I

 

Júlio olhou para o homem sentado na sua cadeira de detetive. Tinha uma lembrança dele mais jovem. Mas também não sabia quanto tempo fazia. Ele viera a caráter. Negro e vermelho. E tinha uma aparência gasta. Cansada.

 

– Câncer –  disse o recém-chegado – eu sempre pensei que fosse ser alguma coisa envolvendo faca ou bala. E no fim só uma doença dolorosa no fim do caminho.

– Entendi.

– Não. Você só começou a entender – apontou para o objeto na mesa – isso aqui é um peso. O tipo de peso que procurou a vida toda. Acredita em mim. Isso não vai te fazer livre. E por isso eu vim te oferecer outra coisa.

– Por que pra mim?

– Porque tudo tem a ver com você, Júlio. Lembra quando nos encontramos na estrada? Foi nossa primeira vez e houve sangue. Dos dois lados. A conexão é profunda porque, depois daquele encontro, eles morreram. Ela morreu. E eu sei que foi por sua causa.

– Sou só um profissional fazendo meu trabalho.

– Como você sabe? Você não lembra e eu SEI.

 

Júlio sentiu pavor genuíno pela primeira vez em anos.

 

– Você sempre esteve neste escritório. Sempre fazendo a mesma coisa – continuou o recém-chegado – você fala com uma secretária. Ela é gostosa, eu imagino. Loira com inocentes olhos azuis. Mas tem alguém aqui quando você chega? Nunca tem. O que te motiva? Você ganha pilhas de dinheiro pelo assassino que é. E diz que é detetive. Mas raramente gasta esse dinheiro com algo além de sobrevivência e ferramentas de trabalho. O que te motiva? Do que está correndo atrás?

– Isso é problema meu.

– Não é problema seu se não lembrar. Quer lembrar? Quer lembrar quem você era antes?

– Que diferença faz?

– Você esquiva porque sabe que uma parte de você quer. E, acredite, eu teria passado pra alguém melhor. Mas você… tem tanto sangue em você… NINGUÉM mais merece isso.

 

Olhou para a máscara. Novamente.

 

– E o que você me oferece?

– Você sabe. Sua Alma de volta. Não apenas memórias ou restos de energia vital. Sua Alma. A pessoa que você era e o que fazia antes. Se aceitar, leva meu fardo junto. É pegar ou largar. Mas posso prometer uma coisa.

– O quê?

– Vai doer.

 

A mão de Guilherme foi rápida. Júlio esperara a espada e ele mesmerizara-o com palavras. Sem reação. Faca arremessada, como da primeira vez.

 

Sem problemas, um detetive deve…

 

Não. As mentiras acabaram hoje. A mão de Júlio puxou o revólver, o único que restava depois do mais recente trabalho, mas o impacto da lâmina no esterno o fez errar o tiro. A bala saiu por uma janela fechada. O invasor riu enquanto ele caia de costas e errava mais dois tiros.

 

Não conseguiu se levantar. Estranhamente. Não doía. Era só o peito furado. Tudo bem. Havia até um certo…

Torpor…

Relaxamento…

 

– Não – disse o outro – Sem saídas fáceis agora.

E as lembranças começaram.

Tudo começava numa manhã de sol. Numa rua cinzenta que brilhava naquela primavera. E grades prestes a se abrir…

 

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Texto de: Luiz Hasse
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