Cotidiano...(3)

Mark e John, sentados de frente um pro outro, bebiam cerveja e conversavam:

— Ninguém entende porra nenhuma John, todos burros, macacos burros.

— Macacos tem personalidade Mark, os putos só transam e se masturbam a vida toda.

— Verdade, o problema da humanidade é esse. — disse Mark, abrindo mais uma cerveja.

— Macacos? — perguntou John.

Os dois riram.

— Não, a falta de sexo. — Respondeu Mark, bebericando sua cerveja.

— Eu acho que é o preço da cerveja. — disse John matando sua cerveja em um gole.

— Falta de sexo e cerveja cara, que mundinho de merda. — disse Mark.

— Como vai a Olivia? — perguntou John.

— Não sei, não falo e nem fodo com ela a semanas, acho que ela ta me traindo com um mexicano, um cara que veio do Porto Rico, usa um cavanhaque estúpido e um chapéu sujo. — respondeu Mark.

— Ele é mexicano ou porto riquenho? — perguntou John, em tom de deboche.

— Como vou saber porra, tudo a mesma merda. — respondeu Mark, terminando com sua cerveja.

— Tem razão… — disse John.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, ambos estavam na décima cerveja.

— Tu pensa em ter mulheres e filhos? — perguntou Mark, abrindo mais duas cervejas.

— As vezes sim, mas eu gosto de ficar sozinho, as mulheres em sua maioria são muito confusas, uma hora elas te amam e em outra elas te odeiam, e as crianças são pequenos diabos que te sugam a vida. — respondeu John.

— Acho que tu deveria virar viado. — disse Mark, em tom de deboche.

— Vai se foder… — disse John.

Os dois riram novamente e beberam suas cervejas.

— Ta escrevendo ainda? — Perguntou Mark.

— As vezes sim, mas ultimamente quando me sento pra escrever, fico horas e horas sem escrever nada, só bebendo. — respondeu John.

— Li tuas coisas John, não entendo nada de escrita, mas tu escreve bem, eu já tentei escrever, mas me sinto muito estúpido, sabe, ficar horas na frente de uma máquina e encher uma folha com um monte de palavras parece idiotice.

— E é, cara, é tudo uma grande idiotice, burrice, perda de tempo, mas hoje em dia tudo é.

— Tem razão… — disse Mark.

O silêncio desconfortável voltará, os dois sentiam-se fora de sintonia, a amizade não era mais a mesma.

— Os personagens, são inspirados em você? — perguntou Mark.

— Às vezes sim, às vezes não… — Respondeu John, bocejando.

Mark abriu mais duas cervejas, as duas últimas e disse:

— Vi no jornal que a lua vai estar vermelha essa noite.

— Por que?

— Não sei nunca me importei com a lua.

— Nem eu, grande merda.

— Eles chamam de lua de sangue.

— É um bom nome.

— Pra que?

— Livro, poema, sei lá, qualquer merda… — Respondeu John, matando sua última cerveja.

Os dois ficaram em silêncio novamente, olhando um para o outro, sem motivo, sem causa, sem palavra, não tinha nada mais a ser dito ou feito.

— Bom, vou indo, quero ver essa tal lua de sangue, depois quero foder Olivia até meu pau assar.  — disse Mark, depois de terminar sua décima segunda cerveja.

— Boa sorte, escreverei sobre isso.  — disse John, rindo sem mostrar os dentes.

— Sobre o que? — perguntou Mark.

— Nada.  — disse John.

John acompanhou Mark até a porta, despediram-se com um aperto de mão.

Mark, um pouco embriagado entrou em seu carro, deu a partida e dirigiu até sua casa naquele fim de tarde abafado.

John sentou-se a frente da máquina de escrever e ficou horas escrevendo poemas.

Mark naquela noite, flagrou sua mulher transando com o porto riquenho.

John naquela noite, escreveu os melhores poemas da história da humanidade.

Mark naquela noite, matou um homem e foi preso.

John naquela noite, teve um infarto e morreu em cima do que tivera escrito.

Nenhum dos dois viu a lua de sangue.