A porta do elevador se abriu e os dois homens escorregaram para fora, silenciosos como gatos. Todo o corredor daquele andar era escuro e fedia. Simão, o mais furtivo dos dois, não gostou do cheiro. Não era exatamente pior que cheiro de mofo, mas era mais estranho.

Observou Diego escorregar até o apartamento que era o destino de ambos e manusear a chave. Haviam obtido de um agente imobiliário que lhes devia favores. Era bom ter amigos que tem medo de você.

Andando atrás de Diego, Simão entrou no apartamento vazio carregando a sacola. Pesava com o produto de cinco roubos que aguardava um comprador no dia seguinte.

O apartamento tinha as janelas e venezianas fechadas. Nenhum móvel. Pintura descascando. Orientavam-se pelas lanternas dos celulares.

– Vamos pra longe da porta. Escolhe um dos quartos pra gente ficar.

Era um edifício velho, habitado em sua maioria por gente velha, e apesar de decadente, tranquilo. Então não convinha chamar atenção. Os roubos já haviam sido ousados. O resto deveria ser discreto. Especialmente o próximo passo.

Diego abriu a primeira das duas portas dos quartos do local e deu um grito. Não pela primeira vez, Simão teve vontade de esbofeteá-lo. Apressado e ruidoso.

– Desculpa… pensei que tinha alguém… tem um espelho aqui!

E de fato tinha. A parede oposta à porta era dominada por um gigantesco espelho antiquado, com uma moldura que parecia ser de ferro. Aquilo dificultava um pouco as coisas.

– Olha isso aqui, Simão… – resmungou Diego – Tem umas letras, mas estão riscadas.

De fato, na parte superior da moldura, caracteres romanos marcavam, numa linha, os números do I ao XIII. E havia um corte lateral, aparentemente produzido por calor, em todos os números até o XII.

Aquilo havia fascinado Diego, que passava contemplativamente o dedo sobre o baixo relevo dos números, sem olhar diretamente para o vidro do espelho. Era o momento perfeito. Simão era rápido e já decidira há algum tempo que não dividiria o produto do roubo com um parceiro barulhento demais.

A faca rasgou a garganta de Diego enquanto Simão lhe tapava a boca. O sangue espirrou e o corpo se agitou. Mas pouco tempo depois, estava tudo acabado.

Sozinho e com um cadáver, Simão se preparava para uma noite de vigília quando a luz o atraiu.

O número XIII brilhava como se o ferro estivesse em brasa. E com a rapidez de um golpe de faca, como se um dedo invisível riscasse o metal incandescente, um traço vertical tomou conta do número.

A superfície do espelho ficou negra, refletindo apenas o cadáver de Diego. Simão sentiu genuíno medo pela primeira vez em muitos anos. Mas não conseguia se mexer, como se seus tendões tivessem se convertido em aço. Embora o cadáver continuasse imóvel, seu reflexo se levantou. Mas mudara. A brancura da pele equivalia à de papel. Os olhos haviam desaparecido, dando lugar a pequenas brasas vivas cercadas por escuridão. E o sorriso rasgava os lábios, indo até as orelhas.

As pernas de Simão subitamente atenderam ao seu comando e ele conseguiu correr.

. . .

– Sim, fui eu que matei ele. E fui que roubei tudo aquelas joias também. Tô me entregando e quero ir preso.

O delegado olhou para o ladrão na sua frente. Confessara absolutamente tudo e com detalhes que poupavam um bocado de investigação.

– Você não sabia a história daquele apartamento, sabia?

– História, doutor, que história?

– Há uns vinte anos aquilo ainda era um condomínio respeitável. E um sujeito matou doze pessoas naquele lugar. Justamente na frente daquele espelho. Foi morto na prisão depois. Ele era metido a praticamente de magia negra. Dizia que estava evocando um demônio para servi-lo e que ele exigia sacrifício. A maioria diria que é só um maluco. Mas você está assustado, não está?

Era visível o medo no rosto de Simão. Mas ele nada disse.

– Bom, ele disse outras coisas na época, o assassino. Que não tinha conseguido completar o ritual. E ainda bem que tudo isso é só maluquice porque, se fosse verdade, e um demônio se manifestasse naquele edifício, sem o conhecimento dos símbolos, palavras e ritos pra manter o controle sobre ele, ele estaria livre para andar pelo mundo aprontando horrores. Podem levar para a cela.

Os dois guardas fizeram Simão erguer-se e o conduziram para fora da sala do delegado. Antes de sair, porém, o agente da lei falou:

– Só uma coisa, antes de ir…

Simão olhou para trás.

– Obrigado.

Os olhos do delegado eram brasas vivas. Sua pele era branca como papel e seu sorriso abria-se de forma antinatural.

Texto de: Luiz Hasse
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