CAPITULO I

O delegado olhou novamente para os dois jovens que estavam diante dele. Já vira jovens ainda mais novos fazerem coisas horrendas. Já vira crianças ou quase crianças cometerem verdadeiras atrocidades. Avaliou os dois por alguns momentos, ponderando a ideia.
Não. Definitivamente não. Aqueles dois não tinham nada a ver com isso. O quase pânico deles era sincero.
Olhou novamente para a edificação à sua frente. Uma antiga casa comercial. Tão antiga que fora desativada há muito tempo, incapaz de pagar certas dívidas, e o lugar arrematado num leilão por algum proprietário que nunca fizera nada demais com ela a não ser ficar esperando que alguém comprasse a construção ou, o que era mais provável atualmente, o terreno.
A construção em si estava se desmanchando a olhos vistos. Ainda eram sólidas aquelas paredes cinzentas, mas o telhado do andar superior ruíra, a pintura descascara e as janelas, guarnecidas de tábuas de madeira pelo interior, careciam de vidraças.
Pela lateral da construção, uma vez que se passasse pela grade de um portãozinho entre a parede e o muro externo, dava-se a volta até um pequeno pátio nos fundos, onde havia uma porta para o interior da casa. A fechadura estava arrombada, mas com certeza não fora o casalzinho que fizera isso. Já devia ter sido forçada há muito tempo. Não que o dono se importasse, pois não havia nada lá dentro que interessasse a qualquer pessoa.
Exceto o espaço vazio e protegido de olhos curiosos que havia lá dentro. Quantos lugares haveria assim na cidade? Casas e edifícios abandonados, fechados, à beira da ruína, que eram usados para compra, venda e uso de drogas, ou então para coisas piores?
Uma das coisas piores acontecera lá dentro.
O casalzinho adolescente havia ligado para a polícia de seu celular, dera nomes, endereço e esperara a viatura chegar. Motivo: estavam apavorados. Haviam descoberto o corpo lá dentro e começado a entrar em pânico pensando em digitais e exames de DNA que poderiam apontá-los como suspeitos do crime. Eram de classe média e provavelmente andavam assistindo muita televisão.
– Nós só estávamos… sabe… explorando o lugar. Não sabíamos que era proibida a entrada. Já tínhamos visto muita gente entrando e ficamos curiosos…
O propósito dos dois lá dentro era bem fácil de adivinhar. O delegado Zeni ficou se perguntando por que diabos jovens razoavelmente bem nascidos haviam escolhido um lugar sujo, sombrio e perigoso como aquele para o que pretendiam fazer?
Não importava muito, no fim das contas.
Afinal, não haviam sido eles.
Depois dos primeiros guardas, ele fora chamado pessoalmente. O caso era um pouco mais sério do que parecia.
Ele dera a volta depois de pular o portãozinho junto com outros investigadores. Um dos mais jovens tinha saído correndo vomitado na calçada. Não achou tão estranho… ele mesmo havia vomitado algumas vezes no começo da carreira.
O corpo estava lá dentro, num aposento que deveria ter servido como depósito no tempo em que a loja que havia ali funcionava. As roupas estavam num canto da sala. Ou melhor: as tiras de roupas. A vitima, uma jovem de cerca de uns vinte anos, estava imobilizada com as mãos atadas às costas por fita isolante, bem como os tornozelos juntos pelo mesmo material. Era possível que o mesmo instrumento que cortara as roupas tivesse sido usado para retalhá-la.
A primeira coisa visível era a garganta aberta de orelha a orelha por algum golpe cortante, bem como a poça de sangue coagulado no chão que deveria ter esguichado dali. Mas isso era só o começo da festa. Faltavam-lhe pedaços por todo o corpo. No braços, nas coxas, nas nádegas. O abdômen parecia um tanto esvaziado, com a pele frouxa, e havia um corte profundo no lado direito.
O rosto, porém, estava intacto.
Intacto e inexpressivo. Quase o rosto de uma mulher dormindo.
O delegado ficara muito tempo meditando sobre isso. Até que notara que a pilha de trapos de roupa estava encharcada de sangue, embora estivesse bem longe do corpo.