÇA DE MERDA!

— Eu trouxe cerveja!

Ele espiou pela janela e eu levantei a caixa para que ele visse as cervejas, em um segundo a porta se abriu, ele ria e dizia enquanto me empurrava levemente em direção à sala.

— Ó entre, entre, você deve entrar garotão…

A casa simplesmente não era nada mais do que folhas escritas, empilhadas, latas de cerveja e garrafas vazias, apenas isso cercava um colchão velho e uma cadeira que ficava no meio da sala, cheguei a ver ratos e baratas correndo pelo chão de madeira desgastada, seu cheiro era horrível, ele não deveria tomar banho a pelo menos uns 10 anos. Ele apontou com as duas mãos para a cadeira, uma cadeira muito bonita de uma madeira avermelhada e lustrosa sentei nela enquanto ele, se sentou no colchão velho a minha frente, continuou com a cabeça baixa, ele tremia as duas mãos e volta e meia coçava a orelha que já estava em carne viva, rolei uma cerveja para ele e abri uma.

— Então cabeça de merda, o que tu quer? —

— Você é um gênio.

— Eu sei.

— Por que você vive assim?

— Vai tomar no cu.

— Eu escrevo também.

— Foda-se.

Ele mordeu a lata de cerveja e sugou toda a cerveja de dentro em menos de um segundo, os cantos de sua boca começaram a sangrar. Não tinha como falar com ele, por isso, decidi apenas beber e observar matei minha cerveja e abri mais uma e rolei mais uma para ele. Ele ficou sentado com as pernas cruzadas tremendo as mãos, com a cabeça baixa sem dizer nada, não tocou na cerveja talvez ele tivesse dormindo ou meditando eu pensei, antes que eu pudesse me mover ou dizer algo, ele levantou seus braços para o alto e disse:

— Eu vi eles matarem crianças inocentes, EU VI AQUELES FILHOS DA PUTA.

— Quem?

— ELES caralho! Eu os vi!

Não respondi.

Ele tirou o cabelo de seu rosto e revelou seu rosto, mais velho do que eu esperava, parecia ter mais de 70, seu rosto era só osso assim como seu corpo, certamente era o homem mais feio que tivera visto até então, cicatrizes de facas por toda sua face, não tinha um dos olhos apenas um buraco de pele no lugar e o outro onde deveria ser branco era vermelho, pobre homem, eu pensei.

— Filho, o que tu faz aqui? POR QUE FILHO DA PUTA?

— Quem fez isso com você?

— HAHAHAHAHA!

Gargalhou por alguns minutos, enquanto eu bebia, quando parou, mordeu sua cerveja e a sugou da lata. Ele ficou um tempo apenas tremendo e coçando sua orelha direita, dela escorria pus e sangue. Do nada, ele ergueu sua camisa e mostrou as cicatrizes de sua barriga, cicatrizes de 20 anos atrás e de 20 horas atrás, ele abaixou a camisa e disse:

— Então você escreve?

— Sim.

— Me deixa ler.

Entreguei a ele uma folha amassada com um poema que tivera escrito nas costas de uma prostituta de 44 anos na noite retrasada.

Ele se pôs a ler em silêncio, ficou ali mais de 10 minutos, sem dizer nada, apenas com os olhos no papel, lia e relia acredito eu. De súbito, sem motivo algum ele enfiou a folha na boca, e começou a mastigar, ele me olhava e ria e mastigava, eu gritei:

— O QUE TU TA FAZENDO PORRA?

E me lancei em direção a ele, antes que pudesse acerta-lo com um soco, ele sacou um revolver e apontou para a minha cara, eu parei, levantei as mãos e disse:

— Calma aí, calma aí cara!

Ele continuou mastigando, com a arma apontada para mim, depois de alguns minutos, com muito sofrimento ele acabou engolindo o papel e abaixou à arma, ele olhou para mim e disse:

— Me desculpe garoto, mas eu como e cago poesia.

— Cara, tu é louco demais, eu vou embora dessa merda!

Ele me mostrou os dentes, e rosnou, dentes amarelos manchados de tinta de caneta.

Levantei da cadeira e juntei as cervejas que restavam, dei dois passos e parei quando ele atirou de raspão e arrancou um naco de pele da minha cabeça…

— QUE PORRA É ESSA CARA? QUE MERDA, MINHA CABEÇA CARALHO!

— DEIXA A CERVEJA! DEIXA A MERDA DA CERVEJA!

Larguei a cerveja e no chão e corri até a porta, dava pra ouvir a risada do louco, a duas quadras de distância.

Aquilo foi demais para mim, decidi beber até esquecer.

Continuo bebendo, até hoje…