‘’Então como é?’’ – perguntou o jovem rapaz de cabelo estilo beatle…

‘’O que?’’

‘’Ser escritor…’’ – afirmou, selando seu baseado…

‘’É melhor do que ser mendigo.’’ – respondi dando um longo gole na minha cerveja.

‘’Você é engraçado’’ – disse a garota, rindo, insinuando-se…

‘’Você é muito mais do que apenas, isso.’’ – respondi, esboçando um sorriso sem mostrar os dentes…

Ela se manteve sorrindo, dando um pouco de beleza pra minha vida, pelo menos naquele dia…

‘’Você fuma?’’ – perguntou o rapaz, tragando seu baseado.

‘’Hoje não garoto’’ – respondi levantando e o saudando com a cerveja.

‘’Vou buscar mais uma, quer?’’ – perguntou, apontando pra minha cerveja.

‘’Claro.’’ – respondi.

O garoto sumiu no corredor sem lâmpada, provavelmente foi ao banheiro, antes da cozinha, espero eu que ele tenha lavado as mãos..

 

‘’Você não gostou dele não é?’’ – perguntou a garota.

‘’Não gosto muito das pessoas.’’ – respondi.

‘’E de mim?’’ – perguntou, ajeitando o cabelo, inclinando-se em minha direção.

‘’De você eu gostou um pouco mais.’’ – respondi, secando meu bigode, da cerveja…

‘’Nós deveríamos sair algum dia.’’ – ela disse, sorrindo, abrindo-se, como uma flor, ou como uma armadilha de urso, sendo armada é claro…

‘’Nós estamos saindo’’ – respondi.

‘’Você entendeu.’’

‘’Sim, deveríamos’’

 

Levantei e senti a cerveja, nada mal, a tontura e a mulher, pensei, sentando ao lado da garota…

‘’O que aquele garoto tem na cabeça, em trazer você num lugar desses?’’

‘’Eu não sei, mas não me arrependo de ter vindo. ’’ – me respondeu sorrindo, ressuscitando alguma coisa morta há muito tempo, dentro de mim.

‘’Você é cruel, como a maioria das mulheres, mas o teu sorriso é raro, como alguma coisa rara, que não seja tão piegas, de se dizer, ou comparar…’’ – disse, deslizando minha mão por uma de suas pernas, agarrando-a com a outra mão, pela nuca.

‘’Isso é errado’’ – ela disse, não hesitando em me deixar enfiar a língua na em sua boca…

Beijei-a sem pensar, beijei desejando-a por inteira, devorá-la, mastiga-la, a inevitável violência do amor, que há de ser controlada, para o bem, da humanidade…

 

Nisso o garoto volta e nos pega no meio do primeiro ato…

 

‘’QUE MERDA É ESSA, SEU VELHO FILHO DA PUTA?’’

Ele joga uma cerveja contra minha cabeça, a mira do garoto é boa, mas meus anos de boxe clandestino, me deram o reflexo suficiente pra esquivar e gritar:

‘’PORRA, SEU MERDA! A CERVEJA CARALHO!’’

‘’EU VOU MATAR VOCÊ SEU VELHO TARADO DE MERDA!’’

O garoto sacou seu revolver das costas e antes que eu o acertasse com um cruzado, o cano da arma esfriava minha testa e a minha alma…

‘’Ei, espera ai garoto, vamos com calma…’’

‘’CALMA? EU VOU EXPLODIR TEU CRÂNIO SEU VIADO!’’

‘’Ah, foda-se!’’ – respondi e fechei os olhos.

 

‘’DONNY NÃO! FUI EU! Que beijei ele!’’ – disse a garota, mentindo e salvando minha vida.

 

Donny abaixou a arma e a guarda, acertei-lhe um direto no olho e tirei o 38 da mão do garoto…

 

‘’MERDA!’ disse ele, segurando o olho.

‘’A tua sorte é que eu não sou vingativo e que sou preguiçoso demais pra limpar a sujeira, senta ai garoto, vou buscar um bife pra esse olho…

(Eu sou uma boa pessoa, ou chego perto disso)

Ele sentou e ignorou minha presença…

‘’SUA VADIA DE MERDA! É A SEGUNDA VEZ QUE VOCÊ FAZ ISSO, POR QUÊ? EU TE DOU TUDO QUE VOCÊ QUER, TE LEVO PRA TUDO QUE É LUGAR E TU FAZ ISSO COMIGO?’’ – gritou segurando a garota pelo braço.

‘’VOCÊ É UM FROUXO! ELE É UM HOMEM DE VERDADE, ASSIM COMO RON E VICTOR E MICHAEL, VOCÊ É UM FROUXO DE MERDA, QUE SÓ FUMA E COME COMO UM PORCO, ME SOLTA!’’ – gritou ela, desvencilhando-se dele.

‘’VACA!” – disse ele, esbofeteando-a com o dorso da mão, a estendendo no sofá.

 

Essa noite, vai ser longa, pensei, no caminho pra cozinha, antes fui dar uma mijada, não lavei as mãos, de propósito dessa vez…

Tirei as balas do revólver…

Enchi 3 copos de uísque até a metade, segurei os 3 entre os dedos de uma de minhas mãos, usando minhas habilidades de garçom.

Não tinha nenhum bife, mesmo se tivesse, eu não o desperdiçaria, no olho daquele merda.

Na outra mão eu empunhava o 38, já havia bolado meu teatro…

 

Os dois trocavam-se tapas e xingamentos no meu sofá…

‘’seu viado’’

‘’sua puta’’

‘’pau pequeno’’

‘’vou te matar’’

Tapas, arranhões, cusparadas, apertões, puxões de cabelos…

‘’CANSEI DESSA MERDA! OS DOIS VÃO MORRER!’’ – apontei o revolver desmuniciado para eles e disparei 5 vezes, de súbito eles se calaram, arregalaram os olhos e apertaram o cu…

‘’Até que enfim, um pouco de silêncio nessa casa… Escutem, crianças, apenas, me escutem…’’

E como crianças emburradas, ambos concordaram, balançando a cabeça estupidamente, me encaravam, esperando ouvir uma história…

(Que merda, eu me sentia o pai ou avô dos dois, e até eu tinha idade pra isso.)

Me sentei na poltrona, soltei dois copos de uísque na frente deles e emborquei o meu…

‘’ Vocês leem o que eu escrevo, se não, não estariam aqui, porra, isso aqui é um conto! Só que isso foi real, um velho como eu, ser beijado por uma garota dessa idade… É mais provável que Jesus volte, antes que isso aconteça novamente, tente me entende parceiro, relaxa…’’

‘’Eu leio o que você escreve, você transa com uma garota de 24 anos, Lorraine, se não me engano, não mete essa cara, eu leio o que você escreve.’’ – disse o garoto, goleando o uísque, com as sobrancelhas baixas.

‘’Lorraine? Quem é Lorraine? Porra é tudo inventado garoto! Eu sou escritor, nós escritores, somos todos mentirosos, dissimulados e solitários miseráveis, inventamos coisas, vivemos disso porra! Isso que aconteceu aqui, vai ser um dos poucos contos autobiográficos…’’

‘’Se tu citar meu nome real, eu te processo.’’ – respondeu, emburrado, como uma menininha, o garotão já havia se rendido.

‘’Quantos Donnys existem no mundo garoto? Não seja estúpido, claro que não usarei seus nomes reais, e provavelmente na história eu vou transar com a sua garota ao invés de apenas, beija-la.’’

(Na mão, eu tinha quase certeza que ele não aguentaria comigo, tive de soltar essa.)

‘’ Você é um filho da puta de merda mesmo…’’ – disse ele inconformado, terminando seu uísque.

‘’ Eu sei garoto, eu sei, mas vamos deixar isso pra lá, vou buscar o uísque…’’

O silêncio se manteve por um tempo, o garoto estava realmente decepcionado, a garota o acariciava e ele negou e deteve as caricias, por um tempo…

Mas logo cedeu e eles se beijaram, um beijo curto, sem língua, seco…

Bebemos do meu uísque, e discutimos um pouco sobre os candidatos a prefeito, o garoto parecia saber alguma coisa, eu fingi entender, e respondi o contrariando, e expondo a relatividade mais irritante e inútil, de todas as coisas.

Em menos de uma hora, eles decidiram ir embora, os ânimos estavam melhores, porem não havia como negar que, nem ele, nem ela, deveriam estar juntos, mas isso acontece, com a maioria das pessoas que namoraram muito cedo, ou muito tarde…

Levei-os até a porta, ele pegou seu revólver e se negou a apertar minha mão, a garota não me disse nem o nome, apenas me abraçou e entregou  seu número em um papel…

Quando ela teve tempo pra isso? Pensei… Foda-se, coloquei no bolso…

Ele ligou o carro e ela correu balançando seu rabo a luz da lua…

 

Ela não terminou seu último copo de uísque, ele esqueceu meio baseado, sentei na poltrona, acendi o baseado, tomei um gole de uísque e liguei para Lorraine…

‘’Oi amorzinho, o que você tá fazendo?’’

‘’Nada e você?’’

‘’Bebendo, fumando, pensando em você, o de sempre…’’

‘’Nem vem com essa, até parece que pensa em mim…’’

‘’Bom, se não acredita, acho que a poesia será minha companhia da noite novamente…’’

‘’Você não me merece mesmo, nunca nem sequer escreveu um poema pra mim…’’

‘’Escrevi no dia em que te conheci…’’

‘’Não mente, você só escreve contos escrotos sobre mim, como se eu fosse uma de suas putas, acha que eu não leio o que escreve?’’

(Eu tenho que parar de escrever, pensei.) E depois de um silêncio quase constrangedor, eu disse:

‘’Bom, fico feliz que você me lê, vai gostar do poema que escrevi pra você’’

‘’Ótimo, quando você publicar eu leio.’’

‘’ Até eu tenho certo nível de bom senso em expor minha vida pessoal, sabe, eu não me sentiria bem publicando, minhas últimas, mais profundas e sinceras palavras escritas para uma mulher…’’

 

(silêncio no telefone)

 

‘’Eu vou… Mas só pra ler o tal poema…

‘’Estou te esperando baby…’’

Desliguei o telefone.

Corri para a máquina, com o copo na mão e o baseado na boca, sentei baforei, terminei o copo, coloquei a merda dos meus óculos e me pus a escrever um poema de amor, para Lorraine, minha garota de 24 anos…

(eu sou um escroto mesmo)

Texto de: Vinícius Prestes

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