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CAPITULO II

A luz brilhava forte. E de azul se transfigurava em dourada, dominando a visão de Jaime.

Então ele abriu os olhos. E ela era azulada novamente.

Com uma sensação de irrealidade, ele a via filtrada pelas venezianas, lançando padrões geométricos na parede oposta da janela em seu quarto. Enchendo-o de uma claridade fria.

Com um arrepio de medo e excitação, o jovem saltou da cama e deu dois passos em direção à porta.

Mas aí se dominou.

Deu meia volta e caminhou para a janela. Parecia haver um fogueira azulada do outro lado. Empurrou a vidraça para cima e escancarou a veneziana.

Não havia nada próximo. A ilusão se desfizera.

Mas lá, lá ao longe, ele podia ver a luz. Semelhante a uma fogueira no meio do campo.

Aos poucos, o pavor começou a diminuir. E ele se encheu de confiança.

Vestiu-se com calma e silenciosamente, se esgueirou para fora do quarto e foi até o armário da sala. Sabia o que encontraria ali. Carregado e por ele então engatilhado. Colocou na cintura e saiu pelos fundos, pé ante pé.

Ninguém acordou.

Jaime fez sua jornada pelo campo, ignorando qualquer precaução contra duendes ou maus espíritos. Não tinha medo. Tinha convicção. Talvez pela primeira vez na vida sabia o que queria e o que iria fazer.

A cada passo, a luz ficava mais próxima.

E, quando ele estava prestes a alcança-la, a ver o que ela era exatamente, o medo voltou como se de um soco.

Ele se erguia na sua frente. Alto, espadaúdo e forte. Usando uma rústica roupa branca sobre a pele escura cortada de cicatrizes. Olhos luminosos na escuridão, frios e determinados. Era deles que a luz vinha.

Jaime abriu a boca para gritar, e deu dois passos para trás, tropeçando nos calcanhares e caindo sentado.

O espírito riu alto. Com uma voz grossa e zombeteira.

 

Ele sacudiu o pé direito descalço.

Havia uma corrente que mergulhava na terra e cuja outra ponta agrilhoava o tornozelo.

-Não posso te fazer nada, menino – disse com uma voz ressoante – me prenderam aqui faz muito tempo, você sabe. Mas eu não posso deixar ninguém pegar o que tem aqui. Não vem pro meu lado que eu não vou pro seu.

Em sua mão direita havia uma adaga comprida e afiada, de dois gumes.

Jaime levantou devagar.

-Então… tem ouro aí mesmo?

-Você sabe que sim.

Num feitiço relâmpago, o jovem fez o medo virar fúria. Aprumou-se de pé e disparou com o revólver. Viu um buraco abrir-se de um lado a outro do peito da aparição. Seu sorriso se desfez e seus olhos se encheram de ódio.

Mas a bala não pareceu mais do que lhe modificar um pouco o aspecto. Ele avançou com a adaga na mão o mais que a corrente permitia.

Jaime correu de costas e disparou mais uma vez. Apontando com a cabeça. Com uma pontaria que não sabia que tinha, atingiu-o na testa, abrindo um buraco sanguinolento na pele, no crânio e miolos adentro.

Aquilo não pareceu perturba-lo mais que o outro tiro.

– Você quer o ouro. Pra isso tem que me vencer. Tem que me tirar daqui. E não é assim que se faz isso.

Jaime piscou e não havia mais ferimentos no outro.

Baixou a cabeça, como se esperasse voltar a dormir e acordar de um sonho.

E viu a corrente.

Sorriu e riu baixinho. Apontou a arma e disparou.

Os elos se arrebentaram.

O outro avançou em sua direção, dando gargalhadas. Não mais limitado pelo tamanho da corrente. O jovem disparou de novo, assustado, mas o espírito passou por ele como se ele não existisse, e sumiu correndo pelo campo.

Jaime olhou ao redor e estava sozinho.

Deu dois passos na direção que o outro correra, como se ele lhe devesse alguma explicação. Mas não pôde avançar mais.

Seu tornozelo direito estava preso.

 

Texto de: Luiz Hasse – facebook.com/profile.php

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