CAPITULO I

            “Prazer em lhe conhecer. Espero que adivinhe o meu nome?”

Era o refrão da música que escutava em meu rádio. Rolling Stones era minha banda favorita. Essa música era genial, fazia parte de mim. Viajava com meu Mustang preto 1968, pensava comigo mesmo, andando em um clássico e escutando um clássico. Era muito bom isso. Viajar era um prazer, ainda mais a noite. Sentia uma enorme satisfação em pegar a estrada na madrugada. Sem carros para obstruir a via, sem guardas chatos para te parar no trânsito. Como se diz, a noite todos gatos são pardos. Essa a noite em especial era minha. Eu, meu Mustang, minha música, minha cerveja, minha solidão, minha madrugada.

Acabara de completar 25 anos. Aliais já faziam quase duas horas que passara do meu vigésimo quinto aniversário. Eram quase duas da manhã. Como de costume, havia saído de meu trabalho por volta das onze horas da noite.

Um excelente trabalho diga se de passagem. Trabalhava em uma rede de rádios. Meu programa era um dos mais populares da rádio. Chamava-se, “Adeus Solidão.” Um nome meio brega pensava, mas o público adorava, principalmente aquelas solteironas que ligavam toda noite em busca de uma companhia.

Como o mundo é idiota eu pensava. Um monte de gente querendo achar sua alma gêmea e eu aqui o cara da voz de veludo que proporcionava diversos encontros de corações aflitos, curtindo minha solidão e pouco me importando com isso. Estava na estrada a algumas horas. Iria dirigir até o amanhecer. Adorava esse ritual de estrada, música e cerveja. Meu objetivo era chegar ao litoral. Minhas primeiras férias desde que comecei a trabalhar na rádio. Queria aproveitar ao máximo esse momento. Viajava em uma velocidade razoável. Gostava de observar a paisagem. Embora estivesse viajando a noite, a estrada me encantava, o farol do carro rompendo toda aquela escuridão, era muito prazeroso. Gostava de ler as placas que se iluminavam pelo caminho. Achava extremamente interessante, quando elas surgiam de súbito com a forte luz do farol de meu carro, era sempre uma surpresa. Ficava imaginando qual iria surgir depois da curva. Andava em uma estrada chamada, Estrada do Meio. Não sabia exatamente porque se chamava assim, alguns diziam que era uma boa estrada para se andar para o litoral, durante o dia. Havia uma certa lenda que a Estrada do Meio era assombrada. Bobagem, pensava eu. Até mesmo o imbecil do JP, meu colega da rádio havia me alertado para não vir pela Estrada do Meio que era um local sinistro, que o demônio iria sugar minha alma, aquela baboseira toda de gente que acredita nessas coisas sobrenaturais. Como sou uma cara esperto, não acredito em nada que não possa ver e tocar, talvez bater um bom papo. Mais nada além disso.

Essa estrada do meio não me assustava nem um pouco. Uma rodovia como tantas outras que viajei pela madrugada a fora. Levantei o volume do rádio, apenas eu meu Mustang, minha boa música e minha cerveja. Cortando a madrugada, curtindo minha solidão. Havia passado pelo Km 36 da estrada. Teria que viaja no mínimo mais uns duzentos km até chegar no litoral. Estava completamente acordado, sem um pingo de sono, isso era bom, conseguiria chegar tranquilo ao meu destino antes do amanhecer. A estrada era realmente muito escura, e chegara em um ponto em que não haviam mais casas ou luminárias das placas. Mais parecia um deserto com uma estrada sem fim. Estava tranquilo, já passava do km trinta e nove, o ponteiro do carro mantendo velocidade constante. Havia combustível suficiente para toda viagem, estava em meu maior estado de relaxamento desde o início de meu trajeto.

De repente, surge uma luz muito forte no contra fluxo da estrada. O primeiro veículo que encontrara em toda viagem. Baixei a luz como manda a educação e as normas de trânsito. Da mesma forma agiu o veículo que vinha em direção contraria. Acabei diminuindo a velocidade, cuidado nunca é demais quando se viaja a noite. O veículo passou por mim no exato momento em que passava o km 42 da estrada. Ele estava em baixa velocidade, mas mesmo assim não consegui ver que veículo ou modelo era. Pensei, mais um viajante solitário que gosta de pegar a estrada a noite como eu. Retomei minha atenção na viagem, afinal havia um bom trecho de chão pela frente. Olhei para retrovisor, para ver se enxergava o veículo que a pouco cruzara, achei estranho, não conseguia vê-lo mais. Havia passado por ele a poucos instantes em uma velocidade baixa. Desapareceu tão rápido de meu campo de visão. Pode ter acelerado um pouco pensei. Voltei a minha tão querida solidão, peguei uma cerveja na caixa térmica, botei minha música preferida do Rolling Stones e comecei a cantar. Minha voz era horrível, mas na madrugada cortando a estrada e tomando uma cerveja até que não estava tão mal assim. Eu cantava alto, sabia que ninguém me escutaria mesmo, poderia exagerar no volume sem problemas. Finalmente km cinquenta, bem ao final da música. Uma sensação de euforia tomava meu corpo. Não sabia exatamente o motivo, talvez a música, a cerveja, a estrada, tudo isso me fazia bem de certa forma. Pensava comigo mesmo, a solidão é minha maior amiga. Quando peguei a garrafa de cerveja em minhas mãos para mais um gole, uma frase ecoou pelo meu mustang preto ano 1968.

– Prazer em lhe conhecer. Espero que adivinhe meu nome…

Texto de: Mauricio Prestes – facebook.com/profile.php

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