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CAPITULO II

O fato é que, no meio daquela chuvarada, um relâmpago riscou os céus atrás da casa e eu tive a impressão de ver, sobre o telhado desta, a figura de um homem equilibrado, meio agachado, como se me observasse lá de cima, tal qual um abutre. Também acompanhou esta peculiar alucinação o fato de que algum efeito de sombra deu a impressão de que este homem, esta silhueta, tinha asas.

Porém, eu estava em tal estado de excitação que teria corrido em disparada se um segundo relâmpago não riscasse os céus quase que imediatamente mostrando-me o telhado sem ninguém e me convencendo de que aquilo fora apenas uma combinação de meu medo e do ambiente lúgubre que a tempestade evocava. Isto e o fato de que, quando baixei os olhos, havia um homem de verdade diante de mim, postado na beira do portão, que me arrancou um grito breve com sua aparição súbita. Usava um chapéu de abas largas enterrado nos olhos e um poncho de lã sobre os ombros. Não podia lhe ver o rosto. Mas ele falou, com calma e cortesia:
-Entra. Não fica nesta chuva, companheiro, que acabas te resfriando.
Havia algo de sotaque gaúcho em sua voz, ainda que bem menos forçado que na maioria das pessoas que tentam imitá-lo, e um certo toque de erudição, também, como se não fosse apenas sotaque, mas um modo de falar rebuscado e arcaico.
Abriu o portão e me deixou passar. Não havia sinal de cão algum na propriedade. Ele caminhou na frente e abriu a porta. Era um belo pátio, sem dúvida, cheio de árvores frutíferas que pareceria ainda mais belo pela manhã, se houvesse sol, mas a casa estava despencando. A porta rangeu e soltou poeira, como se não fosse aberta há muito tempo, e, no interior do sobrado, tudo o que vi, numa casa que deve ter sido o palacete de algum rico criador de gado do passado, foi uma mesa tosca de madeira, com dois bancos, um fogão a lenha bem velho, e aceso, proporcionando luz e calor, e algumas tralhas jogadas a um canto. O meu anfitrião, cujo rosto eu ainda não era capaz de ver, sentou-se num banco e, com um gesto, convidou-me a fazer o mesmo. Ele mantinha a gola do poncho levantada, a moda de um sobretudo, e o chapéu inclinado para a frente, de modo que parecia que queria evitar a visão de seu rosto a todo o custo.
-Desculpe o incômodo, senhor – disse eu – mas meu carro quebrou e eu preciso de algumas coisas pra consertá-lo. Posso perguntar se o senhor tem…
-Aqui não há nada para ajudar-te nisso, companheiro. Esta casa é mais velha do que pensas.
-Olha, eu posso pagar pelo incômodo, são coisas bem simples…
-Não há nada, já disse! – falou com um certo tom de irritação na voz – E que o senhor não seja destes homens que acham que o dinheiro a tudo compra, pois, neste caso, coloco-te de volta para a chuva neste instante mesmo!
Houve um momento de silêncio, no qual eu deliberei se o meu anfitrião não seria algum louco, pois bêbado, pela voz, clara e bem cadenciada, não estava.
Foi ele que o rompeu.
-Perdoe-me, companheiro, vivo solito, por isto sou rude. Mas ficarei feliz em te oferecer minha casa por esta noite, aqui há calor e podes secar tuas roupas. Lá fora não encontraras outro pouso e nem quem te conserte o carro. Quando sentires sono, posso trazer uma manta de lã aqui para baixo, não te dou nenhum dos quartos pois estão pior do que esta sala. Tens fome? Sede?
-Não, eu agradeço a hospitalidade, mas acho que vou voltar ao carro e tentar fazer ele pegar…
Eu estava com um medo inexplicável do sujeito. E nem sabia ao certo porque. Não era só a estranheza de seus modos, mas também a sensação de que nele havia algo de não muito natural. Algo em seus gestos e maneirismos que sugeria… é impossível me fazer entender. Ele me interrompeu, dizendo:
-Nestas noites, não é bom vagar a esmo. A hora do homem é quando o sol brilha, no meio desta escuridão, é hora de outras coisas. E não é bom para um entrar no domínio do outro. Fica, te peço, pois as noites aqui são solitárias, e eu raramente tenho com quem conversar. Não precisa ter medo de mim. Não quero te fazer nenhum mal. Vivo só, e isto me deixou com modos de bicho…
Tive pena. Ele realmente não parecia querer me fazer mal algum, e, apesar de sua falação estranha, percebi que deveria ser um luxo para ele conversar com alguém. Me sentei diante dele e disse, para quebrar o gelo:
-Essa é uma casa bem antiga, não é?
-Se é. Pertenceu aos Moreira Neves, uma das famílias que ficou rica criando gado, no tempo das charqueadas. Aliás, foi aqui que a dinastia daquela família terminou. Gostas de ouvir umas histórias, viajante?
-Acho que ia ser bom… pra passar o tempo…
Não estava interessado em nenhuma história que aquele maluco pudesse me contar, mas aceitei com medo de que tivesse outro acesso. Ele começou a falar e, pra ser honesto, com o tempo fui absorvido por sua narrativa até o fim do relato, não interrompendo uma única vez. E a história que ele me contou, com suas palavras, foi a seguinte:

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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