Na Catedral da Cidade, há um detalhe arquitetônico tétrico: a base de uma coluna, logo na entrada, é esculpida com o formato de um demônio, como se ele estivesse preso à estrutura, fundido nela. Tem asas coriáceas que se esparramam ao redor da coluna, escamas esculpidas em sua pele de pedra dão uma impressão de impenetrabilidade, mãos providas de garras voltadas para trás parecem sustentar ou agarrar-se à coluna, seu rosto feroz encimado por pequenos chifres tem uma expressão de ódio furioso. Em igual condição, há a escultura de um anjo na mesma coluna, logo acima, a calcar-lhe a cabeça com o pé, como numa posição de vitória ou vigilância sobre um inimigo derrotado ou um cativo. Tem asas elegantes de pássaro, a mão esquerda aponta para baixo, desenhada na coluna, e a direita ergue uma espada, em tom de ameaça, e seus trajes parecem os de um soldado romano. Seu rosto não trai qualquer emoção. O demônio tem os seus olhos voltados para quem entra na Catedral, ao passo que o anjo tem os seus voltados para baixo, como se precisasse manter a vigilância constante sobre ele. A impressão que dá é que, se o anjo remove o pé, o a besta avança sobre os homens imediatamente. Ambas as estátuas tem a altura e proporções de homens.
Numa manhã de outono, esta dupla escultura amanheceu com o cadáver de um homem a seus pés. O sangue, que lhe esguichara dos cinco ferimentos a bala feitos durante a noite, manchara a estátua de baixo, sem tocar a de cima. O homem era Júlio M., jovem herdeiro de grande fortuna, considerado um patrão generoso e amigo leal, e que desposara recentemente a única noiva que já tivera, Helena C., dama da sociedade de rara beleza, charme e vocação filantrópica, cujo relacionamento se estendia desde o princípio da adolescência de ambos.
O delegado encarregado do caso, Artur H, declarou-se estupefato pela falta de pistas do mesmo. Pois não foi possível determinar nem o autor dos disparos, nem a arma, nem localizar testemunhas que sequer ouvissem os tiros, nem explicar o que a vítima fazia ali naquele horário. Como amigo pessoal de infância do morto, dirigiu as investigações com cuidado e diligência, mas nada foi apurado. Durante este período, porém, a proximidade que manteve com a viúva e o apoio que ofereceu acabou por tornar uma amizade já existente em uma relação gradualmente mais íntima.
Consternado com a própria frustração em desvendar o caso, o delegado abandonou a sua função na lei. Mas a depressão em que poderia ter mergulhado no período que se seguiu foi rapidamente curada pela atenção carinhosa de Helena, com quem, passado o período de luto, acabou por casar-se.
Após o casamento, no entanto, a presença de Helena foi sendo cada vez menos freqüente nos círculos que antes freqüentava, e ela mostrou-se, com o tempo, arredia até mesmo às antigas amizades. Seu marido, no entanto, tornou-se uma figura pública conhecida em festas e eventos glamourosos, acompanhado ou não da esposa, e raramente vira-se homem tão feliz, mesmo quando protagonizou um ou dois escândalos.
Foi numa noite de verão, cerca de seis meses após a tragédia, que Helena ligou para a polícia solicitando ajuda, dizendo que o marido, embriagado, ameaçava disparar contra ela. Quando o socorro chegou, encontrou uma cena confusa e até o momento sem explicação. Helena jazia desacordada, mas não morta, de um lado da sala de estar, com um tiro de raspão no braço. Artur jazia morto no outro extremo, com o tórax, abdome e pescoço retalhados pelo que pareciam ser vários golpes de quatro cortes paralelos. Tinha nas mãos uma pistola com silenciador que disparara várias vezes, mas a maior parte das balas estava espalhada pelo aposento como se tivesse se chocado e amassado contra algo rígido, com exceção da que raspara no braço da esposa. A janela da sala estava despedaçada e uma trilha de sangue ia até ela e desaparecei. O primeiro policial a entrar relatou ter tido a impressão de que um vulto se retirava para a escuridão do lado de fora, mas nada foi visto ou encontrado, nem sequer pegadas no gramado.
Helena não guarda qualquer memória do que aconteceu. Ela apenas balbuciou, num breve momento de consciência, antes de ser conduzida ao hospital:
– Os olhos dele… tinha os olhos dele…
Mas mais tarde não se lembraria sequer de ter dito isto. Quanto mais de saber o que significava.
O assassinato de Artur igualmente nunca foi esclarecido.
Mas no dia seguinte a esta segunda tragédia, o sacristão encontrara o demônio de pedra com as pontas dos dedos sujas de sangue, coisa que atribuiu a vandalismo e tratou logo de limpar, e notou que a coluna ao redor da parte esculpida apresentava rachaduras, assim como parecia ter havido um sutil deslocamento da posição do pé do anjo sobre sua cabeça, coisa que atribuiu a sua imaginação, e tratou logo de esquecer.
Sua expressão também parecia um pouco mais humana.
E mais triste.

exto de: Luiz Hasse
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