CAPITULO I

Meu carro havia quebrado no meio da estrada, numa noite chuvosa, escura e, embora eu não lembre exatamente qual o dia, era no meio da semana, período em que as rodovias do sul do estado são menos movimentadas. Raramente passava outro carro e, quando passava, passava direto, sem a menor intenção de parar.
Aquela deveria ter sido uma viagem tranquila, e, no meu destino, eu seria aguardado em meu emprego novo: engenheiro numa empresa de grande porte, bastante trabalho, eu acreditava, e nenhuma preocupação financeira pelo resto da vida. Porém, quis o destino que um defeito imprevisível me colocasse isolado no meio do nada e, embora eu entendesse perfeitamente o que ocorrera com o motor, não tinha as ferramentas certas e nem o material certo com que pudesse conserta-lo.
Dos dois lados da rodovia quase deserta, eu via campos cercados, com algum ocasional capão de árvores, e nenhuma habitação visível, além de um velho sobrado em uma coxilha, ao qual se chegava por um caminho de terra ladeado por árvores.
Não estava a fim de chamar um guincho ou coisa assim quando sabia que, com algum material melhor do que eu tinha, poderia facilmente lidar com o problema. Então tranquei o carro, pus minha capa de chuva e abri o grande guarda-chuva negro, com o firme propósito de, no sobrado, onde brilhava uma luz, requisitar o empréstimo, ou mesmo o aluguel, do material que precisava.
Sempre fui um homem prático e avesso a superstições e histórias assombrosas. No entanto, fiquei algo perturbado, naquela noite chuvosa, ao atravessar o caminho barrento ladeado por árvores frondosas, em direção ao casarão. Ele fazia uma pequena curva, imperceptível da estrada que, depois de algum tempo, impedia que se visse o carro ou algo além das árvores e sombras que elas projetavam. O sobrado ficava mais estranho à medida que eu me aproximava, pois, em meio àquela chuva e treva, a semelhança com uma mansão gótica, ainda que em tamanho reduzido, era impressionante. Por várias vezes estive a ponto de voltar, mas o que me demoveu deste intento foi o fato de que o caminho que ficava atrás de mim era totalmente escuro, e a única luz visível vinha da casa. Tive um medo irracional, portanto, de dar as costas à luz e penetrar nas trevas. Algo que, aqui, não consigo explicar muito bem.
Quando estava diante dos portões do pátio, pensando em cães furiosos e em como deveria fazer para chamar a atenção de seus habitantes, um estranho fenômeno ocorreu. Não sei se em meus olhos, meu cérebro, ou no ambiente.

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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