CAPITULO I

O rapaz estava entediado quando notou a luz.

Estava na cozinha da casa do avô, olhando pela janela, contemplando as estrelas que lhe pareciam frias e distantes e que, junto com a Lua, eram a única luz a se estender a perder de vista no descampado.

Era verão, mas felizmente a brisa branda e a distância de qualquer fonte de água eliminavam os mosquitos. Fora isso, havia poucas coisas para comemorar naquelas férias, segundo o “mocinho da cidade”.

“Mocinho da cidade” era como fora chamado algumas vezes no vilarejo próximo das terras de seu avô, onde costumeiramente passava os verões. E de fato é o que ele era.

O rapaz não era um aluno excepcionalmente bom, e, portanto a pretendida faculdade ainda não fora alcançada, mesmo já fazendo alguns anos que o ensino médio fora concluído. Também não tinha emprego ou renda própria, e a medida que ia tentando ingressar no curso, ano após ano com menos entusiasmo, ia mergulhando naquele limbo e naquela apatia de quem percebe que está perdendo de vez a meninice, mas ainda não adquiriu a capacidade de cuidar de si mesmo como homem. E mortificava o desânimo e angústia que cresciam devagar, mas constantemente, com qualquer diversão que estivesse disponível aos seus recursos.

Aos vinte e poucos anos, como muitos jovens urbanos de classe média sem renda própria, ele não tinha muito controle de para onde viajava nas férias. E agora ali estava ele, num lugar que o desconectava de suas fontes costumeiras de distração e prazer.

E o aborrecimento era um peso. Um peso forte.

Foi quando notou a luz.

A princípio, pareceu apenas um reflexo azulado no meio do campo. Mas subitamente brilhou mais forte. Tal qual tivesse luz própria. E depois disso escureceu, deixando uma suave impressão em sua retina.

Um tanto assustado, o rapaz deu dois passos para trás.

Na mesa da cozinha, onde seus pais e o avô terminavam o jantar, sua expressão de espanto foi notada.

– O que foi, Jaime? – perguntou o avô, sobressaltado.

– Nada, não… só acho que vi uma coisa.

– O quê? Tem alguém aqui perto?

– Não sei…

– Como assim?

– Eu vi uma coisa lá fora. Um brilho azulado. Meio reflexo e meio fogo… será que tem alguém com uma lanterna ou coisa assim?

– No campo?

– Sim.

A expressão do avô, que também se contraíra pensando em ladrões, relaxou.

– Ah… não é nada. Não é pra gente.

– Lá vem o senhor com essas histórias… – zombou a mãe de Jaime, filha do dono das terras.

– Meu pai me contava. E ele não era de inventar histórias. Então é verdade.

– O que é verdade, vô? – perguntou Jaime.

O avô preparava um palheiro, pacientemente.

– Bom… você sabe que essa fazenda já foi muito maior… antes dos meus irmãos pegarem a parte deles em dinheiro e se irem pelo mundo, deixando só eu aqui. E depois nenhum dos meus filhos se interessou e eu fico pensando no que vai ser das terras da família depois que eu me for.

O pai do rapaz remexeu-se na cadeira. O velho fazendeiro, já não tão rico como outrora, ainda guardava um certo ressentimento pelo casamento da filha com um doutor da cidade.

O velho continuou, enquanto acendia o cigarro artesanal.

– Mas no passado mesmo, antes do meu tempo, ela foi realmente muito grande e muito rica. Com o dinheiro do gado e mais o que se conseguia nas guerras, o pessoal fazia duas coisas pra se prevenir contra a desvalorização da moeda: ou comprava mais terra ou comprava ouro.

“E naquele tempo, guerra e revolução eram coisas que aconteciam de tempos em tempos com uma certa regularidade, e se esperava que os homens participassem. Não tinha honra quem nunca tinha derramado sangue numa peleja. Ou o seu ou o do inimigo. Contam que quando chegou o tempo de um dos mais ricos donos que esse lugar já teve, antepassado nosso, ir pra guerra, ele juntou todo o ouro que tinha na casa e colocou numa panela grande, de cobre, e foi com o seu escravo mais confiável para o meio do campo, perto de umas árvores que tinham por aqui no passado, e mandou o escravo abrir um buraco na terra para colocar o tesouro em segurança. Quando o pobre diabo tinha terminado o serviço, e estava ele próprio no fundo da vala, o dono, de cima do cavalo onde tinha acompanhado o escravo a pé carregando a panela, deu-lhe dois tiros de pistola que ressoaram por toda a propriedade.”

“Depois, ele tapou o buraco com o corpo do morto e a panela tampada juntos. E partiu pra guerra. Só que nunca voltou. Morreu pelejando e as terras passaram pro seu filho. Já se comentava o que poderia ter acontecido com o escravo e com o ouro. Só que nem um nem o outro foram encontrados nunca.”

“O povo daquele tempo era muito supersticioso. E não queria topar com o túmulo no meio do campo de alguém que morrera assassinado e sem confissão. Pouca gente se arriscava a cavar correndo o risco de perturbar os ossos do morto. Então matar quem tinha cavado o buraco era um jeito de manter o segredo e também as pessoas longe. E assim o tempo passou e dizem que o ouro ainda está por aí, em algum lugar. E no lugar onde ele está, dizem que aparece uma luz em algumas noites do ano. Dizem que quem seguir essa luz encontra o lugar do tesouro, e se tiver coragem, fica dono dele.”

– E você já viu essa luz, vô?

– Já.

O velho falou sorrindo. E continuou:

– Foi a partir desse tempo, dizem, que a fazenda começou a entrar, devagarinho, em decadência, sem ninguém notar. Até que chegou ao estado em que está hoje, onde eu só empato as contas e toco tudo isso aqui praticamente sozinho. Quando eu era novo, eu vi a luz, e segui no campo para tentar achar o lugar porque eu achava que, se achasse o ouro, ia conseguir devolver o lugar pra antiga glória. Mas quando eu me aproximava, de noite, a luz apagava. Como se não fosse pra eu achar. Eu tentei três vezes… e da terceira eu vi uma coisa no campo que me arrepiou os cabelos do corpo todo, mas que não vou contar pra vocês o que era. E aí eu entendi que não devia continuar procurando.

– Acho que passou da hora da gente dormir – resmungou o pai do rapaz – Vamos, amor?

O casal retirou-se da mesa. Jaime ficou a fitar por mais algum tempo avô, meio incrédulo, que se levantou e disse.

– Vem comigo.

O velho e o neto foram até um quartinho menor da casa, onde eram guardadas muitas coisas antigas, como curiosidades que o velho mostrava para visitantes. Ele abriu um armário e retirou dali um quadro velho, que estava guardado com outros, protegido o melhor possível do tempo.

O retrato mostrava um homem jovem, com traje e postura militar, sobre um cavalo.

– Esse aqui era o dono das terras naquele tempo, que foi pra guerra depois de esconder o ouro e não voltou.

O avô olhou para o rosto de Jaime, que contemplava aquilo divertido, talvez até maravilhado.

– Parece um bocado contigo, Jaime.

Silêncio. Parecia que Jaime não ouvira.

– Bom… vamos pra cama. Já passou da hora, como teu pai disse.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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