CONTO ORIGINAL

I

O delegado olhou novamente para os dois jovens que estavam diante dele. Já vira jovens ainda mais novos fazerem coisas horrendas. Já vira crianças ou quase crianças cometerem verdadeiras atrocidades. Avaliou os dois por alguns momentos, ponderando a ideia.
Não. Definitivamente não. Aqueles dois não tinham nada a ver com isso. O quase pânico deles era sincero.
Olhou novamente para a edificação à sua frente. Uma antiga casa comercial. Tão antiga que fora desativada há muito tempo, incapaz de pagar certas dívidas, e o lugar arrematado num leilão por algum proprietário que nunca fizera nada demais com ela a não ser ficar esperando que alguém comprasse a construção ou, o que era mais provável atualmente, o terreno.
A construção em si estava se desmanchando a olhos vistos. Ainda eram sólidas aquelas paredes cinzentas, mas o telhado do andar superior ruíra, a pintura descascara e as janelas, guarnecidas de tábuas de madeira pelo interior, careciam de vidraças.
Pela lateral da construção, uma vez que se passasse pela grade de um portãozinho entre a parede e o muro externo, dava-se a volta até um pequeno pátio nos fundos, onde havia uma porta para o interior da casa. A fechadura estava arrombada, mas com certeza não fora o casalzinho que fizera isso. Já devia ter sido forçada há muito tempo. Não que o dono se importasse, pois não havia nada lá dentro que interessasse a qualquer pessoa.
Exceto o espaço vazio e protegido de olhos curiosos que havia lá dentro. Quantos lugares haveria assim na cidade? Casas e edifícios abandonados, fechados, à beira da ruína, que eram usados para compra, venda e uso de drogas, ou então para coisas piores?
Uma das coisas piores acontecera lá dentro.
O casalzinho adolescente havia ligado para a polícia de seu celular, dera nomes, endereço e esperara a viatura chegar. Motivo: estavam apavorados. Haviam descoberto o corpo lá dentro e começado a entrar em pânico pensando em digitais e exames de DNA que poderiam apontá-los como suspeitos do crime. Eram de classe média e provavelmente andavam assistindo muita televisão.
– Nós só estávamos… sabe… explorando o lugar. Não sabíamos que era proibida a entrada. Já tínhamos visto muita gente entrando e ficamos curiosos…
O propósito dos dois lá dentro era bem fácil de adivinhar. O delegado Zeni ficou se perguntando por que diabos jovens razoavelmente bem nascidos haviam escolhido um lugar sujo, sombrio e perigoso como aquele para o que pretendiam fazer?
Não importava muito, no fim das contas.
Afinal, não haviam sido eles.
Depois dos primeiros guardas, ele fora chamado pessoalmente. O caso era um pouco mais sério do que parecia.
Ele dera a volta depois de pular o portãozinho junto com outros investigadores. Um dos mais jovens tinha saído correndo vomitado na calçada. Não achou tão estranho… ele mesmo havia vomitado algumas vezes no começo da carreira.
O corpo estava lá dentro, num aposento que deveria ter servido como depósito no tempo em que a loja que havia ali funcionava. As roupas estavam num canto da sala. Ou melhor: as tiras de roupas. A vitima, uma jovem de cerca de uns vinte anos, estava imobilizada com as mãos atadas às costas por fita isolante, bem como os tornozelos juntos pelo mesmo material. Era possível que o mesmo instrumento que cortara as roupas tivesse sido usado para retalhá-la.
A primeira coisa visível era a garganta aberta de orelha a orelha por algum golpe cortante, bem como a poça de sangue coagulado no chão que deveria ter esguichado dali. Mas isso era só o começo da festa. Faltavam-lhe pedaços por todo o corpo. No braços, nas coxas, nas nádegas. O abdômen parecia um tanto esvaziado, com a pele frouxa, e havia um corte profundo no lado direito.
O rosto, porém, estava intacto.
Intacto e inexpressivo. Quase o rosto de uma mulher dormindo.
O delegado ficara muito tempo meditando sobre isso. Até que notara que a pilha de trapos de roupa estava encharcada de sangue, embora estivesse bem longe do corpo.

II

-Eu sabia que ela tinha sido degolada antes de qualquer outra coisa. Era só ver a quantidade de sangue que havia naquelas roupas. Essa é a parte que me preocupa… o sujeito cortou a garganta dela, e só depois tirou as roupas e fez o resto do trabalho no corpo. Ou seja: durante a maior parte da violência, se é que ainda dá pra chamar de violência depois disso, ela estava morta. E agora você me diz que os pedaços estão faltando.
-É isso mesmo – respondeu o legista – Estão faltando. O corpo não foi só estraçalhado. Levaram várias partes embora. Principalmente músculos, mas também o fígado quase inteiro.
-E não só isso… – suspirou Zeni – Não houve violência sexual.
-Você preferiria que houvesse? – respondeu o legista com um sorriso.
O delegado não gostava do médico normalmente. Considerava ele um ser humano gelado e desagradável. E ouvira falar de histórias não comprovadas sobre o mesmo que o fazia gostar ainda menos. Mas quando ele sorria ou demonstrava qualquer reação emocional, aí então o policial realmente o detestava. Suas piadas eram normalmente grotescas, mas felizmente eram raras.
No entanto, a sua pavorosa falta de empatia e sensibilidade o tornava a pessoa perfeita com a qual comentar certos assuntos.
-O problema é o seguinte: eu vi as fotos na bolsa da moça, que estava debaixo das roupas. Era bonita, tinha um corpo bonito. Estudava educação física na faculdade, praticava esportes. Alguém a sequestrou, levou para uma casa abandonada e prendeu seus pulsos e tornozelos. É algo que leva a gente a pensar num sádico, em alguém que gosta de ver os outros sofrerem. Esse tipo de pessoa não é tão raro, a gente sabe. Tem dúzias de filhos da puta nessa cidade que adoram ver alguém gemer e se retorcer indefeso. Eu trabalho com alguns deles, inclusive, que tenho que manter na linha. Então porque essa pessoa não a estuprou? E porque não a feriu ou causou dor enquanto ela estava viva?
O médico não disse nada. Mas seus olhos disseram ao delegado que continuasse.
-Entende o meu problema? Eu já estaria procurando algum ex-namorado violento obcecado a essa altura, ou então alguém que frequentasse os mesmos círculos e tivesse essas tendências, como um traficante para o qual ela devesse dinheiro. Mas a moça não usava drogas, era um exemplo de saúde e, pelo que eu levantei da ficha dela, um exemplo de vida honesta também. E não se envolvia com tipos perigosos. E ela também não foi roubada. A bolsa tinha dinheiro e todos os objetos pessoais, entre eles um celular bem caro. Então o cara não matou por dinheiro e nem por sexo. Sobra o que?
-Loucura, obviamente.
-Mais um problema. Tu sabes tão bem quanto eu que o psicopata, no mundo real, não é aquela figura fantástica do cinema que a gente vê por aí. Um ou dois podem ser parecidos com aquilo, mas eles são a exceção. A maioria não tem codinomes, não usa máscaras, nem manda cartas pra polícia, nem mata de forma ritualizada. A maioria dos malucos que a gente conhece são uns sujeitos sem eira nem beira que matam por qualquer bobagem e sem pensar direito no que estão fazendo, até que dão azar e alguém pega elas de jeito. Aqui eu tenho um cara que não deixou digitais, que ninguém viu e que não esqueceu nada… ou seja: um cara inteligente, que sabia o que estava fazendo e provavelmente planejou. E tudo que ganhou foi uns pedaços de gente. Eu não queria ter que lidar com um doente desses.
-Ah, sim… agora sei do que você está com medo.
-Como assim?
-A família está incomodando, não está? A família da moça. É gente de bem. E vai ser pior quando ele matar de novo, porque esse tipo de doido não para numa pessoa só já que você não vai pegar ele antes disso.
O delegado ficou ainda mais sério do que antes.
-Você paga a conta hoje, doutor.
Levantou-se da mesa do bar e saiu pisando duro, enquanto o médico ria baixinho e levava a não ao seu copo de cerveja.

III

Noite de lua.
Jacir marchava para a casa.
Estava cansado, mas feliz. As idas à igreja sempre o deixavam feliz.
O cansaço que sentia durante uma semana estafante, a distância que mantinha do álcool a duras penas, quando todos os seus amigos iam para o bar após o trabalho na construção, o jejum que fazia pelo menos um dia por semana…
Tudo era recompensado nos momentos de glória, louvor e cantos na igreja.
O esforço para deixar para trás a juventude desregrada, os exercícios que praticava mesmo quando não estava no trabalho, que lhe deram um corpo forte e saudável de novo, tudo era recompensado naquela alegria das noites de domingo.
E havia o medo, também, excelente estímulo.
Afinal, ele já vira o diabo.
Há sete anos completos, numa noite de desregramento e abusos, em que a quantidade de álcool, entre outras coisas, que havia no seu organismo quase o havia matado.
Ele não conseguia se recordar de suas feições, e nem queria, mas o vira frente à frente, rindo faceiro, com olhos frenéticos e mãos que eram como garras de ferro cravadas na sua carne, tentando arrastá-lo para a fenda escura e fétida que se abria atrás dele, o poço sem fundo, o inferno…
Ele lutara contra o inimigo durante o que lhe pareceram era inteiras, usando as mãos para se agarrar e os pés para se firmar no chão, para evitar ser arrastado. O diabo não falava, só ria e urrava, tentando puxá-lo. Quando lhe pareceu que ia perder as forças, lembrou-se de rezar.
Acordara no hospital. Os médicos com que conversava haviam chamado a sua luta espiritual de “delírio provocado por tóxicos”. Mas ele buscara a igreja, se afastara dos vícios e agora estava no bom caminho.
Qualquer coisa, qualquer coisa para se livrar de ser agarrado de novo.
Era bom que fosse noite de lua, pois no bairro humilde que residia várias ruas tinham postes com lâmpadas queimadas ou quebradas, que a prefeitura não se incomodava em consertar, assim, alguma coisa ele conseguia ver do ambiente ao redor, justamente agora que passava por um daqueles intervalos de escuridão entre duas quadras.
-Meu amigo, pode me ajudar, por favor? – chamou a voz no escuro.
Um carro, parado ali, justamente na parte mais escura da rua, que ele só vira no último instante. E a voz educada, mas poderosa, de um homem. Jacir prestou atenção e viu o dono da voz, do outro lado do veículo.
Não parecia ser bandido, nem nada do tipo. Aliás, parecia-se com alguém bem distinto. Pelo carro, diria que era um dos jovens de classes abastadas que volta e meia vinham ao bairro fazer compras de certas coisas que não se achava no centro ou nos bairros mais nobres… mas o dono da voz não era jovem, e nem parecia viciado em qualquer tipo de droga.
-Pois não? – disse Jacir, desacelerando o passo.
-O pneu estourou quando eu cortava caminho. Não conheço ninguém aqui nas redondezas. Estou com o braço machucado, não posso trocar. Pode me fazer esse favor? Eu pago pelo seu tempo.
Exibiu o braço esquerdo pendendo numa tipóia.
Jacir abriu um sorriso:
-Precisa pagar não, doutor. Que Jesus te abençoe. Vou aí te ajudar.
Deu a volta no carro e se abaixou ao lado pneu dianteiro que o outro indicou com a mão.
Apenas tarde demais viu que ele estava completamente cheio e inteiro. Neste momento, seus olhos pularam para o espelho retrovisor à sua frente, e ele viu as duas mãos do velho projetarem-se atrás de si.
Chegou a erguer-se, decidindo entre lutar e correr, mas as mãos fecharam-se ao redor de seu pescoço, com uma força que ele não conseguia medir e nem suspeitaria.
Ele conhecia aquele aperto.
O velho o fez se ajoelhar de novo, ficando oculto entre o carro com vidros escuros estacionado no meio de dois postes cujas lâmpadas não funcionavam e o muro cercando o terreno do outro lado. Foi apertando continuamente, poderia ter partido seu pescoço com facilidade, mas apenas o segurava e o impedia de falar, respirar e de se levantar. Tentar se soltar, se debater ou atingir seus braços era como tentar mover uma rocha com três vezes o seu tamanho.
Bem diante do retrovisor, ele começou a enxergar o seu rosto de novo… da maneira que realmente era e não sob o disfarce de velho distinto… e agora ele não lhe deixava voz para que pudesse rezar de novo.

IV

O delegado Zeni suspirou. A pior coisa a respeito do Dr. Daniel Cipreste é que ele tinha razão. O assassino tinha matado de novo. E a família da estudante não o deixava em paz mesmo.
Zeni era um homem prático. Não tinha vocação para super-herói e nem tinha essa pretensão. Isso não significava que não fosse um homem dotado de bons princípios e alguma inteligência. Seu trabalho era difícil, e levá-lo com honestidade e sem recorrer a métodos desumanos era mais difícil ainda. Algo digno de nota, com certeza.
Mas ele era realista. Não era um gênio da investigação criminal e a parafernália supertecnológica dos seriados policiais não estava disponível. Ele fazia o que podia.
Diante dele estava o corpo de Jacir Um-Sobrenome-Qualquer. Jacir era pedreiro, solteiro, vinte e poucos anos, morava com a mãe, inválida, que sustentava. Isso fazia da morte uma dupla tragédia. Círculo de relações? Amigos da comunidade evangélica que frequentava e colegas de profissão. Namorada? Não. Inimigos? Não. Um pacato zé-ninguém.
Bem diferente era Fernanda Um-Sobrenome-Que-Valia-Alguma-Coisa. Estudante universitária. Filha de família abastada. Cursando educação física para, provavelmente, ter a própria academia tão logo se formasse, com o dinheiro dos pais. Círculo de relações? Colegas da faculdade. Namorado? Um rapaz que chorara como uma criança ao receber a notícia e estava em outra cidade na noite do crime. Inimigos? Nenhum, exceto, talvez, por algumas colegas fofoqueiras.
Qual a relação entre os dois, fora o fato de Jacir ter sido achado num edifício inacabado de cinco andares, uma obra paralisada há dez anos, longe de seu bairro e de ter sido imobilizado com fita isolante, ter tido a garganta cortada e as roupas, e vários pedaços do corpo, principalmente músculos e a maior parte do fígado retirados?
Aparentemente, nenhuma.
Ele iria ficar dando voltas e quebrando a cabeça com aquele caso, e torcendo pra ninguém da imprensa local ou algum curioso estabelecer a relação entre as mortes pra sempre, provavelmente.
Isso, é claro, se não tivesse dado sorte.
Alguém vira o carro estacionado na frente da construção. Uns garotos do prédio em frente, acordados até as três da manhã jogando algum tipo de jogo maluco com dados e gritaria, no salão de festas, e um deles vira um homem de chapéu e terno, com jeito de senhor de idade, carregando um saco para dentro do edifício. Um saco grande, do tamanho de uma pessoa.
Observaram aquilo curiosos, por algum tempo. Foi só quando viram o velho voltar com o saco vazio e joga-lo no porta-malas que um deles teve o insight de apanhar um celular com a devida câmera digital e registrar aquilo. Daquela vez, a imaginação fértil dos jovens estava certa.
Não tinham conseguido fotografar o motorista nem ver seu rosto muito bem, diziam que além do chapéu, usava um cachecol sobre a boca, mas tinham fotografado com surpreendente nitidez a traseira do carro.
Agora ele tinha uma placa e um modelo.
Isso se chamava sorte.

V

A campainha soou no apartamento de cobertura do pequeno e elegante edifício e, um instante depois, o residente atendeu.
Zeni olhou para o sujeito à sua frente.
Estava agasalhado num roupão e com os pés calçados em pantufas, apoiava-se a muito custo numa bengala e arrastava ao seu lado um suporte com soro conectado ao braço. Seus cabelos eram grisalhos nas temporas e o bigode já se acinzentava também. E o rosto parecia ainda mais velho, mas de um tipo precoce e estranho de velhice. Ele sentiu o calor que irradiava do apartamento climatizado e pensou que seria melhor para ambos que o homem o convidasse a entrar logo.
-Pois não? – disse o homem do apartamento num fio de voz.
-Boa tarde. Sou o delegado Zeni – disse, exibindo a identificação – O senhor é Paulo Figueira?
-Sim, eu mesmo. Do que se trata?
-Posso entrar pra conversar um pouco com o senhor, Sr. Figureira? É sobre o seu carro.
-Vocês o encontraram? Quer dizer… pode, pode entrar, sim. Só um instante.
Em câmera lenta, o dono do apartamento recuou até a sala e se acomodou numa poltrona. O delegado o seguiu e se sentou diante dele.
-O senhor me desculpe, seu delegado, se eu não lhe sirvo nada. Dei folga para a enfermeira esta tarde, pois fazia dias que ela não via a própria família, e estou sozinho, e me custa sair dessa poltrona. Até um penico eu já tenho perto de mim pra não me desgastar…
-Tudo bem, não quero incomodá-lo. Mas o que o senhor tem?
Figueira riu baixinho um riso rouco.
-Câncer. Ainda bem que meu médico não escondeu nada de mim. Assim vou estar preparado pra quando o inevitável acontecer. É uma sorte achar um doutor tão sincero nesses dias. Normalmente, para os velhos como eu, se costuma mentir.
Desconcertado, o delegado falou, ansiando para mudar de assunto, enquanto remexia em uma pasta que trouxera consigo:
-Sinto muito. Estimo melhoras… mas estava aqui pra falar sobre o seu carro. Você…
-Vocês encontraram meu carro?
-Encontramos?
-Ele foi roubado faz umas duas semanas.
Foi como se o mundo do delegado ruísse.
-Mas… isso não está registrado…
-Me desculpe, seu delegado, se lhe causei algum problema. Eu realmente não dei queixa. Sabe…eu não saio desse apartamento faz uns dois meses, na minha condição. Quando me contaram que ele havia sido levado, eu não dei importância, pois eu não creio que eu vá dirigir de novo nesta vida… e não tenho herdeiros pro automóvel. Mas o que tem ele? Vocês o acharam ou não?
Zeni ficou alguns segundos em silêncio, tentando concatenar as idéias:
-Bem… se você não está de posse do carro, nem sabe onde ele está – falou enfim – então é assunto da polícia e é melhor eu não revelar mais nada. Mas gostaria que você me dissesse em que condições ele foi roubado e que reconhecesse se um determinado veículo numa fotografia é o seu carro.
-Sem problema. Bem… esse prédio não tem garagem, como o senhor viu. Eu deixo, quer dizer, deixava, o meu carro numa casa há três quadras daqui. Não gosto de garagens coletivas. Essa casa em que eu deixava o meu carro pertencia a um moço chamado Jonas, que estava desempregado e não tinha automóvel. Então eu pagava um aluguel pelo espaço dele e um dinheiro a mais para que ele trouxesse e levasse meu carro sempre que eu telefonasse pra ele, caso quisesse ir a algum lugar. Mas, há duas semanas, ele me ligou dizendo que a garagem foi arrombada e que levaram o veículo. O que não fazia muita diferença pra mim, mas era uma pena pra ele, porque mesmo sem utilizar, eu continuava pagando o aluguel. Eu estava até pensando em deixar para ele, pois ele vinha cuidando bem, nesses últimos dois anos em que tínhamos nosso trato.
As esperanças do delegado se acenderam novamente.
-Então vou querer saber o endereço da casa deste Jonas, e o seu nome completo, por favor.

VI

A casa estava silenciosa. Luzes apagadas e um ar de tranquilidade, contrastando com o movimento constante da rua do centro em que estava localizada.
Era uma casa de dois andares, mas a casa, propriamente dita, se localizava no andar superior, de madeira. A garagem de alvenaria ocupava todo o andar inferior, e desembocava diretamente na rua, sem pátio ou cerca antes do portão eletrônico da mesma. O portão eletrônico provavelmente era a única coisa moderna na casa, que era antiga o suficiente para ali terem vivido umas três gerações, existindo ainda em meio a prédios mais novos e à agitação crescente da cidade. Uma escada lateral levava até a varanda, no andar superior.
Escurecia no fim da tarde, quando o delegado subiu as escadas e bateu à porta, com a mão no bolso segurando o revólver e dois colegas de profissão vigiando do outro lado da rua, caso fosse necessário agir. Mas, por ora, preferia a discrição. Podia ser que o tal Jonas não tivesse nada a ver com a história e, se tivesse, não queria assustar a presa.
Bateu a porta e esperou.
E, enquanto esperava, perguntava a si mesmo. O que estava acontecendo? Por que alguém estava matando gente e tirando pedaços das pessoas? Era só loucura, conforme dissera o Dr. Daniel? Alguma seita bizarra? Algum tipo de experimento médico ilegal? Ele já vira bastante coisa na vida, mas não imaginava o que podia ser aquilo.
Passou bastante tempo. Ninguém apareceu.
Teve a sensação de que estava sendo observado. Olhou ao redor e entendeu por que.
Devia tê-la visto de canto de olho. Uma mulher de meia idade debruçada numa janela, no prédio residencial ao lado, numa altura pouca coisa superior à dele. Sabe-se lá a quanto tempo estava olhando pra ele, carrancuda.
-Boa noite – cumprimentou o delegado, sem que a mulher respondesse, desconfiada – Pode me dizer se conhece o ocupante dessa casa?
-O que o senhor quer com ele, que mal pergunte? – respondeu, mal-humorada.
Zeni fechou a cara, meteu a mão no bolso da camisa e exibiu a identificação.
-O Jonas ainda mora por aqui?
A mulher pareceu assustada.
-Eu… eu não sei… eu não vejo ele faz umas duas semanas. Acho que viajou. Eu fico fora o dia inteiro. De vez em quando escuto barulho tarde da noite, acho que alguém mexe o carro… mas não vejo ele e nem vejo luz acesa na casa. Tá tudo bem com ele?
Zeni não respondeu. Voltou-se para a porta e agarrou a maçaneta, forçando a fechadura já desgastada com um golpe de ombro. Adentrou uma cozinha escura e pouco mobiliada, sendo a única coisa que impingia um pouco de pessoalidade no lugar era um porta-retrato sobre um microondas de um jovem com uma mulher mais velha, talvez sua mãe ou sua avó, e tateou na escuridão pelo interruptor.
O lugar iluminou-se. Não havia ninguém ali.
Passou para um corredor pequeno, que conduzia a dois quartos também vazios e, no final do mesmo, um banheiro vazio e que cheirava mal. Deu meia-volta e foi á outra ponta do corredor, chegando numa salinha de visitas com poltronas e um sofá puído e um cheiro de mofo pungente, de um aposento que não via o sol há muito tempo. Nesta mesma salinha havia uma escada que conduzia à garagem, no piso inferior.
Desceu a escada na escuridão, mas apertando o revolver com a mão direita. Tateou até achar outro interruptor. As luzes se acenderam e, antes de chegar ao fim da escada, viu o carro em meio a caixas com bugigangas e tralhas velhas na garagem. Tudo acumulava poeira, menos o carro.
Parou e escutou. Silêncio total. Teve a certeza de que estava sozinho. Puxou o comunicador de outro bolso e falou com o escrivão, enquanto subia de volta.
-Moreira, quero dois rapazes pra me fazer companhia aqui dentro da casa e mais dois do lado de fora, junto com os que já estão lá. Tudo à paisana. E outra coisa: faz contato com o juiz e tenta me arranjar um mandado de prisão preventiva pra esse Jonas. Baseado em…
Estava na cozinha novamente, mas entrando por um ângulo diferente, notou a pequena nódoa pardacenta no chão, à frente da geladeira.
Caminhou até a mesma, respirou fundo a abriu a porta. O cheiro foi como um soco no rosto. Ele deu um passo pra trás e virou o rosto, enojado. Seus olhos foram cair sobre o porta-retrato. Era o mesmo rosto da cabeça decepada lá dentro, junto com os outros pedaços, já quase reduzidos a ossos.

VII

Privado de seu veículo, o monstro tinha que improvisar.
Caminhou pela rua por algumas horas até achar a pessoa certa. Teria sido difícil, se ele não soubesse farejar tão bem.
Ele a encontrou na saída de uma academia de ginástica. O suor ainda podia ser sentido sobre a pele que se esticava lisa sobre os músculos flexíveis e as formas graciosas e femininas dela. Ter pego os dois rapazes também fora bom, mas por alguns motivos apenas adivinháveis, não tão fáceis de serem verbalizados ou mesmo elaborados mentalmente, com as moças fora melhor.
Ela caminhou por duas quadras sozinha, confiante e firme. Não distraída e boba, mas como alguém que, acreditava, saberia se defender.
Ele a alcançou na terceira quadra. Ela não o ouviu se aproximar por trás e mal teve tempo de se debater quando ele enroscou um de seus braços nela e apertou o lenço com a mão do outro braço contra seu rosto. O corpo flexível e bonito se afrouxou em seu abraço e ele começou a carregá-la.
Encontrou o táxi dali a mais duas quadras.
-Por favor, depressa – disse ele, ao motorista que o olhou com um misto de espanto e preocupação – Minha filha desmaiou. Está passando muito mal, eu acho.
Enquanto se acomodava com ela no banco de trás, o motorista perguntou:
-Pro hospital?
-Não precisa. Eu sei o que ela tem. É doença de família. Toca pra minha casa que eu preciso dar uma injeção nela.
-Qual o endereço?
Ele hesitou um pouco:
-Eu vou te guiando. Segue por aquela rua.
O motorista dirigiu por um bom tempo, dobrando em esquinas improváveis e fazendo mudanças de percurso. O passageiro parecia estar nervoso e dava uma orientação confusa, tremia.
-Me dá o endereço, amigo. Eu ponho no GPS e assim a gente poupa tempo.
-Não precisa, já chegamos – disse subitamente, ao passarem por um terreno cercado por um tapume de madeira – Quanto lhe devo?
Saltou para fora do carro e remexia nos bolsos, em pé, na calçada.
O motorista olhou brevemente para o taxímetro e abriu a boca para dizer algo que nunca teve a chance de dizer. A mão do monstro emergiu rápida do bolso do sobretudo que ele usava e fez um movimento relâmpago até a têmpora do motorista. O corpo dele convulsionou brevemente, e o sangue que esguichou foi comparativamente pouco. A coisa toda, na verdade, foi silenciosa. E o fato do táxi ter vidros escurecidos para aumentar a segurança impediu que qualquer pessoa do lado de fora tivesse consciência do que se passara.
Todo o nervosismo aparente do monstro sumiu. Ele retirou calmamente a jovem inconsciente do banco de trás. Carregando como se carregasse uma amante adormecida. Olhou para o tapume de madeira, arqueou as pernas e saltou.
Seu corpo se projetou no espaço e seu pé direito calcou o topo da cerca de dois metros, lançando-o por cima da mesma e para a frente. Ele aterrissou em meio a grama do que estava sendo preparado para ser um canteiro de obras e depositou a carga no chão. Ajoelhou-se ao lado.
Sorriu para si mesmo no escuro. Estava cada dia melhor. Talvez dentro de pouco tempo não precisasse mais fazer aquilo. Era irônico, porque…
Bem… porque talvez tivesse começado a gostar.
Tirou do bolso o rolo de fita e executou o trabalho mecanicamente. Tirou a faca do bolso e se preparou para cortar.
Parou de súbito e olhou para o que tinha feito. Sem se aperceber, tinha passado a fita ao redor da boca dela também. Por que fizera aquilo? Nunca fora necessário se precaver contra gritos… ele sempre golpeava a garganta antes, e de surpresa…
Mas… por que não? Em breve ela estaria morta, de qualquer maneira. Que diferença fazia? Seus últimos momentos eram tão importantes assim?
Qual seria a sensação de cortar alguém consciente?
Havia toda a insistência no frescor do material, de qualquer maneira… então, de certa forma, não seria só por diversão.
Nervoso de verdade agora, com verdadeira excitação, ele desviou a faca que estivera apontada para o pescoço e começou a abrir a blusa e a camisa que havia embaixo, cortado debaixo pra cima. Os retalhos das mesmas penderam para os lados, junto com as metades do sutiã, revelando carne jovem, rosada e vibrante.
Ela remexeu-se e resmungou. Começava a acordar. Será que ele teria coragem? Qual seria a sensação? Seria certo misturar algo que fazia por necessidade com… diversão? Diversão era o nome daquilo?
-Larga a faca! – berrou uma voz no escuro – Larga a faca e levanta!
O monstro levantou-se, atônito, esquecendo-se da presa por um instante. Viu as lanternas apontadas para ele. Não viu os rostos por trás das mesmas, mas reconheceu a voz que dera a ordem.
Sentiu raiva.
-Esperto… Esperto demais… – rosnou no escuro.
Alguém mais frio e experiente teria tomado a jovem como refém, mas a fúria o enlouqueceu, ele urrou e correu com a faca erguida, na direção da voz. Um estampido soou, e ele continuou correndo, apesar do sangue que começou a espalhar. Outros estampidos soaram. Óbvio! Eles deviam estar apavorados! Que o temessem! Ele não iria parar!
O outro estava bem à sua frente. O espertinho. O que lhe mandara parar. Ele estava com medo. Dava pra sentir o cheiro do medo dele. No entanto, ele não tentou correr. Ficou onde estava. Segurou a arma com as duas mãos e disparou mais uma vez.
A bala pegou na cabeça. Quase de raspão, mas o suficiente para arrancar um pedaço do crânio e rasgar as camadas exteriores dos seus miolos. Ele perdeu velocidade, girou sobre os próprios pés, tonto e caiu.
-Covardia… – foi a última coisa que disse
Paulo Figueira estava caído sobre o próprio sangue. Já havia sido transformado numa verdadeira peneira humana muito antes de tombar, mas continuara correndo na direção de Zeni até receber um tiro na cabeça. E mesmo assim, caíra devagar, como uma pessoa acometida por uma vertigem, e não como alguém que fora fuzilado daquela maneira.
Trêmulo, Zeni percebeu que sua bexiga havia se soltado. Deu graças pela escuridão do terreno. Tentando recuperar o autocontrole, olhou a ambiente ao redor. Dois policiais estavam socorrendo a moça presa com a fita, que dava pulos de desespero àquela altura, sem entender direito o que estava acontecendo. Se ele estava com medo, imaginou como ela estava.
-Você viu o tamanho do pulo que ele deu lá fora? – um outro comentou, atrás dele.
-Devia estar com a cabeça cheia de alguma coisa bem forte. Olha quantos tiros levou até cair.
Drogado? Seria essa a resposta?
Zeni abaixou-se ao lado do corpo. Agora, ele parecia bem menos com uma pobre vítima do câncer. O braço que emergia da manga que se arregaçara na queda, cuja mão ainda crispava-se ao redor da faca, era um braço musculoso e corado. Os olhos ainda pareciam vivos. Apenas as linhas gerais do rosto, as rugas e os fios brancos eram os de um ancião.
-Vamos ver o que você me diz desse, Dr. Daniel.

VIII

Ocorre em certas regiões do Brasil a lenda do Papa-Figo. Um homem acometido por um mal incurável, algumas vezes referido como lepra, que, para manter-se saudável, recorre à ingestão de fígados de crianças pequenas. Em algumas narrativas o próprio homem se encarrega de capturar as crianças. Em outras, ele tem agentes espalhados pela cidade. Relacionada a esta lenda, existem os relatos sobre os canibais Iagorate, culto que praticava uma forma ritual de antropofagia através da qual alegava ser capaz de prolongar anti-naturalmente sua existência, enganando a morte através do consumo de certas partes do corpo humano, contanto que acompanhadas ou precedidas da ingestão de um composto vegetal, provavelmente um alucinógeno que

A página acabava ali. Parecia ter sido arrancada de uma enciclopédia ou algum livro acadêmico muito antigo, e no verso da mesma havia uma ilustração bastante cruel, representando uma cena indigesta da lenda. No entanto, não tinha qualquer referência que permitisse imaginar qual fosse seu autor ou de que livro viera.
A folha fora encontrada no armário do quarto do Sr. Paulo Figueira, no interior de uma caixa de madeira, juntamente com um pote de vidro com uma tampa de cortiça cheio até a metade com uma mistura de pós castanho, verde e vermelho, em grânulos fininhos. Na mesma caixa havia uma seringa hipodérmica, um frasco de vidro vazio e um outro frasco do que parecia ser álcool, pelo cheiro. Nenhum desses objetos tinha qualquer identificação ou sinal de sua procedência.
Zeni fizera telefonemas. O diagnóstico de câncer era verdadeiro, em estágio terminal. Paulo Figueira tinha sido um homem solitário, mas bem sucedido, cuja fortuna viera principalmente da locação de salas comerciais. Não tinha amigos íntimos ou parentes próximos conhecidos. Os dois tinham isso em comum, o que era uma amarga ironia. E ele realmente havia contratado uma enfermeira para acompanhá-lo em seus últimos dias.
Só que ela não fora localizada até o momento. E provavelmente não seria nunca, pensou Zeni.
Câncer terminal.
E, no entanto, o ex-delegado, que se exonerara naquela tarde do seu cargo na polícia, lembrava-se do pulo que ele dera sobre o cerca de madeira daquele terreno, bem como de quantos tiros levara antes de finalmente cair. E também de um detalhe que, agora, voltava à sua memória. Com que rapidez a porta de seu apartamento fora aberta naquela breve entrevista, apesar do arrastar de pés, do soro e das expressões de dor, cansaço e abatimento.
Era tarde da noite.
Zeni estava sozinho no seu apartamento, sentado à mesa da cozinha, de frente para a porta da frente, contemplando o pequeno pote de vidro transparente com a mistura de pós, que retirara discretamente da sala de provas.
Levantou-se e caminhou até o banheiro. Despejou o conteúdo no vaso sanitário e deu a descarga. Pela manha, levaria o pote até algum terreno baldio, faria uma fogueira, e o jogaria em cima.
Mas não aquela noite. Aquela noite ele tinha que vigiar. Sabe-se lá por quantas outras.
Sentou-se onde estivera antes novamente, repousando a mão direita fechada em torno do cabo do revólver sobre a mesa.
Sobre a mesma mesa, o jornal dizia, em letras garrafais:

MÉDICO LEGISTA ASSASSINADO
CORPO DE ASSASSINO DESAPARECE

Da maneira que podia, o Dr. Daniel Cipreste fora um bom amigo.
Ele imaginava o que teria acontecido com seu cinismo quando…
Não. Ele não queria imaginar.
Ele vira o corpo do médico, retalhado pelo seu próprio bisturi, embora nenhuma parte tivesse sido levada. Afinal, eram as carnes jovens e saudáveis que ele preferia, não é? Precisava, talvez. Precisava para…
Ele se recusava a imaginar. Jogara fora aquela mistura misteriosa do que parecia ser ervas e cascas de árvores moídas não apenas para que aquela coisa que havia sido um homem tivesse acesso a ela de novo, mas também para impedir a si mesmo de, no desespero, barganhar pela vida. Mas mesmo assim era bom não pensar nele abrindo os olhos, saltando da mesa sobre o médico, furioso e compelido pela sua necessidade urgente.
Ele devia ficar alerta, com certeza, mas se pensasse demais naquilo, enlouqueceria.
Ele o derrubara uma vez, poderia derruba-lo de novo. Aí então faria picadinho do corpo e queimaria o que sobrasse, mesmo que fosse para a cadeia depois. Isso, é claro, assumindo-se que já não tivesse ficado louco.
O tempo diria.
Por enquanto, ele esperava.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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